Agosto 15 2016

 

“Regime” político é uma expressão imprecisa e polissémica. Tal como “sistema” económico, conceito de fronteiras fluidas e de conotação múltipla, o que lhe permite de resto uma utilização recorrente. Como esta nota não constitui um ensaio científico, dispensar-me-ei de proceder a uma revisão concetual cuidada de ambas as expressões, e passarei de imediato a uma definição prática e cómoda da situação portuguesa: temos vivido num regime republicano, semi-presidencialista e democrático. Temos eleições livres e universais, separação de poderes (mesmo que alguns, como o judiciário, não funcionem), liberdade de expressão, de manifestação, de greve, de imprensa e de associação. Temos liberdade política – partidos – e social – relações industriais entre sindicatos e associações patronais autónomas. A economia política – o sistema – baseia-se na coexistência do estado social (inacabado, como por definição serão sempre os estados sociais), do mercado capitalista e da sociedade civil, como esferas principais da organização política, económica e social.

Embora com um atraso de dois séculos em relação a outros países que são hoje nossos pares – ainda que alguns deles incomparavelmente mais poderosos – chegámos, pois, a um regime e a um sistema típicos da modernidade ocidental.

Esses países modernizaram-se e tornaram-se simultaneamente mais justos no plano social e mais eficientes no plano económico num quadro de conflito e competição, que levou a dois catastróficos conflitos mundiais. Porém, saíram do segundo conflito com uma nova ambição de paz, cooperação e promoção da solidariedade social como base do crescimento económico. O modelo social Europeu, uma das melhores invenções da humanidade, só foi possível com base nessa cooperação, materializada na criação da CEE, depois UE.

Países como Portugal, chegados tardiamente à democracia e à liberdade, encontraram nesse espaço uma referência e um suporte para o seu próprio progresso. A modernização “inacabada” em Portugal foi assim, em boa parte, o produto do processo de convergência com os seus novos parceiros, que vinha acontecendo desde 1974 até 2011. Depois, a crise interrompeu o processo e a própria UE dá sinais de perigo de dissuloção, uma vez que foi incapaz de evoluir politicamente para uma organização útil para os cidadãos.

Nos trinta anos que levamos como "europeus" a reconversão setorial da economia e a recomposição de estruturas e processos sociais e políticos foram profundos e geraram legítimas expectativas entre os cidadãos. Por isso eles aceitaram uma mudança importante no regime consubstanciada na delegação de competências nacionais na União Europeia e nas suas instituições. Outros estados-membro procuravam eventualmente outros benefícios dessa União, mas para Portugal ela representava a segurança do regime democrático e a sustentação do progresso económico e social. Mas em qualquer dos casos consumou-se uma perda – embora relativa – do papel dos estados-nação singulares a favor de uma coligação de estados-nação. Embora de forma menos profunda, processos de associação semelhantes ocorreram noutras regiões do sistema mundo (no pacífico, no Mercosul, etc.).

A partir dos anos noventa do século passado muitas coisas mudaram de forma profunda. As mais importantes, no seu conjunto, formam o que chamamos hoje “globalização”. O impacto competitivo dessa nova realidade fez-se sentir fortemente na Europa, igualmente confrontada com processos socio-demográficos desafiantes das instituições nacionais e europeias, como o envelhecimento.

A “resposta” a estes problemas que se tornou dominante é conhecida pelo nome de neoliberalismo. No essencial, o neoliberalismo, tem vindo a impor uma agenda de recuo do papel do Estado e da solidariedade politicamente organizada a nível político, a favor da liberdade de ação dos agentes singulares entregues às suas próprias forças que, no caso das classes de menores recursos, são afinal fraquezas. O Estado social tem vindo a ceder à dualização das políticas sociais (acesso aos melhores recursos pelos mais ricos, mínimos para os mais pobres). Os mais poderosos, apoiadas em mudanças tecnológicas que facilitaram o processo, tiraram todas as vantagens.

Daí até aos nossos dias vieram assim a crescer as desigualdades sociais e a acumulação de capital atingiu níveis que provocaram enormes desequilíbrios sociais e económicos. Os mecanismos de mobilidade social enfraqueceram-se e as desigualdades aprofundaram-se, com benefício dos que já eram privilegiados havia muito, como bem mostrou Piketty.

Foram as desigualdades, diretamente relacionadas com o novo capitalismo especulativo do mundo financeiro globalizado, que geraram a crise de 2007/2008. Esta começou por ser financeira, mas rapidamente se revelou sistémica, revelando igualmente as dificuldades de governabilidade democrática – isto é, processada na esfera pública – do sistema global.

A crise tem, pois, várias facetas, todas elas dramáticas: o recuo da solidariedade e o avanço do egoísmo, não apenas nas relações entre as pessoas, mas também entre as classes sociais e os países; o crescimento da pobreza em zonas onde tinha recuado para níveis próximos da erradicação e a manutenção de situações de extrema precariedade de extensos segmentos da população que, em várias zonas do mundo, vivem abaixo de qualquer limiar imaginável de dignidade humana; a ameaça do aquecimento global e das catástrofes que se vão mostrando por causa dele, anunciando tragédias ainda maiores; o crescimento do ódio, da xenofobia, da intolerância e das suas consequências na violência – terrorista e de estado –, na perseguição/expulsão ou no fechamento de fronteiras a migrantes; o avanço de regimes ditatoriais quando se esperava uma crescente “mancha democrática” no mapa mundial; a persistente descriminação das mulheres, entre outros “grandes problemas” da humanidade e, naturalmente, também portugueses.

Se a estes fenómenos juntarmos os “pequenos riscos” que enxameiam a comunicação social e invadem o quotidiano das pessoas, bem se compreende o clima de medo e o sentimento de crise permanente em que nos estamos habituando a viver.

Do Estado se esperaria, de acordo com as suas funções explícitas em sociedades como a portuguesa, uma ação corretora destes problemas. A corrupção e a promiscuidade entre negócios e política, que estão longe de ser mera retórica populista, confirma a denúncia feita por muitos analistas, da captura do Estado por parte de interesses particulares. Aqueles que, como é costume, ganham com as crises. E o sentimento de “crise” omnipresente cresce. E já nem a Europa nos vale, pelo contrário parece apostada em oprimir-nos e humilhar-nos.

Ao ponto a que chegámos, quase podermos dizer que, mais do que uma ação política para superar a crise, aquilo que parece afirmar-se como realidade estável é a crise (palavra que entretanto se banalizou, facilitando o convívio com ela), nas suas diversas dimensões, como matéria de que se vai alimentando da própria ação do regime político. Com todos os perigos que isso acarreta. Nomeadamente o de que o totalitarismo das crises não se reflita em qualquer crise do regime político. Que segue feliz e contente, como se nada se passasse.

publicado por cafe-vila-franca às 22:16

Junho 05 2016

Dois acontecimentos recentes motivam este meu comentário. A reação de alguns lisboetas aos planos para a construção de uma Mesquita em Lisboa, e a tentativa do PAN, PEV, BE e 10 Deputados do PS iniciarem um processo de destruição da Festa de Toiros (como se não bastassem os que, de dentro, a vão minando com os seus comportamentos).

O que une os dois acontecimentos? A intolerância, o preconceito, o autoritarismo, a discriminação, a ignorância e a prepotência. As mesmas que levam ao abuso sobre as crianças, à violência doméstica, à exclusão social, à segregação de quem é diferente das maiorias em matéria cultural, de sexo e orientação sexual, de idade, de cor da pele, de nacionalidade ou de estatuto social. Matérias muito diferentes, mas com o mesmo denominador comum. Vejamos então estes dois casos.

Quanto à Mesquita. A Constituição da República Portuguesa consagra a independência do Estado em relação a qualquer Igreja ou Religião e o princípio da liberdade religiosa. Desde sempre em Lisboa coabitaram pessoas professando diferentes credos, todas elas praticando livremente os seus cultos. Há até uma Mouraria na nossa capital. As exceções a estas regras constituem momentos negros da época medieval, com a perseguição a certas comunidades religiosas, como os Judeus.

