Setembro 28 2009

Sei que pode parecer delírio, mas a minha interpretação do resultado do PS é a seguinte: 1. uma campanha de há muito lançada de forma conjugada pela comunicação social e por toda a oposição, com intervenção dos obscuros meandros policiais que inventaram o caso "Freeport" como fizeram com outros casos no passado, mais a ajuda da incapacidade do governo para conduzir as reformas necessárias em alguns sectores, a que ainda poderemos juntar os efeitos da crise internacional, conduziram a um descontentamento de muitos eleitores que tinham  votado PS contra um calamitoso PSD em 2005; 2.  As eleições europeias e o voto (ou não voto) de protesto desses eleitores deram a Manuela Ferreira Leite e ao Bloco de Esquerda uma vitória que a primeira não esperava e o segundo procurou à custa da total ausência de escrúpulos políticos; 3. a perspectiva de um governo chefiado por Ferreira Leite e o péssimo desempenho do Louçã na campanha levaram muita gente a optar pelo voto útil no PS, o que se traduzia nas sondagens (depois do empate técnico quinze dias antes, a dias das eleições o PS disparou para um valor  entre 38 e 40%); 4. como as sondagens divulgaram esses resultados, muitos dos eleitores que queriam penalizar o PS mas não queriam que a Ferreira Leite ganhasse acabaram por se abster (já não era necessário engolir o sapo), trazendo o PS para os 36%.

Este resultado indicia uma legislatura muito complicada. A tese de todos os partidos da oposição é que o fim da maioria absoluta será bom porque obrigará Sócrates a negociar mais. Mas, para haver negociação, é preciso que os outros partidos queiram. Ora, nenhum partido esboçou o menor sinal de abertura para negociar. Particularmente grave é a atitude do PCP e do Bloco de Esquerda. Do primeiro já se sabia que parou no tempo em 1975, é do contra, e pronto. Mas do Bloco esparava muito gente que nele votou uma atitude responsável, que puxasse o governo para a esquerda, mas permitindo a governação. Ambos mantiveram o discurso do PS "inimigo nº 1" (Louçã, "o justiceiro", foi para além de fundamentalista como sempre, também mesquinho no discurso da noite eleitoral), o que pode ser muito mau para todos. Resta esperar que o novo governo aprofunde a corajem reformista, com um pouco mais de esquerda nas suas opções. Assim obrigará cada qual a assumir a sua responsabilidade.

 

Agora começaram as autárquicas. Não conto pronunciar-me mais sobre o assunto até ao dia posterior às eleições. E focalizarei apenas o caso de Vila Franca de Xira.

Antes de me calar quero apenas avançar com o que, a meu ver, poderá vir a acontecer. Faço-o aqui do mesmo modo que já há meses o fiz noutros locais, nomeadamente no interior do Partido em que milito.

O Partido Socialista, com Maria da Luz Rosinha, ganhou há cerca de 12 anos atrás as eleições, com uma escassa margem. Teve o seu melhor período como Presidente da Câmara e ganhou quatro anos depois com maioria absoluta, a qual viria a renovar e alargar nas eleições seguintes. Cresceram as maiorias mas a gestão do concelho foi sempre piorando (a seu tempo fundamentarei esta apreciação, sector a sector) e a qualidade dos seus vereadores foi cada vez mais fraca, ao ponto de tocar as raias do absurdo nas listas elaboradas para as presentes eleições. O eleitorado está descontente. Maria da Luz Rosinha poderia ter feito uma renovação dos candidatos de modo a alargar a base de apoio, mas recusou-se. Provavelmente perderá, por isso, a maioria absoluta. Não sei por quantos.

Procurará coligar-se ao PSD e não sei se conta terminar o mandato. Mas se este cenário se verificar, a Maria da Luz terá de ser responsabilizada. Ele era evitável.

Oxalá esteja enganado.

publicado por cafe-vila-franca às 20:25

Dois comentários:
1. Quanto aos resultados das legislativas: Há alguns anos atrás, quando outro partido teve duas maiorias absolutas e governou com a estabilidade que lhe foi conferida pelos resultados eleitorais não houve quem faltasse a emitir a opinião de que isso era péssimo pois dava azo ao autoritarismo e à arrogância aliás, duas imagens que, não por mero acaso, foram também associadas à última maioria e que, pelo contrário, da divergência de opiniões e da discussão podiam sair, digamos, consensos mais difíceis de alcançar, mas ao mesmo tempo mais robustos e o País sairia beneficiado. Bom, esse é o cenário actual. As regras da democracia são estas. Espero é não andar a comer 4 anos seguidos queijo limiano...
2. Quanto à conjectura traçada para Vila Franca de Xira: Eu, ao contrário de ti, posso falar à vontade (e espero fazê-lo sempre!) e concordo em pleno quando dizes que a gestão vem piorando mas vou mais longe. É que o presente executivo é o pior de que eu me recordo e merece um castigo bem mais pesado do que aquele que antevês que é o de vencer mas com a necessidade de se coligar. De facto, quando comparado com estes últimos 8 anos, a Câmara gerida pela CDU deixa saudades...

Por isso, oxalá não te enganes.

