Dezembro 08 2011

Alves Redol e a Tauromaquia, arte em tom maior

Maria Alzira Seixo, uma palestra lamentável. Crónica de uma tarefa
adiada.

 

No passado dia 6 de Dezembro a Casa Museu Mário
Coelho e a Associação Promotora do Museu do Neo-Realismo levaram a cabo uma
sessão sobre Alves Redol e a Tauromaquia. Dizia-se, no convite, que “Alves Redol tem muitas referências aos
toiros, aos cavalos e à tauromaquia nos seus romances e em páginas
autobiográficas. Além disso, escreveu um texto para a revista Almanaque sobre
uma corrida de José Júlio em Sevilha e um prefácio a um livro de Pepe Luis.”

São várias as relações entre Alves Redol e a
tauromaquia. Desde as familiares (ele era primo de José Júlio e um dos mentores
iniciais do matador vilafranquense), até às de um aficionado culto com
contributos vários dados à festa, para além das que resultam da sua obra.

Tem, por isso, toda a pertinência que, nas
comemorações do centenário do nascimento dessa grande figura da literatura
portuguesa, se releve essa sua ligação ao mais importante dos traços de
identidade da terra que era assumidamente a sua.

Há, por isso, que endereçar parabéns à Casa Museu
Mário Coelho e à Associação Promotora do Museu do Neo-Realismo pela iniciativa.

Pena foi que a principal palestrante na sessão, a
Prof. Dra. Maria Alzira Seixo, tivesse deixado um tão grande amargo de boca.
Aquilo que começaria por ser uma pequena tristeza, a escassa assistência,
acabou por ser um mal menor, de tal modo foi lamentável e frustrante a
intervenção da senhora.

Quem é Maria Alzira Seixo? Um professora da
Faculdade de Letras da Universidade Clássica de Lisboa, especialista em
literatura francesa. Como disse ela própria, não conhecia Alves Redol, que leu
apenas no último ano.

Pose afectada de intelectual de pacotilha e
linguagem rebuscada como recurso discursivo, foi a primeira imagem que deu. Tal
como a de um sentimento de superioridade que fica mal numa sessão sobre Alves
Redol. Por exemplo, assumir que tinha de explicar aos presentes o que significa
“pragmática”, como se estivesse perante uma assembleia ignorante, foi apenas um
exemplo do tom geral que adoptou.

Um pouco narcísica, num estilo pedante falou mais
dela própria e da sua vida do que do tema que ali me levou. E cometeu vários
erros intoleráveis num académico. Vou dar alguns exemplos.

-       
Disse que para os franceses a tauromaquia é um
desporto. Para todos os franceses? O sul de França não está no mapa?

-       
Disse que conheceu a cavaleira “mexicana”
Conchita Cintrón”, quando Conchita era chilena!

-       
Disse que os países onde há festa de toiros são
Portugal, Espanha, França e México. Não sabe que também há corridas de toiros
formais na Colômbia, na Venezuela, no Peru e no Equador?

-       
Disse que não conheceu Redol porque só entrou na
Universidade em 1958 e o escritor morreu em 1959. Ora, Alves Redol deixou-nos
em 1969, e a senhora a única coisa que mostra é que enquanto os outros jovens
se envolviam contra o regime de Salazar, ela andava…por outras bandas.

-       
Disse que Alves Redol pôs na boca de Diogo
Relvas, em Barranco de Cegos, a sua
oposição à instalação de uma fábrica de cimentos em…Alverca!

Ninguém pode ser acusada de nada por não saber. Mas
uma professora universitária não pode falar, com tom sério, daquilo que não
sabe.

Não gostei nada de, precisamente na Casa Museu
Mário Colelho, ter referido como páginas maiores da literatura com temática
taurina duas obras, uma de Vitorino Nemésio e outra de John Coltzee. Esqueceu-se
(entre tantos outros, desde logo os poetas), por exemplo, de Hemingway,
Alexandre Herculano, Ramalho Ortigão ou Álvaro Guerra.

Um académico não aproveita este tipo de sessões
para, tirando partido da vantagem da posição, passar ideias que lhe são
próprias e tão válidas como as de qualquer outro cidadão. E se é para dar
opiniões, avisa que o que está a dizer é uma posição pessoal, e não a
transmissão do resultado objectivo da investigação científica. Falou duas vezes
do mal do ensino, que teria riscado a literatura do programa de português. É
totalmente falso. Aliás, o responsável dos actuais programas de português no
básico é um grande especialista em literatura portuguesa, o Professor Doutor
Carlos Reis, que reuniu uma equipa que integra especialistas de todas as universidades
portuguesas e colheu pareceres positivos de todos os nomes e instituições
relevantes. A Prof. Dra. Alzira ficou, como é costume, no contra. É um direito
que tem. Mas não pode desconsiderar o trabalho da esmagadora maioria dos seus
colegas da academia da forma distorcida como o fez.

Do mesmo modo que pode discordar do Acordo
Ortográfico, mas não pode dizer que por causa dele os jovens vão deixar de
saber escrever, o que de resto poderá deixar de ser problema porque, disse
depreciativamente, muitas palavras vão passar a poder escrever-se de duas
maneiras diferentes. Como se o problema do ensino da escrita fosse de agora e
como se o português anterior ao acordo não incluísse já um sem-número de
palavras que se escrevem corretamente de duas maneiras. Fez demagogia para
propagandear a sua opinião perante pessoas que não a podiam contestar, e isso é
feio (embora politicamente correto).