Por causa das organizações terroristas que se dizem islamitas e dos ataques que têm sido perpetrados de forma bárbara, em nome da Fé (não interessando agora olhar a história das religiões e das relações entre os povos que as professam, nem os conflitos que tantas vezes se desencadearam em nome de um deus, quase sempre com a religião a ser cavalgada por outros interesses bem mais prosaicos, onde se podem encontrar as causas do terrorismo) muitas pessoas têm passado a olhar de maneira discriminatória todos aqueles que acreditam no Profeta. Fazem-no de forma irracional, movidas pelo medo e pelo ódio, que cega e leva à rejeição dos muçulmanos como se fossem todos iguais.

Muitas dessas pessoas não conseguem ver, tal a cegueira xenófoba, que com isso só alimentam por um lado, os próprios terroristas que visam espalhar o ódio, e, por outro lado, aqueles que provocam e alimentam os conflitos no médio oriente porque isso convém aos seus negócios.

Impedir a liberdade religiosa dos muçulmanos de Lisboa é fazer o mesmo que fazem tantos países do mundo árabe em que o culto de religiões que não as do Islão é proibido e selvaticamente reprimido. Como aliás se reprime toda e qualquer liberdade de pensar. Não podemos ser iguais a eles. Porque não podemos ser aquilo que condenamos. E porque isso é estúpido: ataca-se uma esmagadora maioria de cidadãos dignos satisfazendo os objetivos de criação de instabilidade, tensão e conflito perseguidos por uma minoria de fanáticos assassinos.

Tem, por isso, toda a razão a Câmara de Lisboa no que respeita à construção da Mesquita, e estão totalmente erradas as pessoas que, acicatadas por políticos populistas de direita, se manifestam contra a liberdade religiosa. Estão a manifestar-se, ao fim e ao cabo, contra a sua própria liberdade.

Aparentemente da esquerda, mas felizmente apenas do PEV, do BE e de uma dezena de imbecis do PS (do PAN recuso-me a falar), têm vindo os ataques à tauromaquia. De forma cobarde, usando pretextos diversos como o combate ao trabalho infantil, a promoção da escolaridade, o bem  estar animal, a defesa psicológica das crianças e a prevenção da violência, esses partidos apresentaram na Assembleia da República uma série de propostas de Lei que visam, caminhando “step by step”, acabar com a Festa de Toiros em Portugal.

Querem acabar com uma cultura (é assim que a lei portuguesa considera a tauromaquia) por decreto, apenas porque não gostam. Não faz parte dos seus padrões valorativos. Nunca fizeram o mínimo esforço para a compreender. Assumem apenas uma atitude arrogante de quem se sente superior aos seus concidadãos (até aos seus militantes de terras aficionadas). Mais civilizados, mais pacifistas, mais “amigos dos animais”, mais sensíveis e mais cultos. Quando no fundo são apenas mais ignorantes, pois a arrogância é irmã da ignorância.

No fundo o que pretendem é coartar a liberdade cultural, a livre expressão da identidade cultural de uma parte significativa do nosso povo, numa lógica de dominação e fascismo cultural absolutamente inaceitáveis. Não são menos totalitaristas, autoritários e preconceituosos do que aqueles que se esganiçam contra os imigrantes e os refugiados, procurando fechar-lhes as portas e negar-lhes uma oportunidade de vida digna.

Podem aparentar tonalidades diferentes, mas a farinha é do mesmo saco. Perseguir minorias religiosas e proibir manifestações culturais profundamente enraizadas em vastas zonas – das mais urbanas e modernizadas, às mais rurais e deprimidas – não tem nada de diferente. A ambas as coisas se dá o nome de preconceito e intolerância, instrumentos com que se fabricam todos os totalitarismos.

publicado por cafe-vila-franca às 12:16

Dezembro 02 2015

Hoje, dia 2 de dezembro, o primeiro governo de coligação entre o PS e a sua esquerda da era constitucional da democracia portuguesa apresentou-se no Parlamento para discutir o seu programa. Um dia destes deixarei aqui as minhas notas sobre o que se passou no plano político em Portugal desde 2011 e a minha opinião sobre os notáveis acontecimentos que se verificaram. Mas hoje resolvi escrever sobre um assunto urgente.

Em resposta a uma interpelação do Deputado do PAN, o Primeiro Ministro António Costa respondeu que discordava da fixação de uma regra nacional para o assunto, preferindo uma solução na qual devem ser os municípios a decidir o fim das touradas. É uma declaração ameaçadora.

No dia em que, em entrevista a um canal de televisão, A. Costa admitiu que poderia alargar as negociações que conduzia com os partidos à esquerda do PS até ao PAN, afirmei no Facebook que deixava de pagar as quotas e, portanto, de ser militante do PS. Não admito que um partido de tradição humanista negoceie com um partido misógeno, animalista, que coloca aqueles que diz serem os problemas dos animais acima dos problemas das pessoas e que possui uma visão do mundo que seria legítima, caso não a procurasse impôr, seja por que meio for, de modo totalitário, aos outros. 

Alguns amigos e amigas meus/minhas aficionados e ingénuos têm-me dito que não devemos prestar muita atenção aos que pretendem abolir a festa de toiros, porque são apenas um bando que procura o mero protagonismo e as sua bravatas estarão destinadas ao fracasso. Tenho insistido, por escrito e em intervenções diversas, que essa posição esquece a natureza dos atuais animalistas e das forças internacionais que os suportam, em defesa dos seus negócios e da dominação cultural, impondo uma maneira única (e nada natural) de olhar o mundo e a relação do homem com a natureza.

Hoje creio que ficou claro que o impacto da sua ação pode ser mais pernicioso do que muitos imaginam. É claro que os mais ingénuos julgarão as palavras de A. Costa como julgaram sempre a atuação dos políticos nas últimas décadas - na verdade, desde a proibição dos toiros de morte pelo governo fascista. Sempre evitaram o tema, receosos de desagradar ou a gregos ou a troianos. A posição de A. Costa também tem um pouco desta cobardia política: passar o assunto para os autarcas, sacudindo a água do capote.

Mas há uma nuance que não se pode deixar de notar: ele podia ter dito que "devem ser os municípios a decidir o que fazer com as touradas". Mas não, a frase só aponta para o fim das touradas. Isto faz toda a diferença. Nos municípios não se farão, então, referendos sobre o desenvolvimento da festa, mas apenas sobre o seu fim?

Já muitas vezes defendi que uma solução para a regulação da festa de toiros como a que existe em França, que deixa às comunidades locais e aos seus agentes políticos essa regulação, poderia ser útil em Portugal. Mas isso se, e apenas se, os municípios assumirem toda a regulação da festa. Incluindo as modalidades que ela assume, desde as tauromaquias populares às corridas integrais com toiros de morte. Mas não é isso que A. Costa diz. Ele não diz que quer fazer aprovar no Parlamento uma Lei que anule todas as anteriores e que transfira toda a regulação, mas toda mesmo, para os municípios. O que quer dizer que continuaremos limitados, sem a corrida integral e sem toiros em pontas, correndo ainda o risco de alguns municípios, dirigidos por gente facciosa, poderem ficar privados das corridas que agora se realizam no seu território. Seria um passo no sentido do tal fim, aparentemente desejado, de todas as formas de touradas.

Acho que a declaração é suficientemente grave e esclarecedora para que todos os setores taurinos e aficionados se reunam com urgência para debater a situação e as medidas a tomar. E devem exigir aos deputados que foram eleitos por círculos eleitorais onde predomina a cultura tauromáquica, aos outros que se dizem aficionados e aos autarcas, que se definam e digam de que lado estão. Nenhum deles pode ficar calado agora e mais tarde vir procurar simpatias numa qualquer barreira numa das praças em que às touradas não se ponha fim.

Este post é dedicado ao meu pai, Armando Capucha, que hoje cumpriria o seu 92º aniversário se ainda estivesse entre nós e que detestava políticos cínicos.

publicado por cafe-vila-franca às 21:24

Outubro 23 2015

Deste riquissimo período da história política do Portugal contemporâneo que estamos a atravessar, vão perdurar dois momentos pela sua grandiosa baixeza. Hesito em pronunciar-me sobre qual dos dois achei mais baixo e caricato, pelo que os coloco no mesmo plano. Falo, por um lado, da heróica reação do MRPP aos resultados eleitorais, decidindo expulsar o pobre do Garcia Pereira por "anti-comunista primário". Nem o Fernando Rosas, no auge do seu eloquente "auto-critico-me, camarada", faria pior.

