Novembro 25 2012

 

A foto que se junta foi tirada debaixo de chuva intensa e com o céu muito escuro. Tempo feio.

Está lá um prédio de vários andares, construído há relativamente pouco tempo, legalmente (!!!), nas encostas do Monte Gordo, em Vila Franca de Xira. Esse prédio tem sido notícia porque ameaça ruir. A ruína do prédio simboliza a ruina de um modelo económico e o despejo dos moradores é uma metáfora de outros despejos que se avizinham.

É bem sabido que a crise mundial resultou da aliança entre construtores civis e banqueiros. São vários os economistas que têm explicado os mecanismos que ligam a compra de habitações ao crédito bancário fácil e à economia de casino cuja bolha especulativa, ao rebentar por ter ultrapassado todos os limites, está neste momento a prejudicar muito seriamente biliões de pessoas no mundo.

A crise é estrutural e mundial, mas os portugueses são dos mais fortemente atingidos. O negócio da habitação não apenas mudou a paisagem do país, fazendo inchar as cidades e plantando prédios em tudo quanto é sítio, incluindo lugares onde só deveriam estar arbustos e árvores, como também fez transferir dos bolsos das famílias para os bancos e para os construtores civis, nas últimas três décadas, mais dinheiro, muito mais, do que a pimenta da Índia, o ouro do Brasil e os fundos da União Europeia todos juntos.

Os construtores civis mais poderosos puseram atempadamente os proveitos a salvo em paraísos fiscais de todo o planeta. Os banqueiros e os administradores dos bancos continuam a encher-se com o que lhes pagamos diretamente e indiretamente por via do dinheiro dos impostos obscenos que o governo nos impõe e depois transfere para eles. Agora que o negócio ruiu, como vai ruir o prédio, quem paga a fatura são os trabalhadores desempregados do setor e os cidadãos contribuintes.

Mas falta uma peça nesta história. Se os bairros de habitação ocuparam todos os buracos onde coubesse um prédio – no caso de Vila Franca, se não fosse a crise, nem a Lezíria e a frente do Rio Tejo tinham escapado – foi porque os autarcas o autorizaram. Foram não só coniventes, como também agentes ativos, tentando convencer-nos – se calhar convencer-se a eles próprios também – que isso seria imprescindível para conseguir dinheiro para as autarquias e sabe-se lá para o quê mais. Para o ano, com os moradores do prédio já despejados e realojados – os contribuintes é que vão pagar outra vez o prejuízo – será altura de mais alguém ser despejado da poltrona onde se instalou. Tenho porém dúvidas se quem lá se vai sentar a seguir fará melhor. Tudo parece estar a ser preparado para que “atrás dela venha, quem dela boa faça”. E a nossa terra continuará a perder.

 

publicado por cafe-vila-franca às 23:08

No Café Vila Franca, como nos cafés da trilogia de Álvaro Guerra, os personagens descrevem, interpretam e debatem a pequena história quotidiana da sua terra e, com visão própria, o curso da grande história de todo o mundo.
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