Maio 28 2014
Finalmente uma novidade: António Costa é candidato à liderança do PS e, portanto, a Primeiro-Ministro.
Há muito muitos clamavam por esta solução messiânica que os resultados eleitorais tornaram inevitável.
O país piorou em todos os domínios, desde a economia à pobreza, passando pelo desemprego, pela educação, pela saúde, pela justiça, pela segurança social e pela segurança pública, pelos défices e pelas contas públicas e, para cúmulo, pelas questões da soberania. Não seria de esperar menos do que um grande descontentamento popular. Que não tem sido canalizado para protestos na rua (o PCP fez o seu trabalho de partido do sistema), mas que teria de se manifestar nas urnas.
Já se sabia que o voto seria (e será sempre, no futuro) condicionado pela comunicação social e pelos interesses dos patrões que a determinam, ao mesmo tempo que determinam os discursos dos partidos do chamado "arco da governação". Mas as pessoas não são estúpidas e haveriam de manifestar a sua posição. Essa poderia ser expressa através da abstenção ou do voto contra as políticas de austeridade, ou por ambos, como aconteceu.
A abstenção atingiu níveis nunca antes vistos, o que, a meu ver, significa que muita gente entendeu que não valeria a pena votar nos partidos da oposição para manifestar o seu descontentamento.
Descontentamento ineludível: o PSD/PP nem sequer foi capaz de beneficiar do voto "interessado" dos que babujam à volta das migalhas do poder. Não sei como podem dizer que a situação "ficou em aberto". Com vergonha, a única coisa aberta que se lhes apresenta é a porta da rua.
O PS foi incapaz de assumir uma proposta política alternativa, assente nos valores da igualdade, da justiça social, da liberdade e do progresso. Ficou-se por generalidades sobre a alternativa austeridade/crescimento, com muito cuidado para não se colar a fosse o que fosse que o governo de Sócrates tivesse feito, e deixando sempre aberta a porta a uma possibilidade de ir para para o governo com um dos partidos do atual bloco de direita. Por isso não descolou nas eleições, nem foi capaz de exprimir os interesses dos descontentes, que são quase todos os cidadãos de classes médias e populares e, arrisco a dizer, até de certos setores da burguesia descomprometidos com a voragem do sistema bancário (está claro que haverá sempre uma reserva de fieis e um setor de lumpen-eleitores dispostos a votar no mais miserável e despótico dos poderes).
Ao PCP a fé inamovível dos militantes, num quadro de redução do número de eleitores, traduziu-se num resultado positivo. Mas trata-se de um resultado sem saída, sem alternativa política de governação, construído na mera defesa de fronteiras, razão pela qual elegeu o PS como inimigo principal, o que de resto não é novidade.
O Bloco inchou, no passado, como um sapo a quem puseram uma ganza na boca. Os mais ingénuos dos betinhos (que giros, os "meninos rebeldes" da mamã e do papá) alimentaram esperanças nos "amanhãs que cantam", mas a realidade da política pôs a nu a sua inutilidade ao persistir numa posição de recusa de qualquer compromisso para a governação. Tem vindo aos trambolhões e vai parar ao lugar de onde nunca deveria ter saído, atrás do PCTP/MRPP.
Ganharam, em Portugal (na Europa há casos bem mais sérios, que serão os que terão de merecer a nossa maior atenção), os pequenos partidos de esquerda e o, até agora, popular "anti-políticos" (não confundir com populista) Marinho e Pinto. Aspira a, no futuro, ser um partido necesario para a constituição de maiorias.
Os principais partidos não quiseram ler os resultados. Os do governo insistindo na ideia de que a derrota é inconclusiva e recuparável na "segunda volta", a decisiva. O PS batendo na tecla, como se o repetir da frase a tornasse verdadeira, de que a única conclusão a retirar é a de que ganhou. O PCP insitindo na missa do costume e o BE com a desorientação a que nos vem habituando, e a que apenas a atitude bem mais pragmática e razoável do "livre" pode por termo. O nó teria de se desatar.
É, assim, sem surpresa que vejo avançar António Costa para a disputa da liderança no PS. Como se numa sala irrespirável pelo bafio se abrisse uma janela. Como se uma nova brisa viesse refrescar o ambiente. Espero que não desiluda as expectativas. E que o PS pense mais nos interesses do país do que no dos tachistas que já contavam lugares no aparelho de um poder sustentado numa coligação com a direita. Finalmente, a coisa tornou-se interessante deveras.
publicado por cafe-vila-franca às 00:08

No Café Vila Franca, como nos cafés da trilogia de Álvaro Guerra, os personagens descrevem, interpretam e debatem a pequena história quotidiana da sua terra e, com visão própria, o curso da grande história de todo o mundo.
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