Por outro lado, há o discurso de hoje do Cavaco Silva, no qual indigitou Passos Coelhos como primeiro-ministro e, do alto da sua imbecil senilidade, declarou que "jamais, fica ordenado, haverá no meu reinado, outra tourada real"...oh! desculpem (falar destas coisas tira-me do sério), um governo com BE e PCP em Portugal.

Podemos olhar os dois factos quer pela componente formal, quer pela substantiva, do ponto de vista do pragmatismo ou dos princípios, numa ótica sistémica ou realista, respeitando a tradição ou a inovação. Mas calma, não me vou servir deste esquematismo fácil para vos maçar. Basta chamar a atenção para como ele é útil para comentaristas que não podem ir além deste tipo de dicotomias simplistas (e, tirando-os deste filme, fica a minha chapelada ao Pacheco Pereira e aos poucos que escapam a estes esquemas mentais tão arrasadores como vazios no contexto). São esquemas perfeitamente utilizáveis para preencher toneladas de papel e resmas de horas de TV, sobre temas tão em baixo relevo. Na verdade são ambos factos políticos de pasmar. Duas pérolas. E não compreendo a razão pela qual os comentadores de direita (que são quase todos), que falam e escrevem nos órgãos de comunicação social de direita (que são todos), dão muito menos relevo à inteireza e coragem revolucionária da camarada Marta, do que à pulhice do ex-pide (segundo documentos que circularam nas redes e nunca foram desmentidos), corrupto comprovado, velhaco consabido e vingativo (que o dgam Carlos do Carmo e Saramago, lá na cova) Silva. Entrtanto, vamos sobrevivendo nesta amargura. À espera dos próximos episódios!

publicado por cafe-vila-franca às 00:26

Outubro 11 2015

Tenho lido e ouvido muitos comentários que afirmam restarem ao PS de António Costa três caminhos: ou consegue formar um governo de coligação (ou sozinho, mas suportado por um sólido acordo parlamentar) com os partidos à esquerda, ou não consegue (por impedimento seu ou de algum dos outros) formar esse governo e vai para a oposição assumindo a respetiva liderança, ou, terceira hipótese, acorda com a coligação PSD/PP uma solução que viabilize um governo minoritário desta direita, se não mesmo a entrada num governo com ela.

Na minha opinião, qualquer das duas últimas soluções representará o perigo de implosão do PS. Se a coligação à esquerda fará (como já está a fazer) saltar do barco os ratos que comem no mesmo esgoto da direita os restos da acumulação do capital, uma coligação à direita ou a demissão da função de recondução do país a uma política de crescimento e de solidariedade defraudaria, os  eleitores socialistas, que votaram para pôr fim à austeridade. Além disso, muita gente se perguntaria para que terá servido substituir António José Seguro precisamente com o argumento de que ele se preparava para formar um "bloco central com pendor à direita". A desilusão criada provocaria uma debandada interna e um afastamento das pessoas com dimensões que não consigo agora calcular, mas que reputo de catastróficas e com vastos efeitos duradouros. Esta consequência é tanto mais verosímel quanto mais se considerar que a vida política do país se radicalizou devido à ação fraturante do governo nos últimos anos, gerando um fosso no espaço que antes se chamava "centrão" e no qual o PS (bem como o setor democrata cristão do PSD, entretanto afastado do partido), se sentia confortável. Esse espaço é agora um abismo que engolirá quem teimar em manter-se nele.

Porque estamos assim?

Em primeiro lugar porque a coligação de partidos que teve mais votos nas últimas eleições perdeu-as de facto. Viu fugir-lhe 720 mil votos em relação às anteriores eleições e tornou-se minoritária. A tradição, que não é determinada pela Constituição, de entregar a tarefa de formar governo ao partido (ou coligação) mais votado não servirá, porque o governo terá vida efémera e em breve se abrirá uma nova crise política. De resto, julgo que a hecatombe (a queda de 12%) não foi maior apenas porque a direita foi eficaz na campanha que vem fazendo há mais de seis meses, com inequívoco apoio de toda a comunicação social e de alguns organismos internacionais dominados pelos interesses das grandes corporações financeiras  (como a Comissão Europeia, o Banco Central Europeu e o Presidente do Eurogrupo) viciando o jogo com o apoio prestado ilegalmente, por ingerência em assuntos internos, aos seus delegados no país. A mensagem dessa campanha era simples, compreensível e jogava com o medo: "herdámos um país falido, recuperámo-lo e salvámo-lo do caos". Apesar de todos os dias as informações estatísticas contradizerem esta narrativa, ela nunca mudou. Depois vinha a ameça: "quem votar no PS estará a fazer-nos voltar à bancarrota". A coligação de direita não precisou de programa porque esta história foi mil vezes repetida e convenceu setores da população que, embora descontentes, preferiram a segurança do conhecido (esta é a base do conservadorismo popular, pelo que não nos pode espantar), ao risco da inovação.

Prevalece, porém, a ideia de que a direita sofreu uma derrota eleitoral que apenas na cabeça autoritária (para não dizer pior) de Cavaco Silva e dos seus indefectíveis permitiria formar  um governo  ignorando os resultados eleitorais. É contudo lateral a discussão a respeito do papel do homenzinho, que nunca percebeu nem quiz perceber o que é a democracia e que vive na ilusão de que o voto só conta se corresponder aos seus próprios desígnios.

Em segundo lugar, o PS e António Costa também perderam as eleições. Quando foi referendado como o melhor candidato socialista para bater a direita, esperava-se uma maioria absoluta que, face ao desastre social criado pelo governo, era uma possibilidade mais do que credível. Costa não foi escolhido para ter um resultado idêntico ao de Seguro, que se contentava com ser o mais votado (contando apenas os partidos, e não a coligação de direita). Foi escolhido para assegurar o fim da política de austeridade, e isso implicava, segundo se acreditava na altura, obter uma maioria absoluta. Mas cometeu erros que mal se compreendem num político tão experiente. O maior dos quais terá sido esquecer-se que nas eleições nacionais se vota em função de uma visão global do que fará o governo, e não do detalhe do programa eleitoral. Por isso, enquanto a direita vendia o seu peixe, Costa preparava um programa económico, aceitando jogar no campo adversário, para depois então começar a campanha. Que só lhe correu bem precisamente quando, em vez dos rodriguinhos programáticos, optou pela visão de síntese, no debate televisivo com Passos Coelho. Quando lhe disse, olhos nos olhos, que tinha sido eleito primeiro-ministro com base na mentira, e que continuou a mentir a respeito do estado da nação, que era na verdade muito pior do que em 2011, e isso por causa da ideia da austeridade redobrada. Essa política radical da direita deixou o país mais pobre e os portugueses em acentuado declínio de rendimentos e condições de vida. As pessoas poderiam comprová-lo fazendo as contas às suas próprias vidas. Deveria desde o início bater na tecla de que a opção era entre o governo da miséria e um PS preparado para devolver aos portugueses o que lhes tinha sido roubado, e insistido nela sem parar. Não o fez, e perdeu. 

Em terceiro lugar, as eleições conferiram a maioria dos votos e dos deputados aos partidos de esquerda. Perante a dúvida acerca das reais intenções do PCP e do BE, derrotar o PS e viabilizar um governo de direita, ou criar uma alternativa à esquerda (dúvida essa que pairou no espírito de muita gente em 2011), e ao ler os resultados que o penalizaram por ter insistido na cassete anti-PS durante a campanha, e beneficiaram o BE que ficou a meio caminho, deixando escapar uma ou outra vez a ideia de que poderia abandonar o conforto do protesto para queimar as mãos na governação, o PCP deu um passo histórico ao dizer que poderia viabilizar, e até mesmo integrar, um governo do PS, abandonando alguns dos dogmas programáticos - saída da NATO, da UE e do Euro - mais ideológicos do que políticos. Esta posição, que saúdo vivamente, vem ao encontro de declarações de António Costa após a eleição para secretário-geral do PS, segundo as quais a ideia de "arco da gorvernação"  excluindo o PCP e o BE, era uma construção histórica que não tinha mais sentido. Deve formar governo, em democracia, quem tem mandato popular para o fazer. Ainda não sabemos o que irá acontecer nas negociações entre o BE e o PS, mas há fundados motivos para acreditar que se poderão entender. 

