Agosto 04 2014
Li ontem com algum cuidado a longa entrevista de António José Seguro, secretário-geral do partido em que milito, o PS, ao Público. Mesmo confessando-se "liberto" de constrangimentos que o impediam de dizer tudo o que pensava (mas alguém alguma vez o faz?), continua a revelar aquilo que tem caracterizado a sua liderança: falta-lhe em ambição, em rasgo e em visão sistémica o que lhe sobra em cálculo político, em banalidades não comprometedoras nos assuntos delicados, em gestão de apoios eleitorais. Isto é, procura concitar apoios não cometendo erros, o que o impede - não sei se por limitações próprias se por cálculo político - de avançar com propostas de rutura, de mudança real, de procura da adesão pelo entusiasmo a um projeto inovador.
Mesmo a bondade da ideia da "industrialização", não passa na realidade de uma banalidade, de resto simplista em demasia face às dinâmicas económicas dos nossos dias. Nem se percebe como se conseguirá promovê-la. Mas concedamos que é uma ideia, embora qualquer um a pudesse subscrever, do PCP ao CDS-PP. O resto são ataques pessoais (ataques políticos, não ao caráter, tem o cuidado de explicar, não vá ser acusado de cometer algum pecado) e lugares comuns.
Há porém na entrevista uma curta passagem esclarecedora em relação à lógica conservadora e eleitoralista do modo de fazer política de AJS. É quando diz que, entre os serviços prestados ao PS, se conta a Presidência da Comissão de Educação na AR quando o primeiro governo de José Sócrates se tinha envolvido num complicado conflito com os professores. Esta declaração, coerente em relação ao comportamento de distanciamento de AJS em relação ao trabalho desse governo, revela muito do estilo e da capacidade do atual Secretário-Geral do PS.
Na área da educação esse foi o governo que combateu os horários zero, que modernizou o parque escolar e os equipamentos (incluindo informáticos) das escolas, que criou as AEC, que criou a Iniciativa Novas Oportunidades, que dotou milhões de portugueses de acesso às TIC, que reformou o ensino das artes e em particular da música, que inovou nos Programas de Matemática e Português do ensino básico, que fez expandir para níveis antes inimagináveis a educação profissional, que atuou a fundo nas questões da relação entre o Ministério e as autarquias, que promoveu a autonomia das escolas, que tentou estruturar a profissão docente e introduzir a avaliação a todos os níveis do sistema, entre muitas outras realizações.
Seguramente, estas políticas e muitas outras que me escuso de relembrar (umas muito bem sucedidas, outras com arestas a limar ou falhas a corrigir), colidiram com interesses instalados e provocaram controvérsia e contestação entre alguns setores docentes (quiçá capazes agora de compreender o que estava em causa e mudar de opinião, depois do que viram com Crato).
Tais políticas fizeram diminuir drasticamente o abandono escolar precoce, fazeram milhões de jovens e adultos permanecer mais tempo na escola ou regressar a ela, colocaram Portugal numa posição radicalmente diferente em termos das competências dos alunos, tal como eles são medidos pelo PISA, pelo TIMMS e pelo PIRLS, entre muitos outros resultados de grande relevo. Os quais permitiram mesmo tornar realista a lei da escolaridade obrigatórias até aos 18 anos. Estes avanços são objeto de ódio do atual governo, que procura desmantelar a todo o custo e de todas as formas a escola de sucesso para todos.
Mas António José Seguro, pelos vistos, não vê nelas mais do que medidas que provocaram "conflito com os professores". Com mais rigor diria com os sindicatos dos professores.
Custo que, pelos vistos, AJS não estará disposto a pagar. O mesmo é dizer que, para assegurar apoios eleitorais, se recusará a promover as reformas de que o país, e em particular a economia e o estado social, carecem, mas que podem colidir com interesses e gerar situações de conflito . É esta ambiguidade que torna vazio o discurso de Seguro. Calculismo eleitoral, vitória eleitoral nem que seja pelos mínimos, é o que interessa, evitando todos os possíveis conflitos com os interesses corporativos que impedem a modernização do país.
Creio que Portugal precisa de um PS com coragem, com visão e com capacidade de inovar. Precisa de outro Secretário-Geral para o PS.
publicado por cafe-vila-franca às 15:48

No Café Vila Franca, como nos cafés da trilogia de Álvaro Guerra, os personagens descrevem, interpretam e debatem a pequena história quotidiana da sua terra e, com visão própria, o curso da grande história de todo o mundo.
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