Novembro 12 2020

Publiquei ontem, dia de São Martinho, uma carta redigida por Garcia Pereira em que ele, com dados e nomes concretos e não com base em insinuações vagas, desmascara o Chega e se pronuncia sobre alguns dos seus dirigentes. Os comentários em relação ao texto foram de três tipos. O primeiro visa descredibilizar Garcia Pereira, atacando o seu passado. Como não tenho nenhuma particular razão para o defender, direi apenas que acho curioso que quem fez esse tipo de comentários nunca tenha desmentido substantivamente os seus argumentos. Assim, acabam por lhe dar razão quanto aos factos, o que interessa.

Interessa? Sim, a alguns. Para outros, na lógica trumpista, a realidade é o que lhes convier e, perante evidências, limitam-se a vociferar elogios a André Ventura, seja ele e os seus amigos quem forem, e façam o que fizerem. São comentários simplesmente estúpidos.

O terceiro é o que mais me interessa: o daqueles que, por um lado, timidamente se demarcam do Chega, mas, por outro lado, só falam da geringonça e dos extremistas de esquerda, que equiparam aos de direita, proclamando o direito de ambos à existência e a ocupar o poder. É neste argumento, utilizado principalmente por pessoas ligadas ao PSD (não sei se também alguém ao CDS), que me quero centrar.

Os que o utilizam parecem estar a aplacar a consciência e a justificar o injustificável: que a direita civilizada (ainda há tão pouco tempo David Justino tinha falado da coragem que é hoje necessária para se ser moderado) tenha estendido a mão à direita xenófoba e trauliteira, para chegar ao poder nos Açores. Vamos falar direito!

Em primeiro lugar, este argumento, tal como o primeiro, peca na lógica, pois foge a pronunciar-se sobre os factos denunciados e desvia a atenção para outro plano, o da legitimidade da aliança entre o PSD, o CDS, o PPM, a Iniciativa Liberal e o Chega nos Açores. Portanto, aceita como válidas as denúncias, mas não o diz.

Em segundo lugar, peca pela moral da história. Se eventualmente o PS tivesse cometido um erro por se aliar ao PCP, ao BE e aos verdes, e agora (isso sim, é muito mau) ao PAN, isso nunca justificaria que se cometesse um erro idêntico do outro lado do espectro político. Sendo assim, presumo que os que usaram esse argumento acham bem a aliança com o Chega. Mas estão enganados (ou, se não estão, pior).

Em terceiro lugar, e mais importante, peca na substância. O Chega e o PAN não são o PCP, nem sequer o BE, partido do qual ainda recentemente fui vítima de perseguição, ao melhor estilo ditatorial. Mas isso não me tolda a visão nem alimenta o ódio. Na verdade, o PCP e o BE (principalmente este) têm no seu Programa disposições inaceitáveis para quem ama a liberdade e a democracia. Mas o Chega (falemos agora do que está em causa neste post), não tendo coisas dessas no Programa, baseia a sua prática em propostas atentatórias não apenas da liberdade e da democracia, mas também da própria dignidade humana. O PCP e o BE têm nas suas raízes históricas ideologias que deram origem a grandes atrocidades e crimes contra a Humanidade, mas eles próprios adotaram outro caminho, ao passo que o Chega parece propor o regresso às ignomínias que inspiram a sua ideologia. O PCP e o BE aceitam participar no sistema democrático que constitui a base de um consenso muito alargado nas nossas sociedades e um valor sólido das nossas culturas, enquanto o Chega se propõe destruir esse sistema e essas culturas (nisso é alma gémea do PAN, e o PS é tão culpado como o PSD e o CDS). Não são, pois, partidos comparáveis. O PCP e o BE não serão os paladinos da democracia liberal, mas aceitam-na e convivem com elas há décadas. O Chega não.

O PCP e o BE não constituem uma ameaça para as democracias ocidentais. Pelo contrário, equilibram o poder do capital e das megaempresas a favor do trabalho (na realidade, na minha apreciação, quem o faz é o PCP, dedicando-se os “betinhos de esquerda” do BE a “causas fraturantes”, algumas delas justas, mas outras, em particular o animalismo, de valor mais do que duvidoso). O populismo xenófobo que caracteriza o Chega e os congéneres no mundo moderno, sim, oferecem um perigo real e próximo. Qualquer cedência constitui um perigo real (e não mitológico, como acontece com os parceiros da geringonça). Qualquer descuido pode ser a morte da liberdade e da democracia.