Se não o fizerem, PS, PCP e BE perderão uma oportunidade histórica e serão fortemente penalizados no futuro. Irão acusar-se mutuamente numa peixeirada que apenas reforçará a convicção de que votar à esquerda não vale a pena. Podem depois tranquilizar a consciência, chumbando as propostas de programa de gorverno e o orçamento de regresso à austeridade. Mas não serão desculpados por não terem sido positivos na assumção de responsabilidades.

No caso específico do PS, não coloco sequer a hipótese de integrar o governo, o que seria vergonhoso, e a falta de vergonha é falta de princípios e valores que apenas podem conduzir ao descrédito do regime. Por isso, ou se abstém viabilizando esse gorverno desta direita, contrariando as promessas eleitorais, caso em que perderá irremediavelmente a confiança do eleitorado, ou vota de modo a provocar a queda do governo, e pagará um preço elevadíssimo por nem governar nem deixar governar. Em qualquer caso, prevejo que em eleições convocadas para "desatar o nó", a direita será premiada (não por mérito próprio, mas por demérito da esquerda), com uma maioria absoluta. Isto, como disse, caso não tenha sido formada a alternativa à esquerda.

Por isso a António Costa sé resta um caminho: fazer tudo o que lhe for possível para formar um governo de esquerda liderado pelo PS e, se não fôr possível, mostrar sem deixar espaço para dúvidas de quem foi a responsabilidade. Sua, não pode ser. 

Por fim, deixo uma nota otimista. Estou convencido de que António Costa tem a capacidade para, com um tal governo, ajudar a resolver alguns dos bloqueios que se colocam hoje aos partidos socialistas europeus, amarrados que parecem estar aos interesses do capital e esquecidos das classes socias que deverão ser as suas bases de apoio. Os resultados dos trabalhistas ingleses não podem deixar de ser considerados. Pesem embora os boicotes e tentativas de subjugação que não deixarão de vir da União Europeia e dos seus atuais orgãos - que toleram governos fascistas e pró-nazis, mas não os que integrem partidos comunistas - essa é a única saída para o PS e a melhor para Portugal. Será um caminho difícil, mas não impossível. 

publicado por cafe-vila-franca às 15:05

Agosto 08 2015

Considero-me um aficionado de “banda larga”, que gosta do bom toureio independentemente da modalidade (a pé, pegas e, mais raramente, a cavalo), a quem cabem muitos toureiros, com diferentes estilos e predicados, na cabeça e, além disso, que aprecia não apenas as corridas de toiros, mas também, e muito, as tauromaquias populares, base de sustentação de toda a Festa.

Gosto, por isso, de andar por sítios onde o toiro sai à rua e é lidado segundo as regras de cada terra. Não vou falar hoje dessas regras nem dos significados que encerram. Vou antes dar dois exemplos de como as tauromaquias populares têm um impacto que vai muito para lá dos aspetos estritamente taurinos, criando nas pessoas o hábito de cuidarem do que é seu, da herança cultural que receberam e do governo e gestão das festas que constituem a expressão maior da identidade das suas terras. Os dois casos são Barrancos e Lageosa da Raia.

Em ambos os casos as festas são organizadas por Comissões de Festas que mudam todos os anos. No caso de Barrancos constituem-se duas Comissões. Uma com mulheres e outra com homens. A comissão das mulheres trata das festas religiosas de dezembro, a dos homens das Festas em Honra de Nª Senhora da Conceição e de outros acontecimentos que para ela convergem. Centrar-me-ei nesta última. São cinco os membros da Comissão de Festas. Geralmente são jovens os que a integram. Entre a contratação de toureiros, a compra dos toiros e posterior venda ao talhante que distribuiu a “carne mágica” pelas pessoas que a cozinham com tomate, a contratação de grandes bandas de música que tocam nos animadíssimos bailes no Quintalão, a contratação dos artistas ou grupos que atuam todas as noites no Largo da Igreja, entre um vasto conjunto de tarefas, são eles que se responsabilizam por tudo o que é necessárias para que a festa corra bem. Incluindo a angariação dos fundos necessários, umas gordas dezenas de milhares de Euros. Noutros tempos, até dar o nome para o Tribunal de Moura por causa da morte dos toiros, era uma consequência de pertencer à Comissão. Recebem um apoio da Câmara Municipal (por exemplo, a montagem dos tabuados e outros serviços de logística), mas é deles a responsabilidade para que a Festa seja grande como sempre. Empenham-se nisso com brio.

A Comissão de Festas tem de ser solidária. E por vezes isso implica sacrificar o orgulho próprio para servir a terra. De facto, cada membro da Comissão de Festas nomeia, sem que nem o nomeado nem ninguém mais o saiba, um amigo para o substituir. Quando os novos nomes são anunciados, com pompa, na Igreja, ninguém sabe que grupo se vai reunir. Podem entrar na Comissão (ninguém se nega) rapazes que andem com as candeias às avessas. Mas ali, na organização das Festas, esquecem-se os desaguisados e todos colocam o sucesso coletivo e o nome de Barrancos acima de tudo.

Na Lageosa da Raia, concelho do Sabugal, há quatro mordomos (ou mordomas) para as festas, e dois para a capeia raiana, ou corrida do forcão. São eles que, também aqui, tratam de tudo: dos arraiais, da procissão, da organização da Capeia, etc. E também têm de garantir o sucesso da festa, porque a competição e a rivalidade entre as aldeias raianas daquela região é muito forte, e ninguém quer ficar por baixo.

O processo de escolha dos mordomos obedece a um sistema semelhante ao de Barrancos. Cada Mordomo que vai sair nomeia quem o substitua. Os nomes dos candidatos são também anunciados na Igreja, no dia da procissão (que antecede o dia da capeia, não obstante os jovens se prepararem para os desafios do dia seguinte desfilando em ordem militar com as suas lanças e alabastros em riste e a passo certo). Pela tarde, a banda da música (este ano a banda veio de Pinhel), acompanha pelo Mordomos e inúmeros populares – eu andei lá misturado – que vão a casa de cada um dos nomeados. Se ele aceita a responsabilidade, vem à porta da casa receber quem chega e convida toda a gente para comer e beber no quintal. Porém, este ano o cortejo foi bater a um designado que “fugiu”, não estava em casa. Uma “vergonhosa” fuga às responsabilidades. Ficaram os outros três e, logo ali na casa de um deles, um outro cidadão da Lageosa se ofereceu. Lançaram-se foguetes e parece que a alegria foi ainda maior. Para o ano vamos ter outra vez festa brava, rija e muito divertida entre gente que sabe receber os visitantes (como também acontece em Barrancos, como todos sabemos bem).

Não há Câmara Municipal nem Junta de Freguesia metidas no processo ou sequer presentes. E vão ser os mordomos(as), quase sempre residindo longe, no estrangeiro ou na região de Lisboa, que se encarregarão do pesado fardo de organizar as festas, implique isso os esforços que implicar.

Dito isto, de onde vem o título deste “post”? Fiz umas contas: ao fim de, por exemplo, 20 anos, 100 jovens de Barrancos 120 da Lageosa, conhecem a fundo a sua festa. Sentem-se parte de uma corrente que passou por eles. Participam ativamente, por nomeação democrática, naquilo que a comunidade tem de mais valioso: as festas em honra dos seus Padroeiros. Em pouco anos ninguém, ou pelo menos nenhuma família (ela é um apoio fundamental), fica de fora da responsabilidade de aprender a cuidar e a defender o que é seu. Não é o “seu” egoísta. Pelo contrário, é o seu altruísta e solidário. Que resulta de uma forma de organização política da comunidade baseada na participação democrática de todos os membro naquilo que há de mais importante na vida dessa comunidade.

Esta perspetiva não tem nada contra a democracia representativa, nem sequer afirma qualquer superioridade intrínseca destes mecanismos de participação dos cidadãos na gestão da vida das suas comunidades. Mas não deixo de enfatizar a ideia de que, noutros sítios - como na minha terra, Vila Franca de Xira – estes exemplos nos deveriam fazer refletir. Aqui a principal responsabilidade é acometida às autarquias e às suas burocracias, que muitas vezes não sentem nem se identificam com a festa. Quais as consequências disso? Falamos sobre isso um dia destes. Mas deixo já duas pistas: as pessoas perdem o sentido de responsabilidade pela defesa da sua festa, enquanto esta perde brilho porque lhes falta o amor de quem as pode sentir como suas.

