Setembro 01 2009
Incongruência 1 A incrível Manuela Ferreira Leite apresentou o Programa eleitoral do PSD. Como se esperava, é um vazio completo de ideias e uma mão cheia de preconceitos. Suspende a lógica subjacente às eleições em democracia e apresenta-se aos eleitores sem assumir qualquer compromisso pelo qual venha a ter de responder. Ter-lhe-ão dito os estrategas do partido que para ela o melhor seria apenas montar uma fachada de “seriedade” e parcimónia. Julga que os portugueses estão fartos de palavras e, demagogia em riste, procura a imagem de político de poucas palavras e, nessas, só a verdade. Portanto, um discurso falso sobre a verdade. O problema é que se nota muito. Começaram por notá-lo os grandes empresários – se quiserem, o “grande” capital à pequena escala portuguesa – que são sociologicamente de direita, mas são cosmopolitas e preferem um governo sem ideologia coerente de esquerda mas com muito pragmatismo, ao provincianismo atávico de Manuela. Tanto mais que disso já têm em Belém. O que será, provavelmente, fatal para o PSD. Com a comunicação social totalmente subordinada aos interesses económicos, fica sem a base que o catapultou para possível vencedor. Essa sim, é a imagem que conta: parecer ou não estar em condições de governar. Não está. Contradições da vida política que, no caso do PSD, são o traço dominante. Apenas dois exemplos, ambos a respeito da área da educação. Se em política económica o PSD rompeu com a sua principal base natural de apoio, na política de educação mantém a aliança construída com o PCP, sob a pressão dos protestos de rua, relativamente às matérias determinantes da organização do sistema e dos instrumentos de regulação das condições de exercício da actividade docente. Ameaça rasgar o que tanto custou a construir sabendo que depois não terá nem a força nem a moral para repor nada do que destruirá, se puder. Sem que lhe tenha sido dada a mesma publicidade que a outras matérias, o programa do PSD promete a “liberdade de escolha” das escolas. Em educação isso quer dizer que o estado se demite de regular o acesso dos alunos aos diversos estabelecimentos de ensino, permitindo que estes seleccionem e discriminem, quando podem, os alunos de origem mais humilde. Quer também dizer que o estado passa a apoiar a expansão do ensino privado, financiando os colégios. Essa é aliás a reivindicação do movimento “liberdade de escolha” que representa os interesses privados no ensino, ao qual o PSD cede. Só que isso não fica bem a quem diz que só quer prometer o que pode cumprir. Quer do ponto de vista orçamental, quer do ponto de vista dos recursos humanos, nomeadamente dos docentes, a proposta é actualmente inexequível. Se o fosse, seria profundamente injusta do ponto de vista social. Incongruência 2 Boaventura Sousa Santos (BSS) manifestou, em artigo de opinião publicado na “Visão” de 27 de Agosto, mal-estar por ter sido suspeito de apelar ao voto útil no PS em artigo antes publicado. Reafirmando a sua simpatia pelo BE, BSS escreve, resumidamente, “Nestas eleições o eleitor comum de esquerda será um eleitor relutante de dois tipos: o relutante-desiludido e o relutante-esperançado. O primeiro está desiludido com as políticas do Governo PS e não lhe perdoa que não tenha aproveitado a maioria absoluta para promover políticas de esquerda: diminuir as desigualdades sociais, fortalecer os sistemas políticos de Saúde e de Educação, proteger os direitos dos trabalhadores, garantir a estabilidade das pensões. Confrontar as ideias com a realidade é cada vez menos o ponto forte de BSS. Não vê ele que o sistema de pensões português é hoje dos mais sustentáveis da Europa, devido às políticas conduzidas pelo governo PS, retomando a linha do que tinha sido feito com Ferro Rodrigues e Paulo Pedroso? E não é de esquerda a reforma da educação que conduziu à impressionante queda do insucesso e do abandono escolar ou a recuperação e revalorização da escola pública? BSS coloca-se, pois, no campo do preconceito anti-socialista tão típico na família política da sua simpatia, sempre louvando a diversidade da esquerda mas atacando o PS como se todo ele fosse homogéneo e como se o folclore da Saúde ou a inacção da Justiça (tema evitado por BSS, sabe-se lá porquê) pudessem ser incluídos no mesmo saco das reformas tipicamente de esquerda conduzidas por este governo. Diz mais à frente “(…) a crise devia ter dado ainda mais urgência a estas políticas, financiadas por dinheiro público que não devia ser desbaratado a salvar bancos corruptos.” Francisco Louça faz deste tipo de críticas a base da sua demagogia barata. Mas de BSS espera-se mais seriedade. Podia um governo de esquerda deixar de intervir no sistema bancário num período de crise financeira como o que vivemos? Não é a intervenção na economia num sentido de preservar equilíbrios essenciais, uma das marcas distintivas da esquerda. É e BSS tem a obrigação de o saber. Mas prefere manter o registo fundamentalista típico do BE (a ideia de que existe uma “esquerda verdadeira”, pura, e outra impura, pecaminosa, cheira muito a dogma religioso). Assim, a coberto de uma verdade, faz passar uma acusação gratuita ao governo do PS. Diz o professor que”Quando está no poder, a direita tem dois poderes (sic): o poder político e o poder económico; quando está na oposição, a direita cede o poder político à esquerda mas continua a deter o poder económico. Exerce-o de duas maneiras: influenciando indevidamente os governos que se deixam indevidamente influenciar, como aconteceu com o governo PS; dispondo do poder dos media que hoje são, em todo o mundo, o grande partido-travão das mudanças sociais progressistas”. Acerca do papel dos media o mediático BSS lá saberá o que diz. Mas baralha-se acerca do que é ser de esquerda quando toma por indevido o exercício de influências (ele não especifica se a forma é transparentes ou não), pondo em causa o princípio da concertação social – isto é, o exercício institucionalizado de influências por parte dos interesses de empregadores e de trabalhadores – que é o pilar de uma das maiores conquistas da humanidade, o Estado-Providência. E contradiz-se porque tinha referido atrás que o governo PS andou a exercer poder económico para salvar bancos. Então em que é que ficamos? A maior incongruência de todo o artigo aparece precisamente a respeito do Estado-Providência. Colocando-se na posição do suposto eleitor de esquerda diz que “Ele não vive no médio prazo e sabe que o dano que a direita fará ao já minguado Estado-Providência será desta vez irreversível”. Ora, se alguma tese é conhecida no radicalismo tardio de BSS é a de que em Portugal nunca se chegou a desenvolver um Estado-Providência. Afinal existe. É de louvar a mudança de posição. Diz BSS que não apenas existe como já terá tido melhores dias, pois agora está minguado. Quando foram esses dias? No tempo de Guterres? Não vejo que possa ter sido noutra altura. Mas isso foi há 10 anos, quando apareceu o BE, então como sempre, a dizer que a direita e o PS são a mesma coisa, deixando os eleitores sem escolha para o exercício do poder à esquerda. Sociologicamente estas incongruências compreendem-se. É que a esquerda “queque” unida no Bloco tem a mesma origem social da direita empoleirada no poder económico. São professores universitários, intelectuais (embora estejam longe de deter o exclusivo do mundo intelectual e académico, ou de ser sequer a parte mais relevante, porque essa é a dos que o são por mérito e não por condição), profissionais liberais, empresários. Nasceram nas mesmas famílias bem. Que adoram estes seus “filhos rebeldes” e “críticos”. Não admira, portanto, a sanha anti-socialista, que os anima. Trata-se do complexo de superioridade (eles é que são a “verdadeira esquerda”, não se esqueça) em relação a quem tem de fazer pela vida e por isso não se pode dar ao luxo dos devaneios bloquistas na luta pelo poder com a direita.
publicado por cafe-vila-franca às 11:11