Estes partidos nunca dizem ao que verdadeiramente vêm. Aparecem a cavalgar descontentamentos justos, e a promover outros não tanto, para alcançar o poder e daí desferir o seu golpe. Lembram-se da canção do Sérgio Godinho? Vêm com “pezinhos de lã”, que precedem as “botas cardadas”!

Sendo assim, é legítimo perguntar ao PSD e ao CDS se vale tudo, incluindo trazer o “alien” para dentro de casa, passo importante para ele cumprir o desígnio de se livrar deles, que são para o Chega meros “compagñons de route”, e alcançar o poder totalitário.

O Chega tem mesmo aliados! E isso é muito perigoso.

publicado por cafe-vila-franca às 23:27

Agosto 30 2020

Recentemente publiquei um conjunto de ideias, sem qualquer pretensiosismo e ao correr da pena, sobre o oportunismo. Prometi que voltaria para falar da permeabilidade das instituições aos oportunistas, colocando uma questão: são todas elas igualmente penetradas pelos oportunistas, ou algumas são as suas favoritas, aquelas em que realmente se sentem em casa?

Na verdade, os oportunistas movimentam-se sobretudo em ambientes eu reúnam duas condições. A primeira é a relevância na definição de regras e na distribuição de recursos de tipos muito diferentes: económicos, sociais ou culturais. A segunda é a prevalência de culturas institucionais mais orientadas para a conservação do que para a inovação. Em particular atraem-nos as organizações burocráticas em que a rotina prevalece sobre a mudança e que possuem o poder de definir regras sobre como aceder a recursos. Sendo certo que as instituições muitas vezes começam como respostas inovadoras a problemas emergentes, com o tempo acabam regularmente por se arrastar na reprodução de procedimentos meramente administrativos. Mesmo quando os problemas que as originaram deixam de existir, os oportunistas aparecem nesta última fase, quando a ação predominante visa a gestão do “stock” de recursos e não a sua criação ou crescimento acelerado.

Em resumo, os oportunistas não estão nunca envolvidos nos processos de inovação, nem dos produtos nem dos processos, nem do lado dos criativos, ou sequer entre as forças de progresso de uma sociedade (independentemente do quadrante político em que se situem). Quando uma instituição não inova, mas copia e repete, é seguro que foi já tomada por uma burocracia de oportunistas.

Em ambientes institucionais pouco dinâmicos, mas que geram poucos recursos, é raro encontrá-los. Por exemplo, é muito incomum que se desgastem no associativismo popular, no qual é indispensável muita perseverança e paciência (qualidades de que os oportunistas estão sobrados), mas onde não são muitas as recompensas, para além da satisfação pelo serviço público prestado, valor completamente desinteressante para os oportunistas. O máximo que podem obter nas associações populares é protagonismo, que pode servir de trampolim para outros lugares (por exemplo, nas autarquias). Porém, nas associações, se lá estiverem, ficam por pouco tempo.

Os oportunistas dão-se bem em empresas instaladas numa posição dominante e pouco ameaçada no mercado. Nessas empresas não procuram os departamentos de pesquisa, inovação e marketing, mas as estruturas de organização da produção ou controlo financeiro. Chegam a lugares de relevo na hierarquia à custa da “graxa”, destacando-se como bufos, até que conseguem alcançar posições que lhes permitem bufar dos próprios chefes que engraxaram para ocupar os seus lugares. Esses chefes julgam que os têm na mão, mas enganam-se e quando reparam que foram vítimas do veneno que estimularam, estão acabados.

Já em empresas muito expostas à concorrência e em que não basta imitar e seguir as tendências do mercado, mas em que é preciso competir, inovar, criar, dão-se mal. Não têm nem a imaginação, nem a capacidade de aprender, nem a coragem de se expor ao erro, desbravando caminhos nunca antes percorridos. Porém, se uma empresa percorre esses caminhos, estarão na disposição de se sujeitar a carregar as bagagens na expectativa de que ela se instale numa zona de conforto, ponto em que conspirarão com outros oportunistas para excluir os pioneiros e ocupar os lugares de topo na organização.

Mas as empresas, embora gerem e distribuam muitos recursos, têm pouca capacidade de definir ou impor regras, embora sejam boas a influenciá-las. Nisso os oportunistas são especialistas, dada a particular inclinação para se insinuar e seduzir.