 

Só uma nota de rodapé: o meu filho Frederico cresceu muito este Verão. Primeiro “pegou ao forcão” na Lageosa da Raia, quando soltaram uma bezerra para os jovens. Uma prática que assegura o futuro da Festa. Já se fez, à nossa maneira, em Vila Franca de Xira, mas deixou de se fazer, e é pena. Depois fomos para o campo ver passar os toiros no “desencerro”. Só que um ficou para trás. Fomos obrigados a fugir para cima de um muro que mediria de altura, no máximo, 1,10 metros. E o toiro resolveu vir cumprimentar-nos. Gritei ao Frederico: não te mexas! Ele ficou quieto, com o toiro a olhar para ele a menos de 0,5 metros. Depois o morlaco lá se virou e encostou o rabo ao sítio onde eu estava, também, imóvel. Passavam os cavaleiros e o toiro nada… atiravam-lhe paus e outros objetos para o fazer sair dali, mas ele…nada. O Frederico perguntou-me baixinho se podia descer do muro, para o lado de trás. Que sim, mas sem muito espalhafato, disse eu. Até que, para aí 10 minutos depois, apareceu alguém com uma garrocha, e picou o toiro, que saiu do conforto da nossa companhia e foi pelo caminho errado de volta à aldeia. O Frederico e eu respirámos fundo. Ele comentou: pai, já apalpei, e não me borrei. Foi um valente.

publicado por cafe-vila-franca às 18:12

Agosto 05 2015

Cecil, o leão “estrela” do Zimbabwe, foi morto por um caçador furtivo. Criou-se uma onda de simpatia pelo leão e de condenação do caçador (sendo vários os apelos ao regresso à pena de morte) que não tem paralelo com a convivência diária com a morte e o sofrimento atrozes e cruéis que varrem de lés a lés o planeta atingindo mulheres, crianças e pobres vítimas da guerra, da intolerância, do fanatismo, da exploração mais selvagem e do completo desrespeito pelos direitos humanos.

A comoção por Cecil, compreensível, tem muito de irracional e foi aproveitada de forma demagógica pelos animalistas, grupo radical e fundamentalista que representa a tentativa de rutura final entre o Homem e a natureza e do Homem com a sua própria natureza.

Cecil era, como todos os leões em estado selvagem, um caçador. Ele e o seu bando, como todos os bandos de leões, matam outros animais para se alimentarem e para defenderem o seu território. As crias de Cecil serão mortos sem hesitações pelo(s) leão que vier a ocupar o lugar de Cecil no bando de leoas viúvas. Os leões caçam e matam outros animais com a mesma naturalidade com que golfinhos machos tentam matar crias recém nascidas “apenas” para que a mãe fique disponível para acasalar mais cedo (cito este exemplo, por ter também sido notícia recente um caso destes), e com que todos os outros animais se comportam em função do seu instinto.

O Homem, como disse Ortega y Gasset em Conferência proferida no Grupo Tauromáquico Setor 1 publicada numa obra sobre “A Caça e os Toiros”, também conserva o seu instinto caçador. Que controla por meio da caça legal. Como conserva instintos sexuais – tal como os golfinhos e os leões, os cães e os gatos, os ratos e todos os outros viajantes na Arca de Noé. No entanto, a sexualidade humana é bastante diferente da dos outros animais e plantas. Por exemplo, o incesto é um tabu em todas as sociedade humanas. Foi, segundo Claude Levi-Strauss, a proibição do incesto que criou a cultura. Não podendo relacionar-se sexualmente com membros do seu grupo, homens e mulheres tiveram de contactar outros grupos, comunicar com eles e estabelecer acordos matrimoniais mais ou menos complexos. Seria essa a origem de toda a cultura, isto é, da descolagem do animal homem em relação ao comportamento meramente instintivo.

Os homens, os únicos animais que produzem cultura, são capazes de refletir e interferir, segundo regras que eles próprios produzem, sobre os seus instintos e humanizá-los, isto é, regulá-los de acordo com determinados padrões culturais, variáveis de sociedade para sociedade.

É por isso que comportamentos como o incesto ou a violação são condenados e punidos. Esses comportamentos representam o regresso ao estado natural, descontrolado, animalesco, bestial, que a sociedade não pode tolerar. O mesmo acontece com a violência. Alguém que adota um comportamento violento e agride ou mata outra pessoa (se não se encontrar investido da função de uso da violência, como a que está atribuída aos exércitos e às polícias), deixando-se controlar pelo instinto animal, será, uma vez descoberto e detido, condenado na justiça. Não passa pela cabeça de ninguém culpar um leão por matar a gazela ou a zebra, ou punir o golfinho infanticida, ou o cavalo que faz sexo com a mãe ou a irmã, o cão que morde uma pessoa, o rato que transmite doenças, ou um longo etc. Eles agem de forma instintiva, não se lhes pode atribuir o dever de atuar de forma diferente. Ao contrário dos homens, a quem se pode, e deve, exigir o cumprimento de uma série de deveres e ater-se a uma série de regras, incluindo as regras morais que lhes permitem distinguir o bem do mal.

A caça tem regras. Sempre teve. Nos nossos dias, com o perigo de extinção de algumas espécies, essas regras tornaram-se mais apertadas. O Estado e as Associações de Caçadores controlam a aplicação das regras e procuram evitar incumprimentos. Mas, como acontece com a violência e a sexualidade, nem sempre a sua ação é eficaz. Emergem assim comportamentos socialmente condenáveis como o incesto, a violência sobre mulheres, crianças, idosos ou outras pessoas e às vezes povos inteiros mais fracos do que o agressor, ou a caça furtiva.

Perante esse e muitos outros fenómenos relativos às regras e ao seu incumprimento, a atitude civilizada é a de reforçar os mecanismos que permitam controlar o comportamento desviante (às vezes, quando perpetrados pelos Estados, esses comportamentos são “normais”, mas nem por isso menos condenáveis, como é o caso da guerra).

O que é totalmente abusivo é utilizar casos emotivamente significativos (e por isso também objeto de muita manipulação) para tentar impor aos outros, de forma totalmente arbitrária, crenças, convicções, gostos e comportamentos de grupos militantes que julgam e condenam de forma arbitrária todos os comportamentos contrários às suas preferências, usando mesmo meios violentos (como fazem os bandos animalistas agressivos).

Uma coisa é condenar a caça clandestina. Eu (que não sou caçador), e penso que todos os caçadores civilizados, condenam-na. Outra coisa totalmente diferente é pretender abolir a caça. Deixar de comer carne, peixe ou até ovos é uma opção de cada um, enquanto não se transforma num programa político que se vende em nome de valores maiores, como a defesa do ambiente, “Cavalo de Troia” de interesses inconfessáveis do totalitarismo cultural.

publicado por cafe-vila-franca às 22:34

Junho 04 2015

Sei que é um lugar comum um pouco pretencioso, mas como muitos outros não consigo deixar de dizer que o país e cada um de nós deveria estar a discutir não a dança de treinadores entre o Glorioso SLB e o seu vizinho Sporting, mas antes as coisas que interessam ao nosso futuro coletivo, o que realmente importa: como conseguir ao mesmo tempo correr com este governo e assegurar que o próximo segue uma política que beneficie os cidadãos e não os interesses financeiros.

Depois, sendo o desporto em geral, e o futebol em particular, um fenómeno social de inegável importância, então o que se deveria discutir e comemorar seriam os jogos, as jogadas, as táticas, as equipas, os títulos e os atletas, e não os protagonistas indecentes que são os dirigentes.

E se mesmo assim quisermos discutir as negociatas no futebol, então o que deveria chamar a nossa atenção é o que se prepara na FIFA: a substituição da matilha que reinava por outra que se prepara para reinar sob a batuta do tenebroso Platini.