Mas o pior é que a senhora não percebeu nada de
Alves Redol. Não compreender a multiplicidade da figura de Diogo Relvas (o
senhor feudal, mas também o lavrador que recusa o título nobiliárquico porque
toma a agricultura como um negócio, o que é típico do empreendedor capitalismo
e não do déspota feudal), é não perceber o ponto de vista de Redol.

Atribuir a Redol uma preocupação com o abandono da
agricultura e com a expansão da indústria, como se de um ecologista radical se
tratasse, como  a senhor atribuiu ao
falar da já citada fábrica de cimento, é não compreender uma linha do que
pensava o adepto do progresso e da modernização que era Alves Redol.

De Alves Redol e da Tauromaquia pouco se falou.
Como disse o meu irmão José  Capucha,
essa é um sessão que deve ser ainda realizada. Já agora, convidando para falar
quem saiba da matéria.

 

Luís Capucha

publicado por cafe-vila-franca às 14:32

Setembro 22 2011

Todos nos lembramos, mesmo que sem pormenores, da história dos sitiados num castelo  que, já no desespero da rendição próxima por falta de mantimentos, entregam aos que os cercam o último animal e o último pão, com a mensagem de que não vale a pena continuarem o cerco, pois a abundância, e consequente capacidade de resistência, é tanta que mais cedo morrerão à mingua os que atacam do que os que defendem o castelo.

Esta história conta-se, com ligeiras alterações locais, a propósito de vários acontecimentos, verdadeiros ou supostos (tanto faz) em várias terras e em diversos países.

Passos Coelho, a avaliar pelo que disse em recente entrevista na televisão, e o seu governo, a avaliar pelo que disse Crato a respeito do relatório anual da OCDE sobre a educação, nunca ouviram contar a história. Além disso, não têm a esperteza dos antigos alcaides. Ou querem-nos fazer crer que não estamos cercados e que a culpa da crise é do nosso povo, mais de anteriores governos, e não dos especuladores da alta finança que impõem ao mundo uma nova ditadura "apolítica" - contra toda a política, porque é contra qualquer envolvimento dos cidadãos na discussão sobre os problemas e o futuro da polis - subjugando as sociedades, os estados e as pessoas e submetendo-os aos seus interesses particulares. Para mais, fazendo crer aos menos avisados que só há uma solução, a sua  "solução única", para os problemas que eles próprios criaram.

Ora, Portugal está cercado por esses interesses do capital especulativo. Porém, não é só Portugal o visado. Como nas antigas conquistas e assaltos a castelos, começa-se pela periferia até chegar ao centro. E o centro é a Europa. Qual o tesouro que buscam? O fim da utopia da construção de uma sociedade equitativa e justa, com qualidade, com direitos e capaz de oferecer a todos possibilidades de realização pessoal, económica e social.

Perante isto o que faz Pedro Passos Coelho? Pinta o país com cores ainda mais negras do que os próprios vampiros o fariam. Transmite dele uma imagem de fragilidade, em grande parte artificialmente produzida, para nos levar a aceitar um programa de ataque à qualidade de vida das pessoas sem precedentes. Com o seu discurso da desgraça (a que chama "realismo") só agrava a situação e nos prejudica.

Sem a mínima ponta de simpatia pelo ditador da Madeira, diria que o erro de Passos Coelho é mais grave e mais danoso do que o de Alberto João Jardim. Desmoraliza, fragiliza, abre brechas na muralha. Não constrói nem ajuda a desenvolver nada, só deprime. Não é, apenas, Alberto João Jardim que prejudica a imagem do país. São também, com maior impacto, os membros do governo que nos pintam piores do que somos.

Por ignorância e incompetência? Ou porque temos a governar-nos um peão do neo-liberalismo sem escrúpos nem piedade?

publicado por cafe-vila-franca às 20:27

Setembro 22 2011

O Ministro Crato não gostou da última edição da "Education at a Glance" publicada pela OCDE. Porquê? Porque desta vez as referências a Portugal são positivas e salientam explicitamente o contributo da Iniciativa Novas Oportunidades para os resultados (repito, os resultados) que o nosso país alcançou na educação de nível secundário.

A referência não surpreende quem conhece o acompanhamento realizado pela OCDE, tal como pela UE ou pela UNESCO, ao que na realidade se passa no nosso país. As organizações internacionais conhecem o trabalho feito, fizeram questão de o observar no terreno e, ao olharem para a realidade dos números (o Ministro Crato, um estatístico, só por despeito pode protestar contra os números), sabem o que está por detrás deles.

O Ministro Crato parece pertencer àquele grupo de pessoas que só gostam dos documentos internacionais que colocam Portugal numa má posição (não se lhe conhece nenhum comentário  pouco abonatório para a OCDE quando as notícias eram más). Mas pior que isso, como se trata de um Ministro, é criminosa a atitude de denegrir a imagem do país, quando ela é beneficiada por entidades com a importância da OCDE.

