Setembro 15 2013

Na passada quinta-feira ouvi a entrevista do incrível Crato na SIC e fiquei enjoado. Agora, mais calmo, vou dizer meia dúzia de coisas sobre o dito "coiso". 

Conheci o Sr. Carro quando ele recitava, em livros e em plano inclinado, a cartilha conservadora dos mentores americanos que alimentam os seus dogmas. E também nas cerimónias das Olimpíadas da Matemática. Fiquei sempre com a impressão, cada vez que o vi, de estar na presença de um indivíduo narcisista, arrogante, ignorante ao estilo do Conselheiro Acácio e cobarde.

Nunca respondeu a um desafio para debater seriamente fosse que ideia fosse. Evita qualquer confronto por medo. Por isso na televisão não se apresenta em qualquer debate sujeito a contraditório por especialistas, mas apenas sozinho, para poder mentir, distorcer a verdade e fugir, com ar arrogante, às questões que a jornalista, apesar da boa vontade, não podia colocar-lhe de modo a obrigá-lo a dizer a verdade toda. 

A verdade é que Crato já é responsável pela abertura de três anos letivos e o balanço do seu mandato é desastroso.

Aceitou, se não promoveu, a quebra do orçamento da educação até níveis que inviabilizam qualquer tentativa de introduzir equidade e qualidade no sistema;

Destruiu a educação e formação de adultos, cujos progressos se elogiavam em todo o mundo e que todas as avaliações validaram e, com tanta desfaçatez quanta irresponsabilidade, afirmou que a "educação de adultos é com o IEFP, renegando a missão do ministério que é suposto dirigir;

Está a pôr fim à educação especial e à escola inclusiva, como se viu quando disse que os alunos com NEE estão registados nas mega-turmas que tem vindo a impor, mas na realidade não fazem parte delas. Destapa assim o que realmente pensa: que a escola não é para todos, mas apenas para os "eleitos";

Adia decisões que as escolas precisam de conhecer a tempo de se organizarem, gerando incertezas e dificuldades no arranque dos ans letivos e lançando as escolas na confusão;

Elevou o centralismo a níveis nunca vistos, e fê-lo da pior forma: não para assegurar regras universais, que são geralmente necessárias, nem para resolver problemas, como a racionalização da rede escolar do primeiro ciclo, que não têm solução a nível local, mas impondo a arbitrariedade, como se tem visto quanto ao processo de constituição de turmas, aos concursos de professores, às contratações, etc.;

Muda, apenas por preconceito, programas que estavam a funcionar e a produzir resultados;

Interrompe programas de apetrechamento das escolas em tecnologias e em equipamentos diversos e põe fim à recuperação e modernização do parque escolar, deixando obras por concluir, escolas a cair e a degradar-se, enquanto, pateticamente, com o primeiro ministro, inaugura centros escolares que já tinham sido inaugurados pelos antecessores;

Retira meios ao ensino do inglês e às AEC no primeiro ciclo, ao mesmo tempo que anuncia exames de inglês no nono ano, como se fosse possível obter bons resultados nos exames depois de se deteriorarem as condições de ensino e aprendizagem;

Lançou uma campanha contra a educação profissional, retirando meios às modalidades e às entidades que deram provas de funcionar bem, enquanto acena com o embuste do sistema dual alemão;

Fez dos exames a sua bandeira, mas os resultados  têm vindo quase todos a piorar, em resultado lógico da degradação das condições de trabalho nas escolas;

Depois de uma recuperação notável nos últimos anos, voltou a diminuir o número de alunos no secundário (quando se deveria estar a aplicar a lei da escolaridade minima até aos 18 anos), e do número de candidatos ao ensino superior (desistindo da meta europeia com que estamos comprometidos nesse domínio);

Está a asfixiar o ensino superior e a desmobilizar a investigação científica;

Retirou espaço e tempo às escolas para cumprirem a sua missão educativa, porque julga, ao arrepio de todas as orientações modernas, que à escola não compete educar, nem promover as competências de todos os alunos, mas apenas ensinar alguns conteúdos disciplinares e uma parte deles;

Devido à mesma cegueira ideológica retira à escola pública o que pretende oferecer aos promotores privados, substituindo o princípio da igualdade de oportunidades, incluindo a oportunidade de escolher o percurso escolar, pelo elitismo mais abjeto e despudorado.

