Outubro 24 2010

 

Como muitas centenas de militantes do Partido Socialista dei por perdido o dia de ontem, Sábado, 23 de Outubro: fui ao Congresso da Federação da Área Urbana de Lisboa (FAUL), para…nada.

As expectativas eram, porém, elevadas. Fui eleito no quadro de uma campanha contra o estado a que o “aparelho” tinha conduzido o PS. Pude verificar durante a campanha para a eleição dos delegados ao Congresso e do Presidente da FAUL como é grande o desânimo e a desmobilização dos militantes, o que se traduziu na baixíssima taxa de votantes. Mas verifiquei principalmente como, pelo menos no concelho em que resido, a atitude autoritária dos principais responsáveis autárquicos, a começar pela Presidente da Câmara Municipal, Maria da Luz Rosinha, foi conduzindo o PS. Um mero aparelho de suporte ao exercício autocrático do poder, obediente, acrítico e, paradoxalmente, quase “apolítico”. Testemunhei que existe não apenas desmobilização e desilusão devidas à pobreza do debate de ideias e da acção política, mas também uma crescente redução das listas de militantes activos aos funcionários das autarquias e a autarcas. Principalmente, testemunhei medo da expressão das ideias e preferências por parte de muitos camaradas.

Interpreto a vitória de Marcos Perestrello para Presidente da FAUL como a expressão da vontade de mudança dos militantes que ainda podem pensar pelas suas próprias cabeças. Votaram por um Partido mais aberto à sociedade e mais capaz de continuar a merecer a confiança dos eleitores, porque mais capaz de se constituir como o centro do debate político e de expressão dos anseios das populações que não possuem outra forma de manifestar os seus interesses e ambições.

Mas…o aparelho é o aparelho. E não se conformou com a derrota, nem a aceitou como seria sua obrigação democrática. Com pretextos administrativos (o aparelho só conhece dois tipos de argumentos: os burocráticos e os de autoridade, nunca os da substância ideológica), impôs a formação de uma lista única para a Comissão Política da Federação, encabeçada pelo candidato derrotado!

Em nome da imagem de unidade e paz interna, pôs-se fim a qualquer hipótese de discussão sobre as tarefas do Partido, sobre as suas propostas e sobre o modo como se tem de mobilizar internamente para agir na sociedade.

Dizer que o país vive momentos difíceis é um eufemismo. Na verdade, atravessamos a pior crise internacional dos últimos 80 anos. Na base dessa crise está a subtracção dos interesses privados do capital financeiro, particularmente do seu sector especulativo, ao controlo do estado, enquanto representante do interesse colectivo. As finanças passaram a dominar a economia e a economia a dominar a política, isto é, os interesses da sociedade. Os valores estão invertidos e essa é a raiz da crise.

A imposição da “ditadura dos mercados” passa pela descredibilização da política e dos políticos e pela desvalorização do debate político na esfera pública.

Por isso, o que aconteceu com o Congresso da FAUL representa uma significativa capitulação da política – que sempre se fez e fará, em democracia, do debate de ideias – face aos interesses privados.

No termo de uma crise de dimensão semelhante à actual, que se iniciou em 1929 e desembocou na Segunda Guerra Mundial, foram os socialistas que revelaram a imaginação política em que assentou o período de maior desenvolvimento e justiça social na história da humanidade. Propuseram o pacto social adequado à crise e à melhor forma de a superar com vantagem para os cidadãos. Hoje os partidos socialistas ainda não encontraram as respostas adequadas à natureza dos problemas que enfrentamos. Por isso governos liberais têm vindo a chegar ao poder em toda a Europa. O neo-liberalismo impõe a sua agenda até aos partidos socialistas que ainda restam no poder.

Para encontrar soluções e propostas à altura da actual crise e da relação de forças que está na sua génese não se requer obediência, mas sim discussão pública, agitação das consciências, abertura à inovação e inconformismo.

No Congresso da FAUL perdemos uma oportunidade. Podemos ter passado a imagem de um partido unido. Mas não abrimos as janelas para que novos ventos arejem o ar que respiramos.

 

Luís Capucha, militante nº 25.124 do Partido Socialista

publicado por cafe-vila-franca às 11:25

No Café Vila Franca, como nos cafés da trilogia de Álvaro Guerra, os personagens descrevem, interpretam e debatem a pequena história quotidiana da sua terra e, com visão própria, o curso da grande história de todo o mundo.
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