É assim que encontram nas organizações do Estado, aos diversos níveis, e nos Partidos Políticos, a “sua casa”. Em contextos não democráticos servem o ditador. Rodeiam-no, até. Os ditadores não gostam em geral de quem não se contente com o status quo, se inquiete ou interrogue demais. Por isso se rodeiam de oportunistas que são bons na aceitação acrítica das ordens e na sua execução sem rebuços, sejam elas quais forem, se essa for a forma para se manterem na crista da onda.

Quando se dão reviravoltas, com passagem de um ditador para outro ou da ditadura para a democracia, rapidamente se reconvertem, oferecendo os seus serviços ao novo regime com o mesmo cinzentismo com que serviram o anterior. Nas primeiras vagas protegem-se, escondem-se, deixam passar a bernarda tentando passar despercebidos, para depois, mais ou menos lentamente, deitarem a cabeça de fora e irem emaranhando pelas escadas do poder acima.

Escondidos nos momentos de turbulência, evitando polémicas que chamem a atenção sobre si antes de se encontrarem bem estribados, mesmo em regimes democráticos, prosperam. Sabem como ganhar eleições, enganando os incautos, que são a maioria. Seduzir é importante e os oportunistas sabem como fazê-lo (atenção, nem todos os sedutores são oportunistas). A capacidade de sedução é essencial para ganhar eleições. Para seduzir seguem a tática de Cortez, o conquistador espanhol que no século XVI destruiu o império Asteca somando os ódios dos povos subjugados aos astecas, os quais julgaram poder vingar-se aliando-se ao ocupante na crença de que ele os libertasse, como prometido. Entretanto, tornar-se-iam tão vítimas como os dirigentes astecas, que quando perceberam o logro em que tinham sido envolvidos, era tarde demais. Todos foram dizimados e uma nova ordem se instaurou. Também os incautos acreditam nas promessas dos oportunistas. E também na sua retórica contra as pessoas sérias e criativas: dizem que os sérios e criativos representam o perigo da desordem e do caos (eles são quase sempre pessoas inquietas), ao contrário deles próprios, que asseguram estabilidade. As pessoas geralmente têm medo de uma aventura fenomenal e excitante mas com fim incerto, agarrando-se a quem lhes promete segurança. Assim, os incautos, procurando a segurança, entregam-se nos braços oportunistas que tecerão a teia que os apanha desamparados como moscas desprevenidas.

(Aqui faço uma nota para lembrar que os regimes democráticos, como dizia Churchill, são os piores, à exceção de todos os outros, proporcionando aliás a única possibilidade de as pessoas sérias, em momentos de crise, ascenderem ao poder e encontrarem soluções para o bem coletivo, objetivo que nunca pode mobilizar os oportunistas, totalmente focados nas vantagens pessoais Não se faça qualquer leitura populista (oportunista) do que disse acima. A política não é má por definição nem os políticos são todos oportunistas. Pelo contrário, sem políticos sérios e criativos ainda hoje a humanidade habitaria as cavernas)

Assim ganham eleições e ocupam os aparelhos das instituições políticas como os partidos, os governos centrais e locais e os departamentos da administração pública. Nesses lugares distribuem os recursos entre si, dispensando apenas uma parte para alimentar a arraia miúda e mantê-la submissa – e até dependente de quem lhes dá a escola – e estabelecendo as regras que asseguram que o poder sempre lhes ficará nas mãos, pelo menos até que se esgote a fonte. Nesse caso, virão novamente pessoas sérias e criativas apontar alternativas e conduzir processos de mudança dessas instituições, o que farão até que se estabeleça um novo ponto de estabilidade e os oportunistas regressem aos aparelhos.

Assim, as instituições políticas oscilam entre breves períodos de abertura e inovação que se sucedem a crises, nos quais os oportunistas se eclipsam, e períodos mais longos de rotinas burocráticas, onde alcançam grande esplendor.