O desprezo pelo esforço das instituições e dos cidadãos, feridos na sua dignidade pelas sucessivas e irresponsáveis intervenções de Crato, é insustentável. Está a revelar-se, não apenas pelo que não faz, mas também pelo que lhe sai da boca, um simples incompetente. Na realidade, também parece pertencer ao grupo daqueles que se armam em grandes ideólogos cheios de soluções quando compete aos outros decidir, mas se revelam completamente inaptos quando lhes toca a eles fazer melhor. Parece que Crato ainda se julga no Plano Inclinado a dizer mal do que está feito, não percebendo que lhe compete agora a ele governar.

Sei bei que na Iniciativa Novas Oportunidades há muitas coisas a melhorar e a corrigir. Nem podia deixar de ser, tratando-se de uma política com tanta complexidade e tamanhos impactos. A luta pela qualidade foi constante. Ao actual governo compete continuar o esforço. Sem esquecer que ainda estão no sistema centenas de milhares de pessoas e que mais de 3 milhões de activos portugueses apresentam défices de qualificação que é preciso corrigir. O que está a fazer o Ministro Crato para dar continuidade ao legado que lhe foi deixado?

O que mostram as televisões, apesar da "excelente imprensa" de que disfruta, é o ar apagado e triste com que aparece atrás de Cavaco Silva, no dia em que este foi inaufurar Centros Escolares que os anteriores governos construiram, falando só e apenas de finanças e dívida pública, sem uma palavra para a educação e a qualificação, como se elas tivessem deixado de ser a prioridade das prioridades para quem quer o desenvolvimento do país.

O Governo não diz qual a sua posição sobre as políticas de qualificação, nem as impulsiona.

Crato reagiu à apreciação da OCDE duvidando da qualidade do processo de certificação da Iniciativa Novas Oportunidades. Mas como acha que promove a qualidade? Pondo fim à avaliação independente da Universidade Católica e trocando-a por uma suposta auditoria conduzida por pessoas sem experiência nem currículo, escolhidas por já se saber o que vão dizer, que se propõem avaliar o Programa essencialmente a partir do impacto na criação de empregos? Tecnocratas que nem sabem que um programa  só pode ser avaliado em função dos seus objectivos e não de outros (sem prejuízo de que se avalie a pertinência desses objectivos, o que não é o caso).  Ou Crato agora julga que a medição da qualidade de um programa de educação e a qualificação se resume à questão (assessória, apesar de relevante) da criação de emprego?

A "prova dos nove" da qualidade será tirada, porém, através dos resultados do PIACC, o equivalente para adultos do conhecido PISA. Com esse teste internacional se ficará a saber se os conhecimentos e capacidades cognitivas dos adultos progrediram ou não e em que medida. Mas ao que tudo indica o governo parece querer fugir a esse teste, preparando-se para se retirar, à última hora, do processo, numa fase em que o país se comprometeu com a OCDE, cumpriu todas as estapas até ao pré-teste (o que representou um custo muito significativo, mas útil), faltando agora apenas a realização dos testes, pelo INE, junto da amostra escolhida segundo as regras estabelecidas internacionalmente. O que teme o governo para fugir à realização desse "tira-teimas"?

O ministro Crato também diz que a Iniciativa se destinou apenas a trabalhar para as estatísticas. Mas ao que tudo indica quem está muito preocupado com as estaísticas é o próprio Miinistro que, ao que consta, se prepara para colocar à frente de um novo organismo que só tratará das estatísticas da educação uma amiga pessoal. Sempre queremos ver que estatísticas vai o novo governo apresentar e que independência vai garantir na respectiva produção e divulgação!

Soam rumores de que o governo se prepara para introduzir mudanças na distribuição de responsabilidades entre organismos (nomeadamente as escolas e o IEFP), com prejuízo para as medidas de dupla certificação, aquelas que mais motivaram os portugueses e que estão na origem do sucesso que a OCDE elogia. Crato quer uma educação e uma formação dúplice: uma liceal para as elites (não foi obra do acaso a facilidade de entendimento com os colégios privados); e outra de segunda, descredibilizada, para os tralhadores e para os seus filhos.

Consta que se preparam muitas outras mudanças. Todas elas com o mesmo sentido elitista e todas também implementadas segundo a mesma metodologia de não afirmar nenhuma opção com clareza, na espectativa de que a falta de apoio venha por termo às dinâmicas que se tinham criado. Algumas, a concretizar-se sem que se crie uma alternativa credível (como o fim  das AEC ou da qualificação do parque escolar do secundário),  representarão um recuo imperdoável no camimho de progresso que vinha sendo seguido.

O Ministro Crato conseguiu uma bela vitória pessoal ao reconstruir o princípio do poder dos sindicatos na educação. Pode julgar que conseguirá destruir  as políticas de qualificação de anteriores governos apenas por inacção. Pode ainda julgar que  com truques de magia (por exemplo, fazer as provas de aferição contar para a nota e passar a chamar-lhes exames), virá não se sabe quando a impôr a duas ou três ideias que por preconceito fazem o pleno do seu pensamento sobre a educação. Mas a realidade dos factos ele não pode mudar. Será a realidade a mudá-lo a ele, de sítio, mais depressa do que pensa.