Mas não há volta a dar. O futebol é paixão e, quando o tema é o Benfica, não há nada a fazer: não conseguimos conter o que nos vai na alma. Sobre esta trapalhada da contratação do Jorge Jesus (JJ) pelo SCP tenho a dizer que:

1. O JJ é um "futeboleiro" sem classe que não vale, como treinador, um caracol. Saiu-lhe a sorte grande de ingressar no Benfica e ficar apenas por teimosia do Presidente.

2. O Benfica ganhou alguns títulos (principalmente taças da liga, uma taça de Portugal e três campeonatos) porque dispôs de grandes equipas, nas quais vejo a mão (apesar de alguns boicotes), desse grande dirigente benfiquista (em tosdos os sentidos) chamado Rui Costa. Passaram e/ou estão lá jogadores como Júlio César, Luisão, Jardel, Maxi Pereira, André Almeida, Gaitán, Sálvio, Lima, Pizzi, Jonas, Garay, Pablo Aimar, Saviola, Xavi Garcia, Matic, Fábio Coentrão, David Luís, Ramires, Witsel, Enzo Peres, Di Maria, Oscar Cardozo, entre muitos outros.

3. Apesar disso o JJ conseguiu a proeza de perder dois campeonatos quando se encontrava com uma vantagem que colocaria o mais inapto no topo da classificação final; uma final de taça para o Vitória de Guimarães, uma meia-final da Liga Europa para o Braga e duas finais da mesma liga contra equipas que mostraram, no terreno, ser inferiores à nossa. Para além da modestissima presença na Liga dos Campeões, o espaço a que naturalmente pertencemos, mas pelo qual também temos de lutar. A incapacidade de ousar ganhar do treinador parece que transmitia à equipa uma ansiedade que a impediu, inúmeras vezes, de atingir o que estava ao seu alcance. Há quem veja o que ele ganhou, mas eu vejo também o que ele incrivelmente perdeu, e faço um balanço muito negativo do desempenho do homem.

4. Não foram só jogos decisivos e títulos o que JJ desperdiçou. Também deitou fora um conjunto de jovens que, com a devida oportunidade, seriam hoje, provavelmente, a base da equipa e da sua renovação. Falo de Cancelo, André Gomes, Bernardo Silva, Ivan Cavaleiro, Rui Fonte, Danilo (que desgosto me daria vê-lo no Porto...), Nelson Oliveira, etc. Mas esses não eram representados por grandes empresários e o dinheiro de eventuais transferências iria todo para os cofres do clube, e não, como muitos suspeitam, para comissões e luvas... A formação do Benfica desde os tempos do Chalana não produzia tanta qualidade em quantidade, mas a Jesus só interessam as negociatas com transferências de estrangeiros.

5. Agora JJ entra num clube dirigido por um lunático e a sua incapacidade vai saltar à vista, como aconteceu com Scolari, que foi campeão do mundo com "aquela" equipa do Brasil e que com a seleção nacional perdeu um Campeonato da Europa em Portugal e um campeonato do mundo em que éramos a melhor seleção. Contra a opinião geral, sempre disse que ele não servia, e a sua trajetória veio mostrar isso mesmo.

6. Mas o JJ vai para o SCP pelo dinheiro todo de que se fala apenas porque esse histórico do nosso futebol é agora dirigido por um tonto que se entretem a interferir no trabalho do treinador, a criticar a equipa e a desmoralizá-la? Não. Ele vai porque um certo senhor angolano que todos conhecemos do caso BES e outros sócios da Guiné Equatorial, injetaram dinheiro na SAD. É fácil adivinhar as intenções: com estes poucos milhões poderão mascarar sabe-se quantas jogadas "limpinhas" (ou de "limpeza") de muitos biliões, que irão parar às suas contas muito sujas. Com o JJ o SCP, assim dirigido, vai ganhar? Não. Há uma diferença entre o Pinto da Costa e, em parte, o Luís Filipe Vieira, e estes investidores mais o seu fantoche-Presidente. Os primeiros, que de santos não têm nada, ligam o seu sucesso pessoal ao sucesso do clube. Estes investidores só conhecem a cor do dinheiro e quanto mais trocos tiverem de "investir" para conseguir as vitórias que vão fugir, mais a máquina da lavagem vai funcionar. Digam adeus, sportinguistas, a coisas de que se podiam orgulhar, como a academia de Alcochete e os ídolos que de lá saíram. Não colam com o estilo do novo treinador.

7. Quanto ao Benfica, creio que a estrutura se vai manter e se o próximo treinador for competente (espero que seja o Rui Vitória, o meu preferido há muitos anos, como sabem todos os meus amigos) e se trabalhar para acrescentar Glória ao Glorioso e não apenas euros à sua conta e ar à sua basófia (que foi o principal atributo do JJ no Benfica), vêm aí muitas mais conquistas e um longo período de grandeza em Portugal e em todo o mundo.

publicado por cafe-vila-franca às 19:17

Janeiro 17 2015

Há acontecimentos, como o ataque terrorista e cobardo contra o "Charlie Hebdo", que têm a capacidade de trazer para a praça pública ideias que a maior parte das vezes só se pensam ou se confessam em privado. Isto, claro, e esta nota faz toda a diferença, se estivermos num país em que as pessoas podem dizer o que pensam, mesmo que o que pensam seja algo detestável e horrendo para quase todos os outros. É certo que, como é comum, com o tempo o entusiasmo pelo assunto vai-se esbatendo e outros assuntos ocuparão, ainda que só raramente com a mesma presença esmagadora e idêntica intensidade emotiva, o espaço do debate público. Mas alguma coisa ficará sempre na nossa memória, ainda que às vezes não pareça.

Todas as pessoas do meu espaço de relações condenaram o ataque. Mas dentro dessa unanimidade manifestaram-se diversas posições contraditórias. Alguns, como eu, disseram "Je suis Charles", não porque concordassem com o que dizia e desenhava o jornal, mas porque acham que ele tem o direito de o dizer e desenhar. E identificavam-se, nessa frase, com o valor da liberdade de expressão, sem limites. Foi também isto que disse Salmon Rushdie: não podemos limitar a liberdade do Hebdo. Nem de ninguém, está claro. Para mim, e julgo que para muitos milhões, "Je suis Charlie" significa isso e nada mais do que isso. O que já é, por si só, muito importante.

Outros, manifestaram opiniões mais oarecidas com a que recentemente manifestou o Papa Francisco. Condenaram o ataque, mas afirmam que a liberdade de imprensa deve ser usada com responsabilidade e parcimónia, isto é, deve ser limitada, nomeadamente quando toca em sentimentos dos outros tão profundos como a fé religiosa. Claro que o Papa está a advogar em causa própria, a defender os seus interesses e os da sua Igreja, quando defende esta limitação da liberdade de expressão. Mas, se a liberdade de expressão não serve para dizer coisas que podem ser desagradáveis para alguns, para que serve então? Particularmente quando é usada na forma de humor, uma arma que Umberto Eco, em "O Nome da Rosa", já mostrara ser das mais poderosas na luta contra a opressão. Alguém argumentou, com razão, que os países onde há liberdade de imprensa são também países onde existem Estados de Direito e onde, se alguém se sente ofendido e  considera que terceiros excederam os limites, pode recorrer a instâncias encarregues de as defender. Defender a liberdade é também recusar a justiça pelas próprias mãos. Liberdade de expressão castrada, não! 

Entre as pessoas das minhas relações, e até entre alguns amigos, também se manifestou a ideia cretina de que, avisados como estavam da ameaça que corriam, os jornalistas do Charlie Hebdo se deveriam ter contido e evitado falar do Profeta Maomé. Assim, teriam provocado o crime de que foram as vítimas. Trata-se, à primeira vista, apenas de uma ideia cretina. Mas refiro-a aqui porque me parece ser mais do que isso. É um apelo à cedência perante a ameaça terrorista, totalitária, fundamentalista. É o apelo à capitulação pelo medo. Não é por acaso que a extrema direita explorou este mesmo medo, aproveitando para propalar a sua ideologia xenófoba, racista e populista. O medo convém-lhe, porque abre o caminho para a chegada da intolerância e do fascismo ao poder. E depois, quando aqueles que agora condenam os jornalistas e caricaturistas do Charlie derem por isso, será tarde demais. 

