Dezembro 08 2011

Alves Redol e a Tauromaquia, arte em tom maior

Maria Alzira Seixo, uma palestra lamentável. Crónica de uma tarefa
adiada.

 

No passado dia 6 de Dezembro a Casa Museu Mário
Coelho e a Associação Promotora do Museu do Neo-Realismo levaram a cabo uma
sessão sobre Alves Redol e a Tauromaquia. Dizia-se, no convite, que “Alves Redol tem muitas referências aos
toiros, aos cavalos e à tauromaquia nos seus romances e em páginas
autobiográficas. Além disso, escreveu um texto para a revista Almanaque sobre
uma corrida de José Júlio em Sevilha e um prefácio a um livro de Pepe Luis.”

São várias as relações entre Alves Redol e a
tauromaquia. Desde as familiares (ele era primo de José Júlio e um dos mentores
iniciais do matador vilafranquense), até às de um aficionado culto com
contributos vários dados à festa, para além das que resultam da sua obra.

Tem, por isso, toda a pertinência que, nas
comemorações do centenário do nascimento dessa grande figura da literatura
portuguesa, se releve essa sua ligação ao mais importante dos traços de
identidade da terra que era assumidamente a sua.

Há, por isso, que endereçar parabéns à Casa Museu
Mário Coelho e à Associação Promotora do Museu do Neo-Realismo pela iniciativa.

Pena foi que a principal palestrante na sessão, a
Prof. Dra. Maria Alzira Seixo, tivesse deixado um tão grande amargo de boca.
Aquilo que começaria por ser uma pequena tristeza, a escassa assistência,
acabou por ser um mal menor, de tal modo foi lamentável e frustrante a
intervenção da senhora.

Quem é Maria Alzira Seixo? Um professora da
Faculdade de Letras da Universidade Clássica de Lisboa, especialista em
literatura francesa. Como disse ela própria, não conhecia Alves Redol, que leu
apenas no último ano.

Pose afectada de intelectual de pacotilha e
linguagem rebuscada como recurso discursivo, foi a primeira imagem que deu. Tal
como a de um sentimento de superioridade que fica mal numa sessão sobre Alves
Redol. Por exemplo, assumir que tinha de explicar aos presentes o que significa
“pragmática”, como se estivesse perante uma assembleia ignorante, foi apenas um
exemplo do tom geral que adoptou.

Um pouco narcísica, num estilo pedante falou mais
dela própria e da sua vida do que do tema que ali me levou. E cometeu vários
erros intoleráveis num académico. Vou dar alguns exemplos.

-       
Disse que para os franceses a tauromaquia é um
desporto. Para todos os franceses? O sul de França não está no mapa?

-       
Disse que conheceu a cavaleira “mexicana”
Conchita Cintrón”, quando Conchita era chilena!

-       
Disse que os países onde há festa de toiros são
Portugal, Espanha, França e México. Não sabe que também há corridas de toiros
formais na Colômbia, na Venezuela, no Peru e no Equador?

-       
Disse que não conheceu Redol porque só entrou na
Universidade em 1958 e o escritor morreu em 1959. Ora, Alves Redol deixou-nos
em 1969, e a senhora a única coisa que mostra é que enquanto os outros jovens
se envolviam contra o regime de Salazar, ela andava…por outras bandas.

-       
Disse que Alves Redol pôs na boca de Diogo
Relvas, em Barranco de Cegos, a sua
oposição à instalação de uma fábrica de cimentos em…Alverca!

Ninguém pode ser acusada de nada por não saber. Mas
uma professora universitária não pode falar, com tom sério, daquilo que não
sabe.

Não gostei nada de, precisamente na Casa Museu
Mário Colelho, ter referido como páginas maiores da literatura com temática
taurina duas obras, uma de Vitorino Nemésio e outra de John Coltzee. Esqueceu-se
(entre tantos outros, desde logo os poetas), por exemplo, de Hemingway,
Alexandre Herculano, Ramalho Ortigão ou Álvaro Guerra.

Um académico não aproveita este tipo de sessões
para, tirando partido da vantagem da posição, passar ideias que lhe são
próprias e tão válidas como as de qualquer outro cidadão. E se é para dar
opiniões, avisa que o que está a dizer é uma posição pessoal, e não a
transmissão do resultado objectivo da investigação científica. Falou duas vezes
do mal do ensino, que teria riscado a literatura do programa de português. É
totalmente falso. Aliás, o responsável dos actuais programas de português no
básico é um grande especialista em literatura portuguesa, o Professor Doutor
Carlos Reis, que reuniu uma equipa que integra especialistas de todas as universidades
portuguesas e colheu pareceres positivos de todos os nomes e instituições
relevantes. A Prof. Dra. Alzira ficou, como é costume, no contra. É um direito
que tem. Mas não pode desconsiderar o trabalho da esmagadora maioria dos seus
colegas da academia da forma distorcida como o fez.

Do mesmo modo que pode discordar do Acordo
Ortográfico, mas não pode dizer que por causa dele os jovens vão deixar de
saber escrever, o que de resto poderá deixar de ser problema porque, disse
depreciativamente, muitas palavras vão passar a poder escrever-se de duas
maneiras diferentes. Como se o problema do ensino da escrita fosse de agora e
como se o português anterior ao acordo não incluísse já um sem-número de
palavras que se escrevem corretamente de duas maneiras. Fez demagogia para
propagandear a sua opinião perante pessoas que não a podiam contestar, e isso é
feio (embora politicamente correto).

Mas o pior é que a senhora não percebeu nada de
Alves Redol. Não compreender a multiplicidade da figura de Diogo Relvas (o
senhor feudal, mas também o lavrador que recusa o título nobiliárquico porque
toma a agricultura como um negócio, o que é típico do empreendedor capitalismo
e não do déspota feudal), é não perceber o ponto de vista de Redol.

Atribuir a Redol uma preocupação com o abandono da
agricultura e com a expansão da indústria, como se de um ecologista radical se
tratasse, como  a senhor atribuiu ao
falar da já citada fábrica de cimento, é não compreender uma linha do que
pensava o adepto do progresso e da modernização que era Alves Redol.

De Alves Redol e da Tauromaquia pouco se falou.
Como disse o meu irmão José  Capucha,
essa é um sessão que deve ser ainda realizada. Já agora, convidando para falar
quem saiba da matéria.

 

Luís Capucha

publicado por cafe-vila-franca às 14:32

No Café Vila Franca, como nos cafés da trilogia de Álvaro Guerra, os personagens descrevem, interpretam e debatem a pequena história quotidiana da sua terra e, com visão própria, o curso da grande história de todo o mundo.
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