Uma nota final para estranhar o silêncio de muitas pessoas que foram co-responsáveis pelo que os governos do PS melhor fizeram pela educação e que ainda se encontram na direcção do Partido ou na Assembleia da República. Assistem a tudo isto sem uma palavra de desconforto.

Renderam-se ao princípio de que nada mais importa se não o défice e as finanças? Deixaram de acreditar na qualificação como principal instrumento para a igualdade de oportunidades e a justiça social? Ou pura e simplesmente aderiram à lógica de que o melhor é não fazer ondas, à espera que o tempo passe e que a sua vez volte a chegar?

Se assim for, creio que é uma opção muito perigosa e contra toda a tradição da esquerda democrática.

Gostava de vos ouvir, camaradas.

publicado por cafe-vila-franca às 20:26

Junho 03 2011

De: Luís Capucha
Para: O Mirante

 

 

Exmo Senhor Director Geral do jornal O Mirante
Sr. Joaquim António Emídio
Na edição de hoje, dia 2 de junho, um vereador da Câmara Municipal de Vila Franca de Xira, Rui Rei, resolveu, numa entrevista ao jornal por si dirigido, fazer declarações graves e falsas a meu respeito. Muito agradeço, assim, antecipadamente, a publicação da resposta que anexo.
Cumprimentos
Luís Capucha

 

 

De: O Mirante
Para: Luís Capucha

 

Exmº senhor
 
Luís Capucha
 
O pedido de direito de resposta é aceite e será publicado na próxima edição de O MIRANTE.
No entanto há que dar cumprimento ao estipulado na lei de imprensa (Lei 2/99 de 13 de Janeiro), nomeadamente quanto à sua extensão.
 
Dispõe o nº 4 do artigo 25ª o seguinte: "O conteúdo da resposta ou da rectificação é limitado pela relação directa e útil com o escrito ou imagem respondidos, não podendo a sua extensão exceder 300 palavras ou a da parte do escrito que a provocou, se for superior, descontando a identificação, a assinatura e as fórmulas de estilo, nem conter expressões desproporcionadamente desprimorosas ou que envolvam responsabilidade criminal, a qual, neste caso, bem como a eventual responsabilidade civil, só ao autor da resposta ou da rectificação podem ser exigidas".
 
O nº 1 do artigo 26º, que determina o procedimento a adoptar quando o direito de resposta tiver extensão superior, diz o seguinte: "Se a resposta exceder os limites previstos no n.º 4 do artigo anterior, a parte restante é publicada, por remissão expressa, em local conveniente à paginação do periódico e mediante pagamento equivalente ao da publicidade comercial redigida, constante das tabelas do periódico, o qual será feito antecipadamente ou assegurado pelo envio da importância consignada bastante".
 
Como a parte da  entrevista à qual o senhor responde, tem 175 palavras e o texto enviado para publicação tem 673 palavras. A sua publicação fica dependente do respectivo pagamento.
 
Assim sendo, solicito-lhe que contacte a responsável do sector comercial, Joana Emídio, que lhe dará todas as indicações necessárias para que seja possível dar ordem de publicação do direito de resposta ao sector gráfico de O MIRANTE até às 13h00 de terça-feira, 7 de Junho.
 
Com os melhores cumprimentos
 
O Director Editorial de O MIRANTE
 
Alberto Bastos


 

De: Luís Capucha
Para: O Mirante

 

Caro Alberto Bastos
Julgo totalmente descabido pedir-me dinheiro para repor a verdade num assunto em que o seu jornal deixou que uma mentira grave fosse publicada. O Senhor evoca a lei e a sua forma, como faria um burocrata. Mas eu não convoquei a lei que me dá o direito de resposta, porque julguei que O Mirante estaria interessado em publicar a reposição da verdade por parte do ofendido, que sou eu, sobre o comentário ofensivo que me foi dirigido, independentemente dos termos estritos que a lei define. A reposição da verdade deveria ser critério prevalecente, julgo eu, na comunicação social.
A ser verdadeira a acusação de que fui alvo estaria sujeito a severas penas, que incluem a prisão. Não se trata, por isso, de uma mera questão comercial, mas de um princípio. A meu ver é sua obrigação informar com verdade, e foi para isso que eu contribuí com o artigo que lhe enviei.
Espero que reconsidere a posição que tomou e que aceite a publicação do meu artigo.
Com os melhores cumprimentos
Luís Capucha

publicado por cafe-vila-franca às 21:55

Junho 03 2011

Em entrevista publicada em “O Mirante” de 02 de Junho de 2011 o Vereador da Câmara Municipal de Vila Franca de Xira Rui Rei, eleito por uma coligação com muitas siglas, militante do PSD, resolveu mimar-me com um ataque baixo. Diz ele, logo nas primeiras linhas: “Fizeram há pouco tempo uma entrevista a um ilustre socialista deste concelho (Luís Capucha, que defendeu que a base sociológica do concelho é de esquerda) que há poucos dias usou o aparelho de Estado para defender o PS com as Novas Oportunidades. Espero que se existir justiça ele venha a ser questionado. Foram feitos contactos directos a um conjunto de cidadãos, não para defender um programa, mas defender um partido e acho isso errado”. Questionado se estava a referir-se aos testemunhos das Novas Oportunidades respondeu (foi a sua segunda resposta) que “Não são só os testemunhos. É a forma como se forçou um conjunto de gente a ir ao Ateneu com Sócrates como resposta à visita de Passos Coelho a Vila Franca de Xira. Participaram funcionários da Câmara, de escolas e uma empresa que deveria ser isenta, a Solvay”.