João Carlos Brito
João Carlos Brito a 28 de Setembro de 2009 às 23:37

Pumba, vai buscar...

Excelente artigo! 5*****
Pedro Calisto a 29 de Setembro de 2009 às 12:56

A nível nacional, qualquer perspectiva de colocar no PS "um pouco mais de esquerda nas suas opções" terá que partir do próprio PS e da disponibilidade para, à esquerda, construir pontes que contrariem aquela que foi a sua orientação política na última legislatura. O ímpeto reformista deste governo, considerações de carácter e opções específicas à parte, revelou um partido disposto a governar à margem dos actores em quem essas reformas incidiam - essa não é uma prática da esquerda, nem uma prática moderna. Se não muda no conteúdo nem na forma, este PS não devia e não irá contar com qualquer esquerda, face aos resultados de domingo. A questão não se coloca, portanto, na disposição e disponibilidade desses partidos para negociar parlamentar e/ou governativamente - julgo que para um partido como o PCP, driblando acusações de atavismo mental, a responsabilidade que tem para com a luta contra as políticas dos últimos quatro anos obriga a essa alteração de conteúdo e forma pelo PS.
A disposição parlamentar que saiu das eleições tornou muito complexa a governabilidade do país, concordo - esperava, sinceramente, um BE mais representativo (ou, proporcionalmente, um PS mais representativo) que abandonaria rapidamente a fleuma verborreica a que o seu vazio programático obriga, viabilizando uma solução governativa. Tal não ocorreu, o que, na minha opinião, além de permitir ao BE mais quatro anos de "estado de graça" (a lógica de "esquerda morangos com açúcar" poderá ser mantida e mediaticamente bem suportada, sem opções de responsabilidade que a contrarie), colocará ao PS a escolha entre uma negociação a três, complexa e fortemente ideológica, ou uma negociação directa à direita, onde o CDS surge como um interlocutor "a jeito".
O meu desejo é que o PS faça o esforço para se abrir ao PCP e ao Bloco, por uma política popular e de progresso humano; a minha percepção não caminha, infelizmente, para aí. A ver vamos...

Em relação a Vila Franca, julgo que a realidade fala por si - o Concelho é, hoje, uma sombra do que era!
Não é intelectualmente honesto dizer que não há obra neste últimos 12 anos (8 anos, para ser mais justo com a gestão que a antecedeu) - lembro, aliás, um livro que me deram em 2001, por alturas das eleições autárquicas desse ano, cheio de inaugurações recentes e projectos a realizar. Mas sendo intelectualmente honesto, também digo que, por todo o país, os municípios se desenvolveram e adquiriram uma visão estratégica desse desenvolvimento de uma forma que esta gestão não conseguiu acompanhar. Como consequência, Vila Franca de Xira, outrora uma referência ("Cidade Limpa", por exemplo), não tem uma boa-prática que inspire outros concelhos nacionais e europeus. As coisas são feitas, sim, mas sem um sentido integrado, sustentado e sustentável, de costas voltadas para si mesmo e para as populações.
É natural que não dês as mesmas soluções que eu, mas acho que convergimos no diagnóstico. Qualquer que seja o resultado de dia 11, espero é que se encontrem sempre espaços para discutir e agir em favor desta terra que, dialecticamente, também somos nós.

Abraços e parabéns pelo blogue - vou manter-me atento e, sempre que possível, comentar.
Luís Capucha Pereira a 30 de Setembro de 2009 às 16:57

Olá Luís
Há um problema com o PCP que parece inultrapassável: não consegue sequer aproximar-se do princípio marxista de que é preciso conhecer a realidade, não para a contemplar, mas para a transformar. O PCP nãoreconhece a realidade da vida contemporânea a as prioridades que impõe e a uma política de esquerda e não apenas não quer transformar essa realidade como vive num mundo que desapareceu há mais de 20 anos e que, de forma geral, mostrou ser contrário ao progresso e à justiça social . Por isso vive, doutrinariamente, amarrado a dogmas; politicamente, agarrado a uma base de apoio que apenas sobrevive devido a atavismos e interesses corporativos. Sobre dogmas, refiro um exemplo: só há uma esquerda e essa foi a que teve expressão histórica no modelo soviético de sociedade e de economia; sobre a base de apoio, à medida que desaparecem os operários industriais, começam a restar apenas as corporações ligadas ao aparelho de estado. Com outra liderança do PS, por exemplo como a de Ferro Rodrigues, provavelmente já estaria reduzido à dimensão do MRPP. Assim, consegue ficar atrás, mas perto, de todos os partidos com assento parlamentar.
Claro que tudo isto são apreciações pessoais. Mas há um facto indesmentível: não se pode negociar com um partido minoritário que acha que deve ser o partido mais votado a fazer todas as cedências à "tal" verdadeira esquerda. Outro aspecto não marxista da doutrina do PCP - a lógica da terra queimada e da inflexibilidade táctica.
cafe-vila-franca a 30 de Setembro de 2009 às 22:37

No Café Vila Franca, como nos cafés da trilogia de Álvaro Guerra, os personagens descrevem, interpretam e debatem a pequena história quotidiana da sua terra e, com visão própria, o curso da grande história de todo o mundo.
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