Setembro 28 2014
A maré social está a encher. Um sociólogo não deve falar sobre os fenómenos sociais com base nas impressões que os acontecimentos lhe deixam. Tem de investigar. Mas aqui não é o sociólogo que fala. É o cidadão.
Nos últimos anos senti o povo tristonho. Convencido de que a crise era culpa sua e do seu despesismo, como os poderosos que nos governam o fizeram crer. Mas as coisas mudaram.
Não tenho indicadores objetivos para apresentar. Mas tenho alguns sinais de proximidade. Por exemplo, o último Colete Encarnado foi mais alegre que os anteriores. Nais recentemente, milhares de pessoas se reuniram para o ato solene de inaugiração da "Fábrica das Palavras", a nova biblioteca em Vila Franca. Dias depois vi uma tímida iníciativa do Clube Taurino Vilafranquense, a noite das sopas, concitar uma adesão que ninguém esperaria. Um autêntico sucesso que criou, pela dimensão inesperada, problemas logísticos aos organizadores que em boa hora tiveram a ideia.
As pessoas querem estar juntas e estão fartas da tristonha austeridade. Querem viver. Sentimento que logo reforcei quando saí das "sopas" e fui à "fábica das palavras" onde atuava o Paulas Brissos. Tanta gente... tantos amigos que não via há tanto! E consolidei a ideia de que a maré da (eventualmente pacífica e convivial) revolta popular está a encher. Senti as pessoas a sair dos abrigos e a dizer, "temos direito a um pouco de sol".
Hoje decorreram as eleições "internas" no PS. Não restam dúvidas, a maré não apenas está a encher, como pode mesmo estar em "preia-mar".
Como tornei várias vezes pública, a minha opção foi António Costa. Mas saio apreensivo desta noite. Sei que aquilo que vou dizer é tudo menos simpático e popular, pelo contrário. Mas vou dizê-lo na mesma. António Costa saiu do Fórum Lisboa, onde estavam os seus, para ir ao Rato dar um abraço ao Jorge Coelho, que, no PS, por consenco entre os candidatos, presidiu às eleições.
Como muitos saberão, o Jorge Coelho foi um político da minha simpatia. Mas saiu da política para os negócios. E eu, como a maioria das pessoas que votaram António Costa, não confiam em quem se movimenta entre a política e os negócios.
Para os mais esquecidos, quando Guterres disputou, à direita, a liderança do PS a Sampaio, Jorge Coelho foi mandado avançar para a FAUL, de modo a impedir que António Costa, na altura um dito sampaista, ganhasse essa importante Federação (a qual, de resto, desde esse dia nunca mais foi a mesma). Seguro, Galamba e muitos outros eram na altura "homens de mão" de Jorge Coelho. Não me esqueço.
Depois da disputa entre Sampaio e Guterres o PS uniu-se e ganhou as eleições, governando até que Guterres declarou a existência do "pântano". Como o nosso cândido camarada Primeiro Ministro não foi explícito, eu acreditei que o pântano incluía a fuga precoce de António Vitorino de responsabilidades governativas e, mais tarde, na primeira oportunidade, de Jorge Coelho. Ambos foram tratar da vidinha, o que fizeram com sucesso pessoal. O país é que perdeu com a chegada da direita ao poder. Sócrates haveria de ganhar a maioria absoluta alguns anos mais tarde. Em boa hora, porque a política social, a polítia de educação, a política de ciência e de inovação deixaram marcas. Note-se porém que nem o inefável Vitorino nem o "organizador" Coelho estavam disponíveis para ajudar.
Posto isto, a MINHA PERGUNTA, DESCULPEM O INCÓMODO, É A SEGUINTE: O QUE FOI ANTÓNIO COSTA ABRAÇAR NO RATO?
O dirigente agora eleito, também com o meu voto, candidato do PS a Primeiro Ministro, disse-me em certa ocasião como era decsivo "saber escolher os amigos". Falava então com ele, Presidente da Câmara de Lisboa, sendo eu dirigente no Ministério da Educação, sobre a atitude de certos governantes em relação à Orquestra Metropolitana de Lisboa. Essa ideia não me sai da cabeça... Por isso insisto na questão; quem são os teus amigos, António Costa?
publicado por cafe-vila-franca às 22:59

No Café Vila Franca, como nos cafés da trilogia de Álvaro Guerra, os personagens descrevem, interpretam e debatem a pequena história quotidiana da sua terra e, com visão própria, o curso da grande história de todo o mundo.
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