Vamos aos factos. O Partido Socialista resolveu responder à desconsideração demonstrada por Passos Coelho para com mais de meio milhão de portugueses, ao expressar a sua ideologia elitista e conservadora expressa na declaração de que a Iniciativa Novas Oportunidades certificava a ignorância.

Sou militante e membro da Comissão Política Concelhia de Vila Franca de Xira do Partido Socialista. Nessa qualidade fui contactado por outra militante, Maria da Luz Rosinha, para ajudar a organizar uma sessão pública do PS destinada a denunciar o vil ataque perpetrado por Passos Coelho contra os portugueses que fazem o esforço de melhorarem as suas qualificações, os profissionais que todos os dias, com seriedade e muita dedicação, dão o melhor de si para concretizar o desígnio nacional de melhorar as competências dos portugueses, e às políticas de educação e formação que o governo tem levado à prática. Ajudei a organizar essa sessão no Ateneu Artístico Vilafranquense, na qual participou o secretário-geral do PS José Sócrates, entre muitas outras pessoas que, tanto quanto me foi dado entender a mim e a quantos, em grande número, estavam presentes, quiseram dar o seu testemunho. Falei com três ou quatro camaradas do meu partido no âmbito da organização da sessão, e com absolutamente mais ninguém. Participei na sessão como cidadão e militante do PS, utilizando um dia de férias.

Rui Rei vai ter de provar que eu utilizei o aparelho de Estado como diz, ou terá de assumir que é um mentiroso sem remissão. Não apenas um oportunista político que até de esquerda é capaz de se dizer, mas de facto um reles mentiroso.

Vejo-me obrigado a tornar público este desmentido porque, se tivesse feito aquilo de que sou injuriosamente acusado, teria cometido um grave incumprimento do meu dever de Presidente da Agência Nacional para a Qualificação. Dever esse que em nada colide com o que fiz, a não ser que o vereador esquerdista do PSD alinhe pelo princípio da sua ex-líder partidária que um dia expressou o desejo de suspender a democracia, nomeadamente impedindo-me de ter voz e acção política no meu partido, como cidadão e militante que sou.

Não pretendo polemizar com alguém que não possui estatura para merecer, sequer, o meu respeito. A entrevista é eloquente sobre o tipo de pessoa que a concede. Mas sempre deixo duas notas finais. Em primeiro lugar, compreendo o mal-estar que as declarações de Passos Coelho sobre a Iniciativa Novas Oportunidades causaram à “arraia miúda” do PSD. Sobre isso nada posso fazer.

Em segundo lugar, quero deixar a nota de que se torna clara, ao longo da entrevista, a posição deste PSD acerca dos seus verdadeiros adversários no concelho de Vila Franca de Xira. Pela minha parte, sinceramente, agrada-me ser o alvo dos vitupérios com que Rui Rei resolveu distinguir-me. Mas o gozo que me dá não o dispensa de ter de provar o que disse.

 

Luís Capucha

publicado por cafe-vila-franca às 21:41

Maio 19 2011

As políticas para a qualificação opõem a esquerda à direita

 

A pré-campanha eleitoral decorria em tom aceso e totalmente centrada nas questões financeiras e económicas que o nosso país enfrenta nestes tempos de crise. Mono-temática. Até que Pedro Passos Coelho (PPC) veio atacar a Iniciativa Novas Oportunidades acusando-a de “certificar a ignorância”.

Julgo que é positivo que o país discuta outras matérias para além do empréstimo e da troika. Acho que é mesmo muito positivo que tenha sido colocada em cima da mesa uma questão, a das qualificações dos portugueses, que já era determinante antes da crise e que o passou a ser ainda mais, porque delas depende a nossa capacidade de voltar a crescer, de combater o défice da balança de pagamentos e o défice da dívida pública, de modernizar a economia e torná-la mais inovadora e competitiva. Para além dos efeitos que têm sobre a qualidade da sociedade e da economia, que são igualmente condições incontornáveis de bem-estar dos cidadãos e de desenvolvimento.

O debate não podia deixar de produzir uma forte polarização entre a esquerda e a direita. Paulo Portas acrescentou a PPC que a Iniciativa Novas Oportunidades era de facto de “novas facilidades”, enquanto o Partido Socialista e os outros partidos de esquerda, uns mais convictamente do que outros, vieram a terreiro tomar posição a favor da Iniciativa.

As qualificações têm esta propriedade magnética de polarizar as diversas ideologias políticas. Porque elas determinam, de forma profunda, a distribuição das oportunidades de vida e de trabalho. O acesso a qualificações escolares e profissionais é, hoje em dia, o principal instrumento de mobilidade social. Por isso à esquerda se defendem sistemas de educação e formação que proporcionem igualdade de oportunidades e justiça social, orientação traduzida na fórmula “excelência e equidade”. Isto é, defendem-se políticas que visam a qualidade e a inclusão escolar. Uma boa escola e uma boa formação, acessível a todos.