Uma quarta posição parte de uma "frase batida": os direitos de uns acabam onde começam os dos outros. Parece inquestionável à primeria vista. Uma análise mais cuidada, porém, levar-nos-á a questionar o relativismo implícito na afirmação. Tudo se passaria como se a liberdade fosse um campo de forças gerido por uma mão invisível que marca a fronteira da liberdade de cada um. A uma escala global, o argumento apareceu, não necessariamente narrado por um conjunto homogéneo de pessoas, na forma da necessidade de compreender que certos valores, como o da liberdade de expressão, são do mundo ocidental, que não os deve querer impôr aos outros. Não é assim. O direito à liberdade é um direito humano. Não pode depender do sítio e do tempo em se nasceu e se vive. É um direito universal. Como muitos outros. O facto de não ser cumprido em grande parte do mundo, tanto no ocidente como no meio e no oriente, no norte e no sul, não o torna menos universal e, portanto, menos válido para uns indivíduos do que para outros. A Declaração Universal dos Direitos do Homem é uma referência absoluta. Não pode depender de particularismo ou de uma suposta divisão da liberdade onde exista um começo para uns que é o fim da dos outros. Por cima dessa "mão-invisível" da liberdade devem estar as leis e as regras de convivência entre os povos e as pessoas. A única maneira de respeitar os outros é respeitar a lei e o direito, nacional ou universal. 

A quinta posição insiste na posição de que entre os que se manifestaram sob a palavra de ordem "Je suis Charlie" estavam muitos algozes exploradores e opressores do povo, criminosos que apenas por cinismo e oportunismo político se afirmavam dissimuladamente de forma contrária a todas as suas práticas. Não posso dizer que não tenham existido casos desses. Mas é preciso notar duas coisas: primeiro, a linha que divide o terrorismo fundamentalista e fanático de todas as outras pessoas é uma linha que deixa muita gente execrável do lado de cá. O mundo não é perfeito e a vida obriga-nos muitas vezes a companhias que não desejaríamos, mas que temos de aceitar; depois, no meio da condenção de um ato bárbaro por milhões e milhões de pessoas, chamar a atenção para a presença das ovelhas ranhosas, é escarnecer, de algum modo, dos que estão de boa fé e, mesmo sem ser santos, não se confundem com os criminosos que se manifestaram, como era seu direito. 

Quem afirma esta última posição diz, ainda assim, coisas que vale a pena reter. Nomeadamente que há muita hipocrisia entre muitos dos que afirmam nas palavras e nas manifestações condenar o terrorismo, mas depois negoceiam com os terroristas ou com quem os financia (e como seria fácil seguir o rasto do dinheiro que chega à AlQaeda e ao Estado Islâmico!). O modo como os países do ocidente tratam a Arábia Saudita é exemplar a esse respeito. Como o é a perseguição de pessoas que manifestaram opiniões (nada mais do que opiniões) de simpatia para com os terroristas e por isso foram presas; a condenação inaceitável de pessoas como Raif a mil chicotadas, só por escreverem em blogues o que pensam sobre a religião totalitária no seu país, a Arábia Saudita uma vez mais; os massacres na Nigéria e em tantos outros países; a usência de liberdade nalguns dos mais poderosos países do mundo, como a Rússia e a China, com os quais o Ocidente se revela tão tolerante, colocando os negócios à frente dos valores; a brutalidade da polícia americana contra os negros; a prisão de Guantanamo, entre tantos outros casos. 

Já agora, vale a pena também insistir no princípio de que a liberdade não é o único valor pelo qual temos hoje, e sempre, de lutar. De resto, o pensamento único  neo-liberal estará sempre na linha da frente a defender a liberdade, embora sabendo na prática que, no mercado, essa liberdade favorece os poderosos e oprime os fracos, sendo a lei e o Estado quem liberta os oprimidos, os pobres e os injustiçados. Os valores da igualdade e da fraternidade, tantas vezes espezinhados quer pelos terroristas quer por muitos dos poderosos deste mundo que se afirmam - e fazem bem em afirmar-se - contra ele, não são menos determinantes. A liberdade sem igualdade e fraternidade é uma falácia, uma conquista incompleta e vulnerável. É da desigualdade e da injustiça que se alimenta o terrorismo e todos os totalitarismos. Que só terão fim numa sociedade mais justa e equitativa. 

Como se constrói essa sociedade? Não existem soluções mágicas. Existem caminhos que têm de se percorrer,e escolhas que têm de se  fazer. Por onde vamos agora, não chegamos lá. Todos os Charlies foram "compagnons de route", e foi importante que fossem tantos. Mas não queremos, de facto, seguir o caminho que alguns dos que lá estavam nos querem impor. A Europa, por ter mostrado já no passado que esse caminho é possível, tem nisso uma responsabilidade particular. Nós, como Europeus, temos de escolher o nosso caminho. E concentrar-nos no essencial (não confundir com unanimismos quanto às soluções e políticas a desenvolver. A divesidade é uma riqueza a preservar e aproveitar). Não misturemos porém as coisas. Sem isso nunca saberemos para onde vamos, pois estaremos sempre a espingardar ineficazmente em todas as direções. Ao Charlie Hebdoo que é do Charlie Hebdo, à luta pela igualdade, pela fraternidade e pela justiça o que pode romper barreiras nessa luta.

