Agosto 08 2015

Considero-me um aficionado de “banda larga”, que gosta do bom toureio independentemente da modalidade (a pé, pegas e, mais raramente, a cavalo), a quem cabem muitos toureiros, com diferentes estilos e predicados, na cabeça e, além disso, que aprecia não apenas as corridas de toiros, mas também, e muito, as tauromaquias populares, base de sustentação de toda a Festa.

Gosto, por isso, de andar por sítios onde o toiro sai à rua e é lidado segundo as regras de cada terra. Não vou falar hoje dessas regras nem dos significados que encerram. Vou antes dar dois exemplos de como as tauromaquias populares têm um impacto que vai muito para lá dos aspetos estritamente taurinos, criando nas pessoas o hábito de cuidarem do que é seu, da herança cultural que receberam e do governo e gestão das festas que constituem a expressão maior da identidade das suas terras. Os dois casos são Barrancos e Lageosa da Raia.

Em ambos os casos as festas são organizadas por Comissões de Festas que mudam todos os anos. No caso de Barrancos constituem-se duas Comissões. Uma com mulheres e outra com homens. A comissão das mulheres trata das festas religiosas de dezembro, a dos homens das Festas em Honra de Nª Senhora da Conceição e de outros acontecimentos que para ela convergem. Centrar-me-ei nesta última. São cinco os membros da Comissão de Festas. Geralmente são jovens os que a integram. Entre a contratação de toureiros, a compra dos toiros e posterior venda ao talhante que distribuiu a “carne mágica” pelas pessoas que a cozinham com tomate, a contratação de grandes bandas de música que tocam nos animadíssimos bailes no Quintalão, a contratação dos artistas ou grupos que atuam todas as noites no Largo da Igreja, entre um vasto conjunto de tarefas, são eles que se responsabilizam por tudo o que é necessárias para que a festa corra bem. Incluindo a angariação dos fundos necessários, umas gordas dezenas de milhares de Euros. Noutros tempos, até dar o nome para o Tribunal de Moura por causa da morte dos toiros, era uma consequência de pertencer à Comissão. Recebem um apoio da Câmara Municipal (por exemplo, a montagem dos tabuados e outros serviços de logística), mas é deles a responsabilidade para que a Festa seja grande como sempre. Empenham-se nisso com brio.

A Comissão de Festas tem de ser solidária. E por vezes isso implica sacrificar o orgulho próprio para servir a terra. De facto, cada membro da Comissão de Festas nomeia, sem que nem o nomeado nem ninguém mais o saiba, um amigo para o substituir. Quando os novos nomes são anunciados, com pompa, na Igreja, ninguém sabe que grupo se vai reunir. Podem entrar na Comissão (ninguém se nega) rapazes que andem com as candeias às avessas. Mas ali, na organização das Festas, esquecem-se os desaguisados e todos colocam o sucesso coletivo e o nome de Barrancos acima de tudo.

Na Lageosa da Raia, concelho do Sabugal, há quatro mordomos (ou mordomas) para as festas, e dois para a capeia raiana, ou corrida do forcão. São eles que, também aqui, tratam de tudo: dos arraiais, da procissão, da organização da Capeia, etc. E também têm de garantir o sucesso da festa, porque a competição e a rivalidade entre as aldeias raianas daquela região é muito forte, e ninguém quer ficar por baixo.

O processo de escolha dos mordomos obedece a um sistema semelhante ao de Barrancos. Cada Mordomo que vai sair nomeia quem o substitua. Os nomes dos candidatos são também anunciados na Igreja, no dia da procissão (que antecede o dia da capeia, não obstante os jovens se prepararem para os desafios do dia seguinte desfilando em ordem militar com as suas lanças e alabastros em riste e a passo certo). Pela tarde, a banda da música (este ano a banda veio de Pinhel), acompanha pelo Mordomos e inúmeros populares – eu andei lá misturado – que vão a casa de cada um dos nomeados. Se ele aceita a responsabilidade, vem à porta da casa receber quem chega e convida toda a gente para comer e beber no quintal. Porém, este ano o cortejo foi bater a um designado que “fugiu”, não estava em casa. Uma “vergonhosa” fuga às responsabilidades. Ficaram os outros três e, logo ali na casa de um deles, um outro cidadão da Lageosa se ofereceu. Lançaram-se foguetes e parece que a alegria foi ainda maior. Para o ano vamos ter outra vez festa brava, rija e muito divertida entre gente que sabe receber os visitantes (como também acontece em Barrancos, como todos sabemos bem).