Por sua vez, a direita defende a segregação de vias de ensino, o acesso limitado às modalidades e instituições (nomeadamente os colégios privados) melhor equipadas para onde pretende transferir os meios públicos de modo a assegurar à custa de todos a reprodução das elites (as medidas educativas colocam no centro das preocupações mecanismos de selecção e exclusão), deixando às escolas públicas, cujas condições não importa que se degradem (veja-se o que dizem os partidos de direita sobre o programa da Parque Escolar), o papel de continuar a produzir mão-de-obra barata e pouco qualificada, que alimente um mercado de trabalho assente no baixo custo do trabalho e não na inovação e na competitividade dos factores produtivos.

Mais justiça social ou reprodução das desigualdades, eis, de forma sintética, o que divide as políticas de educação de esquerda e de direita. Basta consultar os programas eleitorais dos diferentes partidos para que essa diferença se torne clara.

A reforma dos sistemas de educação e formação é a principal marca da governação socialista dos últimos anos. Ela permitiu um investimento sem precedentes em políticas que trouxeram qualidade e igualdade de oportunidades a toda a população. A aposta na escola pública como base de uma educação e formação democrática e acessível a todos; o alargamento do pré-escolar; o combate ao insucesso escolar e o reforço das aprendizagens básicas das crianças e jovens (com resultados visíveis no PISA), ao mesmo tempo que se instituiu a escola a tempo inteiro e se enriqueceu o currículo do primeiro ciclo; a reorganização da rede escolar, fechando escolas sem condições mínimas e criando centros escolares e escolas secundárias bem equipadas e modernas, onde se possa desenvolver um trabalho de excelência; o plano tecnológico da educação; e, principalmente, a Iniciativa Novas Oportunidades.

No eixo destinado aos jovens a Iniciativa Novas oportunidades produziu um aumento exponencial do número de alunos (incluindo, pela primeira vez num cenário de diminuição da dimensão das gerações, o aumento do número de candidatos e de entradas no ensino superior), devido à expansão do ensino profissional, fazendo cair o abandono escolar precoce e permitindo transições adequadas dos jovens para a vida activa. No eixo adultos trouxe de volta à escola mais de 1.5 milhões de portugueses, 520.000 dos quais já se certificaram. Conforme mostram diversos estudos independentes conduzidos por especialistas de elevada reputação nacional e internacional, essas pessoas não apenas elevaram as suas qualificações formais, como também viram melhoradas as suas competências em todos os domínios do saber, do saber fazer, do saber estar e do saber ser, tendo ainda melhorado o ambiente educativo nas famílias. Os métodos que utiliza são os que todos os referenciais técnico-científicos internacionais dizem ser os adequados à educação e formação de adultos. Os mecanismos de avaliação das competências sãoem geral rigorosos. São, seguramente, diferentes dos métodos escolares mais tradicionais. Mas isso não representa uma desvantagem, ou uma cedência ao facilitismo. Fácil seria manter os portugueses arredados do conhecimento, da formação e da aprendizagem.

A facilidade de abandonar os mais modestos e desistir do esforço de qualificação não foi o caminho escolhido nem pelos cidadãos, nem pelos promotores (escolas, centros de formação, empresas, associações, autarquias), nem pelo governo. O caminho escolhido foi o do trabalho para valorizar aqueles que sempre trabalharam e que pretendem continuar a fazê-lo, com novas capacidades e novos saberes.

Se dúvidas houvessem sobre este significado da Iniciativa, bastaria olhar para os parceiros sociais e para as empresas e ver o modo como apreciam a Iniciativa, considerando-a uma aposta indispensável e um investimento no capital humano que elas sabem melhor que ninguém ser o factor mais determinante do seu e do nosso futuro.

A Iniciativa Novas Oportunidades não teria entrado no debate eleitoral como entrou se não tivesse tido o sucesso que teve. É este sucesso que irrita a direita. Entrou pela mão do presidente do PSD. Com uma intervenção que tem tanto de irresponsabilidade e ignorância acerca do que fala, como de preconceito para com um programa que repõe justiça na nossa sociedade. Acusou as pessoas que tiveram a coragem de dar o passo do regresso à escola de beneficiarem da “certificação da (sua) ignorância”. Depois, já em recuo, acusou-os de serem figurantes numa mega-encenação política do governo. Para além da natural reação do Partido Socialista, as próprias pessoas lhe responderam, perguntando-lhe quem é o ignorante, se elas, se ele próprio, candidato a primeiro ministro que não sabe exactamente o que quer fazer com uma matéria tão estratégica como a educação. Limita-se a repetir o preconceito ultra liberal de privilegiar os colégios privados em prejuízo da escola pública.