Passámos, portanto, sobre instituições pouco amigáveis dos oportunistas e por outras que oscilam entre períodos de turbulência e criatividade que os afastam, e longos períodos de estabilidade que são as suas preferidas, pois que nelas prosperam. Mas há outras que comportam em simultâneo as pessoas sérias e criativas e oportunistas. Mais precisamente, a convivência é a situação mais comum, com segregação de funções entre pessoas sérias e criativas e oportunistas. Por exemplo, nos partidos os oportunistas não estão nunca a escrever os programas ou a estudar o modo de fazer avançar o bem comum, tarefa para pessoas comprometidas com o coletivo. Estão a organizar listas de candidatos e a selecionar os que há que excluir (por exemplo, todos os que os topam) e distribuir lugares. Mas enquanto no primeiro tipo de organizações os oportunistas estão em escassa minoria nos cargos de direção, e no segundo estão geralmente em larga maioria, no terceiro tipo a divisão é estrutural. É o caso, entre outros, das Universidades.

As Universidades são as principais responsáveis pela produção da ciência e pela abertura de horizontes. Mas são antigas e conservadoras. Assim, comportam processos abertos de produção e comunicação científica, em contextos muito competitivos e exigentes. Na liderança dessas atividades estão professores e investigadores sérios e criativos. Esses estão na vanguarda do conhecimento e da inovação. Mas também comportam estruturas organizativas pesadas, em que prevalece o tráfico de influências e o paternalismo. Assim, professores e “investigadores” preguiçosos tendem a iludir as regras da transparência e a ocupar os cargos de direção em função dos favores prestados à cadeia de comando. Estes parasitam os primeiros, que mantêm o prestígio das instituições, de que os segundos muito bem sabem beneficiar.

Há ainda um outro ponto importante: a permuta de oportunistas entre instituições. Já falámos dos dirigentes associativos que procuram dar nas vistas fitando uma posição de poder político, nomeadamente no plano local. Outro fluxo relevante é o que se estabelece entre as Universidades e as instituições políticas, nomeadamente em duas situações: quando académicos sérios e criativos são chamados a ajudar a resolver diretamente (e não como é comum, através da produção de conhecimento) situações de crise, e quando dirigentes políticos oportunistas chamam académicos oportunistas para os partidos e para o aparelho de Estado, visando com isso ganhar credibilidade.

O fluxo mais importante, porém, é o que se estabelece entre as empresas e os sistemas políticos. Esse fluxo tem dois sentidos. Por um lado, as empresas nomeiam pessoal de confiança para influenciar (e decidir critérios de financiamento) o poder político ou mesmo para se transformarem em agentes políticos. Por outro lado, os agentes políticos oportunistas fazem de bom grado o seu percurso na política com a expectativa de vir a ser cooptados por empresas que lhes pagam muito acima dos seus reais méritos. Este é o fluxo mais perigoso e aquele a que temos de estar mais atentos, seja qual for o sentido, por ser o que mais negativamente pode afetar a democracia, a liberdade e a igualdade.

publicado por cafe-vila-franca às 10:11

Agosto 12 2020

O oportunismo é o atributo principal dos oportunistas. Falemos, pois, destes, ficando-se assim a perceber o que é o primeiro, ou melhor, como se concretiza.

Os oportunistas são pessoas que se caracterizam pela superior capacidade de escolher as oportunidades que a vida e o acaso lhes oferece para alcançar o sucesso pessoal que almejam.  O sucesso pessoal é avaliado em função de critérios egoístas, não interessando o bem comum ou a solidariedade, mas apenas as recompensas pessoais. O investimento na concretização do sucesso é aceite por ser proporcionalmente muito inferior às recompensas. Os oportunistas não se guiam por princípios, ideologias ou valores duráveis, os quais são mesmo considerados incómodos empecilhos que só atrapalham as suas ambições. Guiam-se sempre pelo cálculo pragmático das vantagens que podem obter em cada situação.

Os oportunistas são tipos espertos (em português politicamente correto escreve-se “Os/As oportunistas são tipos/as…) que colonizam instituições como partidos políticos, instituições do Estado (aos níveis local, regional e central), Universidades, empresas, sindicatos e outras que lhes ofereçam boas plataformas de prosperidade. O topo dessas instituições e a respetiva corte tende a ser ocupado por oportunistas, que afastam sem piedade as pessoas criativas e inteligentes que, ingenuamente, as transportam ao ponto de onde podem desferir os seus mortíferos golpes. O “triunfo dos porcos” de George Orwell ilustra bem a sua estratégia.

Como conseguem os oportunistas prevalecer sobre pessoas mais inteligentes, mais qualificadas e mais criativas? Usando sem escrúpulos e em doses adequadas a perseverança, a paciência, a intriga, a mentira e a corrupção.