Não há Câmara Municipal nem Junta de Freguesia metidas no processo ou sequer presentes. E vão ser os mordomos(as), quase sempre residindo longe, no estrangeiro ou na região de Lisboa, que se encarregarão do pesado fardo de organizar as festas, implique isso os esforços que implicar.

Dito isto, de onde vem o título deste “post”? Fiz umas contas: ao fim de, por exemplo, 20 anos, 100 jovens de Barrancos 120 da Lageosa, conhecem a fundo a sua festa. Sentem-se parte de uma corrente que passou por eles. Participam ativamente, por nomeação democrática, naquilo que a comunidade tem de mais valioso: as festas em honra dos seus Padroeiros. Em pouco anos ninguém, ou pelo menos nenhuma família (ela é um apoio fundamental), fica de fora da responsabilidade de aprender a cuidar e a defender o que é seu. Não é o “seu” egoísta. Pelo contrário, é o seu altruísta e solidário. Que resulta de uma forma de organização política da comunidade baseada na participação democrática de todos os membro naquilo que há de mais importante na vida dessa comunidade.

Esta perspetiva não tem nada contra a democracia representativa, nem sequer afirma qualquer superioridade intrínseca destes mecanismos de participação dos cidadãos na gestão da vida das suas comunidades. Mas não deixo de enfatizar a ideia de que, noutros sítios - como na minha terra, Vila Franca de Xira – estes exemplos nos deveriam fazer refletir. Aqui a principal responsabilidade é acometida às autarquias e às suas burocracias, que muitas vezes não sentem nem se identificam com a festa. Quais as consequências disso? Falamos sobre isso um dia destes. Mas deixo já duas pistas: as pessoas perdem o sentido de responsabilidade pela defesa da sua festa, enquanto esta perde brilho porque lhes falta o amor de quem as pode sentir como suas.

 

Só uma nota de rodapé: o meu filho Frederico cresceu muito este Verão. Primeiro “pegou ao forcão” na Lageosa da Raia, quando soltaram uma bezerra para os jovens. Uma prática que assegura o futuro da Festa. Já se fez, à nossa maneira, em Vila Franca de Xira, mas deixou de se fazer, e é pena. Depois fomos para o campo ver passar os toiros no “desencerro”. Só que um ficou para trás. Fomos obrigados a fugir para cima de um muro que mediria de altura, no máximo, 1,10 metros. E o toiro resolveu vir cumprimentar-nos. Gritei ao Frederico: não te mexas! Ele ficou quieto, com o toiro a olhar para ele a menos de 0,5 metros. Depois o morlaco lá se virou e encostou o rabo ao sítio onde eu estava, também, imóvel. Passavam os cavaleiros e o toiro nada… atiravam-lhe paus e outros objetos para o fazer sair dali, mas ele…nada. O Frederico perguntou-me baixinho se podia descer do muro, para o lado de trás. Que sim, mas sem muito espalhafato, disse eu. Até que, para aí 10 minutos depois, apareceu alguém com uma garrocha, e picou o toiro, que saiu do conforto da nossa companhia e foi pelo caminho errado de volta à aldeia. O Frederico e eu respirámos fundo. Ele comentou: pai, já apalpei, e não me borrei. Foi um valente.

publicado por cafe-vila-franca às 18:12

Agosto 05 2015

Cecil, o leão “estrela” do Zimbabwe, foi morto por um caçador furtivo. Criou-se uma onda de simpatia pelo leão e de condenação do caçador (sendo vários os apelos ao regresso à pena de morte) que não tem paralelo com a convivência diária com a morte e o sofrimento atrozes e cruéis que varrem de lés a lés o planeta atingindo mulheres, crianças e pobres vítimas da guerra, da intolerância, do fanatismo, da exploração mais selvagem e do completo desrespeito pelos direitos humanos.

A comoção por Cecil, compreensível, tem muito de irracional e foi aproveitada de forma demagógica pelos animalistas, grupo radical e fundamentalista que representa a tentativa de rutura final entre o Homem e a natureza e do Homem com a sua própria natureza.

Cecil era, como todos os leões em estado selvagem, um caçador. Ele e o seu bando, como todos os bandos de leões, matam outros animais para se alimentarem e para defenderem o seu território. As crias de Cecil serão mortos sem hesitações pelo(s) leão que vier a ocupar o lugar de Cecil no bando de leoas viúvas. Os leões caçam e matam outros animais com a mesma naturalidade com que golfinhos machos tentam matar crias recém nascidas “apenas” para que a mãe fique disponível para acasalar mais cedo (cito este exemplo, por ter também sido notícia recente um caso destes), e com que todos os outros animais se comportam em função do seu instinto.