A repulsa provocada pelos ataques torpes à Iniciativa Novas Oportunidades não nos pode toldar o sentido crítico. O país pôs-se em movimento. Mais pessoas implicam necessidades diferenciadas. A diversidade – respeitados os padrões de qualidade e a equivalência dos resultados – deverá aprofundar-se. A relação entre a aprendizagem e a sua utilização – por outras palavras, entre o que se aprende e a forma como o saber é utilizado nas comunidades e nos locais de trabalho – é um dos aspectos mais determinantes do futuro. O mais decisivo, porém, é assegurar que no futuro se mantenha a prioridade dada às qualificações. Não se pode voltar atrás e é preciso ter ideias claras sobre o caminho a percorrer. O que passa por responder à altura, no dia 5 de Junho, à provocação do Dr. Pedro Passos Coelho.

publicado por cafe-vila-franca às 16:50

Maio 04 2011

Vai abrir em Vila Franca mais uma grande superfície chinesa. Como disse o meu amigo José Manuel Teles, "e então? Não estamos num mundo global?" Tem parte da razão. A emigração chinesa está a invadir África, América, Europa e tantos outros sítios, que mais esta grande superfície nada parece ter de novo.

De resto, Vila Franca sempre foi terra de comércio livre. Por isso se chama Franca. E sempre atraiu pessoas, vindas dos mais distintos lugares, para aqui fazerem a sua vida, com detaque para o comércio. Nunca foi, nem deve ser, uma terra de portas fechadas. A sua identidade é resultado de um longo processo histórico de interacção das pessoas com um contexto marcado pelo rio, pela Lezíria, pelas colinas da margem direita, pelas fábricas e armazéns que acompanham a nacional 10. Algumas dessas pessoas tinham e têm raizes familiares prolongadas na terra, outras foram chegando de novo e foram-se integrando na vida da cidade. Em toda a sua vida. Tiornavam-se vilafranquenses de corpo inteiro.

Nada podemos ter, por isso, e em abstrato, contra a chegada dos chineses. Mas, como muitos têm observado, eles têm uma atitude diferente do usual. Parce que não se mesclam com os outros. A verdade é que estão a preencher cada vez mais espaço no comércio local, e isso é uma forma de interagir com a restante população. Já não são as lojas dos 300 que vendiam produtos chineses de há uma década atrás, nem algumas lojas dos chineses que vendiam um pouco de tudo a preços convenientes (e correspondentes à qualidade das mercadorias). São superfícies cada vez maiores, cada vez mais em maior número e com estratégias de diversificação dos produtos. Insisto, até aí, nada de mal. O problema é que a essa expansão, ao contrário do que aconteceu com os anteriores imigrantes, corresponde um nítido recuo do comércio promovido pelos antigos e novos comerciantes de outras origens. Criam-se mais espaços comerciais do que novas igrejas e espaços de culto, que vão preenchendo outros locais de referência vilafraqnuense.

Quem domina o território e a economia acabará por dominar a cultura, o ambiente social e a própria política.

Tenho a impressão que, face ao recuo dos comerciantes tradicionais, que sempre foram um grupo âncora da identidade local, se corre o risco de criar um ambiente anómico. A ausência de referências culturais locais estruturantes, ou melhor, a perda de peso relativo de grupos que sustentem a identidade cultural local, pode dar origem à descaracterização da cidade.

A contestação às esperas de toiros nalgumas das ruas tradicionais é um primeiro sinal.

Há que proporcionar condições e oportunidades para que a chegada de novos imigrantes possa ser feita com a recomposição identitária que faz de uma cidade um espaço cultural vivo e dinâmico, mas reconhecível na sua especificidade.

Se não, qualquer dia, em vez do nosso nome, passaremos a chamar-nos "Vila Franca de China". 

publicado por cafe-vila-franca às 20:03

Novembro 20 2010

Estava eu um dia destes a comer uma francesinha no Porto e revi, pela enésima vez, um anúncio na televisão. Todos o conhecem: um popular actor de cinema sai de uma loja com a sua compra, uma máquina de café, e cai-lhe em cima um piano, que o envia até São Pedro. Lá chegado reclama que não contava ter uma vida tão curta. São Pedro troca o prolongamento da vida do actor pela máquina de café. O actor volta ao local do acontecimento fatídico e, em vez de sair pela porta que o levaria a apanhar com o piano em cima, volta atrás e salva-se. Não sei porquê, olhei para o anúncio de forma diferente da habitual.

A mensagem explícita é clara e bem apanhada: o charme do piano como instrumento fatal, a popularidade do actor, o interesse de São Pedro pela máquina de café, tudo aponta para o valor que esta tem. Coisa divina.

Mas há um pormenor que traduz o sinal dos tempos, que a publicidade geralmente traduz com limpidez. Para que o actor sobrevivesse tanto podia ele tomar a decisão de voltar atrás (a mais improvável e inexplicada), como poderia a queda do piano ter sido evitada (São Pedro tudo faria pela máquina). Mas esta última opção remeteria para factores de contexto, isto é, para o modo como a nossa vida é afectada pelo comportamento dos outros. Mas a publicidade sublinha que, se o actor se salvou, foi porque tomou uma decisão própria. A mão invisível de São Pedro limita-se a articulá-la com as consequências. A mensagem subliminar parece-me óbvia: o que acontece às pessoas depende apenas delas e das sua decisões. TRata-se da exaltação do individualismo que caracteriza uma certa cultura tão presente nos nossos dias.  O anúncio é, pois, mais do que um mero incentivo ao consumo daquelas máquinas. Trata-se de uma metáfora de estruturas culturais que são tudo menos neutras e banais. Não é apenas a marca da máquina quem ganha com esta propaganda. É toda uma leitura do mundo.

publicado por cafe-vila-franca às 19:38

Novembro 20 2010

Eis uma mensagem enviada por uma Directora de Turma aos pais de um aluno do 5º ano. Mais do que a defesa corporativa de privilégios, o que é preciso para qualificar e prestigiar os professores é formação básica, não é o que esta mensagem sugere?