O tempo ideal para os oportunistas não é o tempo de crise, em que há que escolher soluções adequadas em contextos turbulentos e em que aqueles que lideram a mudança ficam expostos ao escrutínio público. Nunca dão a cara por uma ideia nova ou controversa. Preferem os períodos de continuidade para se infiltrarem nas organizações, atuarem no escuro dos corredores e esperando a oportunidade, que não perdem, de estar no momento preciso no lugar certo, sem se desgastar com as convulsões geradas pelas grandes mudanças. Por isso conseguem colocar-se à frente de pessoas qualificadas, inteligentes e capazes.

Como modo típico de ação, começam por se colar aos que trazem ideias novas, imaginam futuros alternativos, relacionam saberes para encontrar novas soluções para velhos e novos problemas. Estes estão tão ocupados em fazê-lo que se esquecem da presença dos cinzentos e obscuros oportunistas. Os oportunistas ficam ressentidos, mas aceitam pacientemente o papel subalterno. São tenazes e persistentes, suportando até sem protestos qualquer infâmia. Os oportunistas estão sempre prontos para ajudar nas tarefas menores, de forma diligente, sem levantar suspeitas sobre as suas verdadeiras intenções enquanto penetram nos meandros do poder, ao ponto de se tornarem indispensáveis nas organizações, ocupando-se do trabalho que outros mais brilhantes recusam. Guardam, porém, o rancor, ocultam-no e escondem-se com competências camaleónicas. São medíocres, mas também cruéis e no futuro, enquanto esganam aqueles que parasitaram, perguntam-lhes ao ouvido se se lembram das canseiras por que passaram e dos trabalhos sujos que fizeram.

Uma vez ganha a confiança ou o beneplácito dos empreendedores dedicam-se à conspiração uns com os outros, porque se reconhecem coma mesma facilidade com que ocultam as intenções de terceiros enquanto não alcançam o poder. Isto acontece principalmente quando as instituições esquecem os ideais que presidiram à sua criação e se viram para a sua própria sobrevivência. Os oportunistas, em conjunto, desenvolvem então toda a espécie de intrigas de forma a convencer os cidadãos comuns de que os seus interesses de sobrevivência são os interesses de toda a organização, que eles serviram humildemente tanto tempo.

Quando um alcança o poder, rodeia-se dos seus semelhantes, néscios e incapazes que não lhe possam disputar o poder e se limitem a esperar pela sucessão que o controlo dos aparelhos lhes garante. Em vez de promoverem o que de melhor existe na instituição (ou no país) escrutinam e perseguem as pessoas com luz própria, para a apagar.

Intrigam ainda mais e preparam a sua vingança. O rancor gera a energia de que carecem para resistir e ambicionar o poder absoluto. Constroem sofisticadas redes de compadrio, cumplicidade e corrupção que amarram cada vez mais pessoas à sua estratégia.

Uma vez no topo, mantêm os ressentimentos mesquinhos, não sendo nunca capazes de transmitir qualquer visão interessante à instituição, que se enrola em rotinas autojustificativas, servindo de base para a apropriação ilícita e amoral dos recursos. Comportam-se como déspotas, perseguem as pessoas inteligentes, criam problemas artificiais apenas para manter o controlo da situação.

A vingança em relação às pessoas criativas e inteligentes, sobre as quais lançam o opróbrio e a ignomínia, inventando mentiras que farão com que pareçam verdades, fica consumada quando estas passam a ser vistas como perigosas para a estabilidade institucional, que os oportunistas asseguram (a estabilidade sempre foi o terreno preferido dos medíocres).

Lambuzam-se alarves, rindo dos que, brilhantes, não souberam (repito, estavam demasiado ocupados a resolver problemas) tirar partido pessoal (a medida de todas as coisas para eles) dos movimentos e mudanças que produziram. De boas intenções está o inferno cheio, declaram, para desvalorizar os protestos das suas vítimas.

E conduzem as organizações à lastimosa situação de chafurdar na lama que eles próprios asseguram ser abundante. Tão abundante que impeça a maioria das pessoas de ver uma saída. E assim se conservam no poder.

Haverá instituições com maior concentração do que outras? Esta é uma questão que por agora deixaremos sem resposta.