Está a cumprir uma missão: a de destruir essa parte determinante das politicas públicas e das funções do estado que é promover o conhecimento e a educação. Será aplaudido pelos poderosos que determinam a saga contra o estado social e, no campo específico da educação, pelos bloguistas reacionarios e simplórios, bem como pela minoria conservadora dos agentes de ensino que, habituados que estavam a não se incomodarem com os resultados do seu trabalho, conviviam muito bem com a educação terceiromundista que já tivemos, de que estávamos a escapar, mas aonde estamos a ser reconduzidos. Para benefício desses inimigos da igualdade de oportunidades e do progresso, mas para mal do país. Quanto mais tempo durar a "matança", mais difícil será recuperar. Por isso,  que se abram quanto antes as janelas do ministério da educação, e que por elas se despeje o lixo que lá se instalou.

publicado por cafe-vila-franca às 02:53

Luís quando se olha para ele fica-se ainda com a impressão que este tipo nutre um profundo desprezo pelos alunos, pelos pais, pelos professores, pelos funcionários, enfim, por todos...
Ana Rita a 15 de Setembro de 2013 às 03:06

Excelente análise e comentário!
Só é pena que não haja ações concertadas por parte de escolas, professores e encarregados de educação para atirar um rotundo "não" às políticas descabidas, despropositadas, retrógadas e assassinas deste governo, e principalmente deste "ministro".
Rita C. a 15 de Setembro de 2013 às 14:31

Com efeito, o Sr. Crato não é prior de freguesia nenhuma. Não prega nada, porque não sabe. Dizem-nos que sabe contar, dividir, somar (só se for erros), e subtrair (também já confirmou esta sua habilidade, reduzindo valor na educação). Também não sabe multiplicar valor, porque não o sabe criar. O que sabe o Crato? Dividir mas não para reinar, que não reina. Dividir para destruir. É uma espécie de vírus infiltrado, que vai corroendo o sistema.E quando dermos por nós, estrá tudo na sucata. Haverá ainda forma de escapara a tanta ignorância e insensibilidade?
Maria Amélia Clemente Campos a 16 de Setembro de 2013 às 13:34

Excelente o que apresenta. Só não vê quem não quer o que esse senhor anda a fazer.
Parabéns pelo texto
Victor Zabumba a 16 de Setembro de 2013 às 16:57

Quando comecei a ler este texto, pensei que seria um excelente comentário a uma entrevista que se lhe diga mas nem a li toda porque já quase perto do fim, confirmei a minha completa desilusão - de uma forma diferente, o comentário que faz, globalmente leva aos mesmos problemas - discriminação... Pois... É por isto que a Educação em Portugal se podia escrever educação...

Entretanto voltei ao final do texto e digo mais uma coisa - nunca estivemos a sair da educação terceiro-mundista.
Maria a 17 de Setembro de 2013 às 02:33

A Senhora seria candidata a prova material do facto a que alude, mas a verdade é que não representa aqueles que foram afetados pelos benefícios da nossa educação pré-cratista.

Ao contrário da senhora "Maria", eu sou filha de uma tentativa de educação terceiromundista, pois estudei na escola básica nos anos 80/90 e bem sei de todas as tentativas de afastamento que a escola promovia, quando via aqueles meus colegas que "estragavam" o ranking, ou que obrigavam os professores a diferenciar metodologias e estratégias. Felizmente, quando me preparava para ser professora, Portugal viveu a verdadeira revolução dos cravos no ensino e provou que a escola inclusiva é possível, que não somos terceiro mundo se começarmos a olhar para todos como gente, dando a possibilidade a cada um de estar na escola, no percurso mais adequado para si e para aquilo que quer para a sua vida. Mas isso incomodou os falsos filhos da revolução, porque um povo instruído é um povo informado... e sejamos realistas: para quê ter 1 milhão de gente revoltada, porque até se apercebe de que vários direitos consagrados pela nossa constituição estão a ser ROUBADOS, quando se pode ser meia dúzia, que até prefere pensar no futuro e sair à rua, gritar palavras de ordem e exigir os direitos dos seus filhos??? A meia dúzia cala-se bem, a 10 milhões já custa mais. Fantástico Capucha por ser um dos 10 milhões
Alexandra Barreto a 8 de Outubro de 2013 às 16:37

No Café Vila Franca, como nos cafés da trilogia de Álvaro Guerra, os personagens descrevem, interpretam e debatem a pequena história quotidiana da sua terra e, com visão própria, o curso da grande história de todo o mundo.
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