 

segue a avaliação intercalar relativa ao 1º Período.

Agradecia que devolve-se o destacável pelo Frederico em como tomou conhecimento.

Obrigada,



--
DT: Prof

publicado por cafe-vila-franca às 19:35

Outubro 24 2010

 

Como muitas centenas de militantes do Partido Socialista dei por perdido o dia de ontem, Sábado, 23 de Outubro: fui ao Congresso da Federação da Área Urbana de Lisboa (FAUL), para…nada.

As expectativas eram, porém, elevadas. Fui eleito no quadro de uma campanha contra o estado a que o “aparelho” tinha conduzido o PS. Pude verificar durante a campanha para a eleição dos delegados ao Congresso e do Presidente da FAUL como é grande o desânimo e a desmobilização dos militantes, o que se traduziu na baixíssima taxa de votantes. Mas verifiquei principalmente como, pelo menos no concelho em que resido, a atitude autoritária dos principais responsáveis autárquicos, a começar pela Presidente da Câmara Municipal, Maria da Luz Rosinha, foi conduzindo o PS. Um mero aparelho de suporte ao exercício autocrático do poder, obediente, acrítico e, paradoxalmente, quase “apolítico”. Testemunhei que existe não apenas desmobilização e desilusão devidas à pobreza do debate de ideias e da acção política, mas também uma crescente redução das listas de militantes activos aos funcionários das autarquias e a autarcas. Principalmente, testemunhei medo da expressão das ideias e preferências por parte de muitos camaradas.

Interpreto a vitória de Marcos Perestrello para Presidente da FAUL como a expressão da vontade de mudança dos militantes que ainda podem pensar pelas suas próprias cabeças. Votaram por um Partido mais aberto à sociedade e mais capaz de continuar a merecer a confiança dos eleitores, porque mais capaz de se constituir como o centro do debate político e de expressão dos anseios das populações que não possuem outra forma de manifestar os seus interesses e ambições.

Mas…o aparelho é o aparelho. E não se conformou com a derrota, nem a aceitou como seria sua obrigação democrática. Com pretextos administrativos (o aparelho só conhece dois tipos de argumentos: os burocráticos e os de autoridade, nunca os da substância ideológica), impôs a formação de uma lista única para a Comissão Política da Federação, encabeçada pelo candidato derrotado!

Em nome da imagem de unidade e paz interna, pôs-se fim a qualquer hipótese de discussão sobre as tarefas do Partido, sobre as suas propostas e sobre o modo como se tem de mobilizar internamente para agir na sociedade.

Dizer que o país vive momentos difíceis é um eufemismo. Na verdade, atravessamos a pior crise internacional dos últimos 80 anos. Na base dessa crise está a subtracção dos interesses privados do capital financeiro, particularmente do seu sector especulativo, ao controlo do estado, enquanto representante do interesse colectivo. As finanças passaram a dominar a economia e a economia a dominar a política, isto é, os interesses da sociedade. Os valores estão invertidos e essa é a raiz da crise.

A imposição da “ditadura dos mercados” passa pela descredibilização da política e dos políticos e pela desvalorização do debate político na esfera pública.

Por isso, o que aconteceu com o Congresso da FAUL representa uma significativa capitulação da política – que sempre se fez e fará, em democracia, do debate de ideias – face aos interesses privados.

No termo de uma crise de dimensão semelhante à actual, que se iniciou em 1929 e desembocou na Segunda Guerra Mundial, foram os socialistas que revelaram a imaginação política em que assentou o período de maior desenvolvimento e justiça social na história da humanidade. Propuseram o pacto social adequado à crise e à melhor forma de a superar com vantagem para os cidadãos. Hoje os partidos socialistas ainda não encontraram as respostas adequadas à natureza dos problemas que enfrentamos. Por isso governos liberais têm vindo a chegar ao poder em toda a Europa. O neo-liberalismo impõe a sua agenda até aos partidos socialistas que ainda restam no poder.

Para encontrar soluções e propostas à altura da actual crise e da relação de forças que está na sua génese não se requer obediência, mas sim discussão pública, agitação das consciências, abertura à inovação e inconformismo.

No Congresso da FAUL perdemos uma oportunidade. Podemos ter passado a imagem de um partido unido. Mas não abrimos as janelas para que novos ventos arejem o ar que respiramos.

 

Luís Capucha, militante nº 25.124 do Partido Socialista

publicado por cafe-vila-franca às 11:25

No Café Vila Franca, como nos cafés da trilogia de Álvaro Guerra, os personagens descrevem, interpretam e debatem a pequena história quotidiana da sua terra e, com visão própria, o curso da grande história de todo o mundo.
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