Isto é tudo muito bonito mas as incongruências que matam o nosso país são casos como o do Jorge Coelho ir para a Administração da Mota-Engil, do Ferreira Amaral para a Brisa ou do Armando Vara para a CGD. Para além da pouca competência que todos têm para os cargos que ocupam transmite-se claramente quais são os objectivos dessas nomeações/contratações... Negócios bons para essas empresas e maus para o Estado.
Mais tarde, o Tribunal de Contas denuncia negócios ruinosos para o Estado como o do Terminal de Alcântara mas o que é que acontece? Nada! Estas coisas é que são de facto incongruências e é disto que as pessoas começam a ficar fartas e por isso é que não votam ou dizem que é tudo igual mas que não há alternativas e o "barco" lá vai andando meio à deriva.
Mas o que sinceramente gostava de ver aqui mais tratado era a nossa terra. Vila Franca de Xira. Merece o PS vencer de novo as autárquicas? Se se fala de asfixia democrática fala-se, infelizmente de VFX que se transforma numa Madeira em ponto pequeno com o casiquismo a ser premiado e com uma grande diferença face àquela região autónoma: É que pouca obra se vê. Apenas a de fachada e até essa muitas vezes mal feita.
JCB
JCB a 11 de Setembro de 2009 às 17:59

É verdade que a corrupção e o tráfico de influências são inimigos da democracia e da justiça social. Mas também é verdade que não há sistemas perfeitos nem invulneráveis a esses fenómenos. Pode ser que a corrupção e o tráfico de influências estejam a crescer de forma muito perigosa. É por isso uma prioridade combatê-los. Mas mais perigoso é, a partir dessa constatação, desvalorizar a esfera pública, culpar a democracia e a política. Porque a esfera pública e a política são o único espaço em que podem intervir e defender os seus interesses os cidadãos que não podem traficar influências como aquelas de que falas. Alguns querem-nos fazer crer que o estado é um mero instrumento do capital. Outros que em tempos, com muita autoridade e respeito, não existiam tais desmandos. Estes últimos são os culpados pelo atraso de Portugal e gostariam de nos ver descolar dos sistemas imperfeitos dos nossos parceiros mais desenvolvidos da Europa. Outros apresentam-nos as caras da promiscuidade entre a política, reduto da defesa do interesse público, e as empresas, como as que referes, como "prova" da decadência do sistema. Erro de quem não percebeu que o estado hoje já não é o de há séculos atrás, mas um estado que assenta no princípio da concertação social. Quem ganha com a confusão? Os interesses económicos: perante o recuo da política ocupam eles, sem escrutínio nem visibilidade pública, todo o espaço do poder.
Quanto a Vila Franca, tens toda a razão. Há que discutir muito, denunciar ainda mais. Este Blog continua aberto a todas as opiniões e eu próprio, a seu tempo, conto escrever bastante sobre a nossa terra.
cafe-vila-franca a 14 de Setembro de 2009 às 21:59

No Café Vila Franca, como nos cafés da trilogia de Álvaro Guerra, os personagens descrevem, interpretam e debatem a pequena história quotidiana da sua terra e, com visão própria, o curso da grande história de todo o mundo.
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