publicado por cafe-vila-franca às 20:21

Janeiro 03 2015

Pronto, já entrou 2015. Não é agora tempo para fazer balanços políticos e económicos do ano que passou nem projeções do que está para vir (interpretar situações e tomar posições é quando um homem quiser, como o Natal). Não é por mudar o ano que as coisas mudam. Mais importante nesta época é comemorar a passagem do tempo, celebrar os afetos e afeições, renovar laços. Esta é uma quadra de suspensão dos ritmos quotidianos do trabalho e de diversão. Uma das diversões típicas desta quadra é ir ao circo. O espaço e o tempo do espanto, do riso, do encantamento. O que torna o circo diferente de outros espetáculos e diversões é a variedade. É o conjunto que conta, mais do que a qualidade dos elementos individuais (que porém importa muito, mas só para distinguir uns circos dos outros). Com o devido respeito, o circo está para os espetáculos como o cozido à portuguesa para a culinária tradicional portuguesa. Agora suponhamos (é de coisas absurdas que iremos falar) que um movimento moralista qualquer, convencido de uma suposta superioridade sobre os amantes do cozido, iniciava uma campanha para acabar com a morcela no dito, exibindo por todo o lado imagens do modo como ela é feita a partir do sangue do porco. E que as pessoas, horrorizadas, passavam a apoiar o movimento e os moralistas conseguiam impor a sua versão do cozido sem morcela. Não era o mesmo cozido, pois não? Esse tipo de cruzadas morais ainda não chegou à cozinha, mas já está a produzir mossa no circo. Os movimentos animalistas, na sua cruzada moral (que nenhum animal lhes encomendou ou pediu) destinada a impor a toda a gente o seu ponto de vista sectário,conseguiram que algumas entidades públicas, nomeadamente Câmaras Municipais, alinhassem na proibição da utilização de animais no circo. As intenções não podiam ser mais puras e consensuais: acabar com o sofrimento dos animais. O formato da campanha é o mesmo que utilizam noutros campos, nomeadamente contra a Festa de Toiros (um dia virão todas as outras festas e diversões, porque, como bem mostrava Umberto Eco em "O Nome da Rosa", o riso e a diversão são subversivos e perigosos, diria mesmo pecaminosos). Com as avultadas verbas de que dispõem, montam umas quantas imagens em que aparecem animais a sangrar, ou homens a bater em animais. Retiram-lhes todo o cenário e anulam qualquer elemento de contexto, para assim chocar as pessoas, e divulgam-nas de forma massiva em todos os meios e redes. As pessoas em geral gostam de animais e ficam sensibilizadas. Algumas até horrorizadas. Aquelas imagens chocam diretamente com o seu sentimento. Assim se geram apoios para a campanha dos ativistas que entretanto vão dizendo que preferem os animais às pessoas, que os animais são melhores do que os homens, que os homens carregam todo o mal e os animais - e os animalistas - toda a bondade. Alguns políticos convencem-se que os eleitores passam a estar contra os animais no circo e menos a gostar do circo com animais, mesmo que não possuam disso nenhuma evidência que não seja a que é servida pelo lóbi animalista. Na caça ao voto, declaram-se proibicionistas. E os cidadãos que gostam do circo com animais deixam de o poder ver. Assim, de forma totalmente arbitrária. E irracional! Repare-se que tudo se passa no plano dos sentimentos e das sensibilidades. Nem uma única vez se pede às pessoas para pensar. Pois eu, que gosta de animais - mais de uns do que de outros -, julgo que é preciso pensar, para responder a algumas perguntas. Comecemos pela mais simples: quem é que, no circo, não sofre? Não é dolorosa, feita de sacrifícios, disciplina, dor e estoicismo a preparação de trapezistas, malabaristas, equilibristas, palhaços e domadores? E sofrem em nome das pessoas que vão ao circo porque gostam. Tal como é dolorosa e feita de muito sofrimento a preparação de qualquer atleta de alta competição, para dar apenas um exemplo de um outro campo. Vamos acabar com o circo porque as pessoas que o protagonizam sofrem a preparam-se para conseguir fazer aquilo que o comum das pessoas não é capaz, razão pela qual os admiram? Vamos depois acabar com o desporto de alta competição? Onde iremos parar segundo esta lógica? Responderão os animalistas que as pessoas fazem o que fazem porque querem, porque escolheram fazê-lo, ao passo que os animais são obrigados. O que revela demagogia e uma grande contradição no discurso. Demagogia e hipocrisia na medida em que todos eles sabem que as pessoas são elas próprias e as suas circunstâncias, que as escolhas que fazem são condicionadas pela sua natureza social, pelas suas experiências, gostos e disposições que as levam a escolher fazer aquilo que é preciso ser feito. A livre-escolha é socialmente condicionada e esse condicionamento é condição da liberdade de escolher dentro de um conjunto de regras e de condições que determinam as escolhas. Quanto à contradição, deixemos antes do mais uma nota: a base filosófica dos animalistas, que suporta a sua cruzada contra as outras pessoas, é que os animais com sistema nervoso central também sentem. Mais, dizem: é uma visão errada a afirmação da sua superioridade do homem devido à posse da razão e da capacidade de julgar o bem e o mal. O que importa, segundo esta narrativa, não é a razão, mas a emoção. Assim, os direitos são iguais para todos os animais que sentem. Se assim é, porquê evocar a capacidade de julgar e escolher por parte dos domadores do circo e dos atletas de alta competição (e de muitos outros profissionais das coisas "excepcionais") para os atacar? Não deveríamos apenas julgar a sua emoção e a sua sensibilidade? De onde vem a segunda pergunta: quem disse que os domadores são mais insensíveis, menos humanos, mais violentos, menos civilizados, em média, do que os animalistas ou do que qualquer um de nós? O que eles dizem é que adoram os seus animais, cúmplices da sua vida. Aliás, também duvido que os animais do circo gostem mais dos animalistas do que dos domadores. Tudo indica que o que se passa é o contrário. Não apenas os domadores compreendem muito melhor os seus animais, sem o que não seriam capazes de os levar a fazer o que fazem, como os animalistas não os compreendem de todo. Por outras palavras, a questão não é entre pessoas que gostam e pessoas que não gostam dos animais, mas entre pessoas que toda a vida viveram com eles e pessoas que apenas tentam impôr aos outros as suas maneiras de ver. Não é por acaso que a primeira lei de proteção dos animais de que temos conhecimento foi publicada pelo governo Nazi. Pelos vistos, o monstro Hitler gostava mais de animais do que de pessoas. E era bem conhecida a sua intenção de domar todos os homens submentendo-os à sua vontade. Contra Hitler e o fascismo, eu digo: viva o circo! Uma terceira questão: porque são protegidos alguns animais e outros não? Agora dizem-nos que não podemos separar o homem dos animais pela linha da posse da razão. Somos assim todos iguais, desde que todos tenhamos sistema nervoso central. Mas, pergunta-se, e os outros animais? Qual a razão para substituir uma linha de divisão arbitrária (razão/não razão), por outra que não o é menos (emoção/não emoção)? Porque podemos envenenar melgas e formigas e outros bichos quando invadem o nosso espaço e ameaçam as nossas colheitas, e não podemos domar elefantes, tigres, macacos ou cangurus? De resto, a própria linha que estabelecem os animalistas está cheia de arbitrariedades. Desratizar uma cidade, ou combater uma praga de pombos doentes, não é exterminar animais com sistema nervoso central? Então, vamos proibir essas práticas? Até onde nos leva esta lógica animalista? E, já agora, quem disse que manter um cão fechado em casa é proporcionar-lhe bons tratos? Algum animalista é capaz de promover uma campanha sobre o sofrimento dos cães e outros animais que são mantidos, contra a sua natureza, em apartamentos na cidade? E já agora, não será o amor desses cães pelos seus donos igual ao dos animais do circo pelo seu domador? Em quarto lugar, onde nos pode levar o discurso que afirma a igualdade entre homens e animais? Na Dinamarca foi recentemente publicada uma lei que pune a prática de sexo com animais. O que mais me espanta nessa lei é o que ela revela: que o sexo com animais deverá ser prática corrente na Dinamarca. O que por sua vez me leva a acreditar que na Dinamarca se perdeu a noção da fronteira que divide a cultura e a natureza. Onde nos leva o discurso dos "animais nossos irmãos"? A rutura com a nossa condição de animais com cultura só pode conduzir a práticas típicas das bestas. Quinta questão: quanto vale uma imagem sem o seu contexto de enquadramento? Peço desde já perdão a quem não quero ofender, mas pode alguém deixar de sentir como repugnante a imagem de um homem magro, macilento, ferido de morte, nu, despojado, sangrando pregado numa cruz em que agoniza? Fora do seu contexto sagrado, que lhe dá um significado religioso, essa imagem gerará repulsa. Mas no quadro do Cristianismo é uma representação sagrada de Deus, e o que os Cristãos vêm não é um homem sangrando pregado na cruz, mas Deus oferecendo o seu filho em sacrifício pela sua Igreja. Podemos dar um exemplo com menor suscetibilidade: um bife de vaca é uma coisa suja? Para os vegetarianos, um molho de bróculos é algo repugante? Eu respondo: depende do contexto. Esse bife ou esses bróculos no prato são uma delícia, mas no meio dos lençóis, na cama onde nos deitamos, são nojentos. O mesmo se passa com a imagens de homens e animais: a apresentação de imagens isoladas e colocadas fora do contexto não são verdadeiras, são pura manipulação e demagogia. Por fim, a sexta e última questão: a quem interessa esta demagogia? E quem financia as campanhas dos animalistas? São as indústrias pet, desde os veterinários de animais de companhia até às grandes indústrias de alimentos e produtos para animais de companhia, que repetem sem descanso a mensagem de que os animais valem tanto quanto as pessoas e que tratar bem os animais é consumir os seus produtos. Mesmo que isso implique que milhares de pessoas, incluindo crianças e idosos, vivam neste mundo na mais profunda miséria, enquanto as atenções são atiradas para cima dos homens e das mulheres do circo. Ganham também, e financiam igualmente os extremistas animalistas, as indústrias culturais que vivem da antropomorfização dos animais. O maior exemplo é a megacompanhia Disney. A mensagem que passam é também a da igualdade entre homens e animais, porque os animais aparecem sempre como se fossem pessoas. Não se trata de criar uma ilusão que sabe que o é. O que fazem é passar como realidade a ilusão que criam, o que rende os biliões que rende para os bolsos dos seus acionistas e, ao mesmo tempo, assegura a dominação cultural, nomeadamente no que respeita à relação do homem com a natureza. Uma relação convenientemente distorcida, não vão as pessoas voltar a pensar com a cabeça, em vez de se deixarem inebriar com ilusões.

publicado por cafe-vila-franca às 17:17

No Café Vila Franca, como nos cafés da trilogia de Álvaro Guerra, os personagens descrevem, interpretam e debatem a pequena história quotidiana da sua terra e, com visão própria, o curso da grande história de todo o mundo.
mais sobre mim
Agosto 2016
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3
4
5
6

7
8
9
10
11
12
13

14
16
17
18
19
20

21
22
23
24
25
26
27

28
29
30
31


pesquisar
 
subscrever feeds
blogs SAPO