O Homem, como disse Ortega y Gasset em Conferência proferida no Grupo Tauromáquico Setor 1 publicada numa obra sobre “A Caça e os Toiros”, também conserva o seu instinto caçador. Que controla por meio da caça legal. Como conserva instintos sexuais – tal como os golfinhos e os leões, os cães e os gatos, os ratos e todos os outros viajantes na Arca de Noé. No entanto, a sexualidade humana é bastante diferente da dos outros animais e plantas. Por exemplo, o incesto é um tabu em todas as sociedade humanas. Foi, segundo Claude Levi-Strauss, a proibição do incesto que criou a cultura. Não podendo relacionar-se sexualmente com membros do seu grupo, homens e mulheres tiveram de contactar outros grupos, comunicar com eles e estabelecer acordos matrimoniais mais ou menos complexos. Seria essa a origem de toda a cultura, isto é, da descolagem do animal homem em relação ao comportamento meramente instintivo.

Os homens, os únicos animais que produzem cultura, são capazes de refletir e interferir, segundo regras que eles próprios produzem, sobre os seus instintos e humanizá-los, isto é, regulá-los de acordo com determinados padrões culturais, variáveis de sociedade para sociedade.

É por isso que comportamentos como o incesto ou a violação são condenados e punidos. Esses comportamentos representam o regresso ao estado natural, descontrolado, animalesco, bestial, que a sociedade não pode tolerar. O mesmo acontece com a violência. Alguém que adota um comportamento violento e agride ou mata outra pessoa (se não se encontrar investido da função de uso da violência, como a que está atribuída aos exércitos e às polícias), deixando-se controlar pelo instinto animal, será, uma vez descoberto e detido, condenado na justiça. Não passa pela cabeça de ninguém culpar um leão por matar a gazela ou a zebra, ou punir o golfinho infanticida, ou o cavalo que faz sexo com a mãe ou a irmã, o cão que morde uma pessoa, o rato que transmite doenças, ou um longo etc. Eles agem de forma instintiva, não se lhes pode atribuir o dever de atuar de forma diferente. Ao contrário dos homens, a quem se pode, e deve, exigir o cumprimento de uma série de deveres e ater-se a uma série de regras, incluindo as regras morais que lhes permitem distinguir o bem do mal.

A caça tem regras. Sempre teve. Nos nossos dias, com o perigo de extinção de algumas espécies, essas regras tornaram-se mais apertadas. O Estado e as Associações de Caçadores controlam a aplicação das regras e procuram evitar incumprimentos. Mas, como acontece com a violência e a sexualidade, nem sempre a sua ação é eficaz. Emergem assim comportamentos socialmente condenáveis como o incesto, a violência sobre mulheres, crianças, idosos ou outras pessoas e às vezes povos inteiros mais fracos do que o agressor, ou a caça furtiva.

Perante esse e muitos outros fenómenos relativos às regras e ao seu incumprimento, a atitude civilizada é a de reforçar os mecanismos que permitam controlar o comportamento desviante (às vezes, quando perpetrados pelos Estados, esses comportamentos são “normais”, mas nem por isso menos condenáveis, como é o caso da guerra).

O que é totalmente abusivo é utilizar casos emotivamente significativos (e por isso também objeto de muita manipulação) para tentar impor aos outros, de forma totalmente arbitrária, crenças, convicções, gostos e comportamentos de grupos militantes que julgam e condenam de forma arbitrária todos os comportamentos contrários às suas preferências, usando mesmo meios violentos (como fazem os bandos animalistas agressivos).

Uma coisa é condenar a caça clandestina. Eu (que não sou caçador), e penso que todos os caçadores civilizados, condenam-na. Outra coisa totalmente diferente é pretender abolir a caça. Deixar de comer carne, peixe ou até ovos é uma opção de cada um, enquanto não se transforma num programa político que se vende em nome de valores maiores, como a defesa do ambiente, “Cavalo de Troia” de interesses inconfessáveis do totalitarismo cultural.

publicado por cafe-vila-franca às 22:34

No Café Vila Franca, como nos cafés da trilogia de Álvaro Guerra, os personagens descrevem, interpretam e debatem a pequena história quotidiana da sua terra e, com visão própria, o curso da grande história de todo o mundo.
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