Luís Capucha

publicado por cafe-vila-franca às 16:46

Fevereiro 23 2020

O caso João Moura, um pouco mais a fundo

Luís Capucha

O mundo taurino e os seus inimigos têm andado em sobressalto e grande agitação porque João Moura, cavaleiro tauromáquico, está indiciado por crimes de mau trato animal. Foram divulgadas imagens capazes de destroçar qualquer coração sensível, produzidas pela GNR, sobre o estado em que se encontravam 18 cães galgos de que era proprietário. Não me espanta se mais imagens aparecerem de outros animais, eventualmente até cavalos, em estado idêntico, aumentando assim o vozerio.

Estes acontecimentos e as imagens que os ilustram têm sido amplamente comentados, na comunicação social e nas redes sociais. Emergem três argumentos genéricos. Um é amplamente partilhado e condena a prática de maus tratos animais, e em geral resulta na manifestação de vontade de uma condenação severa. Outro, vindo do lado dos aficionados à festa de toiros, separa a condenação do cidadão João Moura da sua condição de cavaleiro tauromáquico, afirmando que uma coisa (o mau trato animal) não tem nada a ver com a outra (a tauromaquia). Este argumento faz-se acompanhar com frequência de uma condenação reforçada por ser João Moura alguém que deveria dar o exemplo. O terceiro vem das associações animalistas, e tendem a generalizar o comportamento individual como se ele decorresse da própria natureza da tauromaquia.

Pessoalmente junto-me a todos os que condenam os maus tratos animais e, nesse sentido, não posso deixar de lastimar o que os meus olhos viram. Mas não me fico por aí. Interrogo-me sobre as circunstâncias em que estas coisas acontecem. João Moura – de cujo estilo artístico nunca fui adepto – é uma figura mundial do toureio. Revolucionou a arte de tourear a cavalo e fez história. Como artista foi daqueles a quem “entregaram as chaves do Banco de Espanha”, tal foi o seu sucesso artístico e consequente remuneração “astronómica” que conquistou, pelo seu mérito. Como chegou à situação de não conseguir assegurar um bom tratamento dos cães, ele que é também conhecido pelo gosto das corridas de galgos e do sistema de apostas que as rodeiam? Aparentemente, aconteceu-lhe o mesmo que a tantos artistas e desportistas que ganham fortunas e acabam na penúria. Fácil é condenar-lhes o suposto caráter fraco e a moral decadente. Mas o que é justo é tentar compreender os mecanismos que levam a situações como esta, em que os “astros” do passado se tornam incapazes de lidar com os diversos efeitos da sua própria glória. Mais do que culpados, são vítimas e merecem, mais do que de condenações, de ajuda e solidariedade (não confundir com perdão pelos crimes eventualmente cometidos). De resto, a própria Justiça tende a atender circunstâncias deste tipo quando julga os casos que lhe compete jugar, e faço votos de que assim seja neste caso. Fazer justiça não é só olhar aos factos objetivos, mas também às circunstâncias em que ocorrem.

Chagamos então à questão da Justiça. Concordo também com os que dizem que se deve deixar a Justiça fazer o seu trabalho. Mas, se assim é, porque é que de repente tanta gente se sente na obrigação de vir julgar o cidadão João Moura na praça pública? Na verdade, encontro muitos paralelismos entre este tipo de comportamento por parte de muitos aficionados e fenómenos coletivos que seguem os padrões do exorcismo e da queima das bruxas. Atuam como se se sentissem traídos por um dos seus ídolos, chegando cada um uma acha à fogueira que os queima quando estão na mó de baixo. Como se transportassem consigo um sentimento de culpa cuja expiação passa pela condenação do ídolo caído em desgraça, mesmo que ainda não declarado culpado pela justiça que afirmam dever atuar livremente. Por favor, assumam a vossa condição de aficionados sem complexos. Deixem funcionar a justiça e façam o que puderem para ajudar (insisto, para não gerar críticas fáceis, sem desculpar os seus atos) o cidadão.

Inaceitáveis são as tentativas de colagem de um ato praticado por um cidadão que por acaso é profissional do toureio, à tauromaquia no seu conjunto. Neste caso é também seguido um padrão de comportamento bem conhecido e particularmente perigoso. Qual é a diferença entre dizer que “um toureiro maltratou animais, logo todos os toureiros maltratam animais”, e dizer “um preto – ou um muçulmano – cometeu um crime, logo todos os pretos – ou muçulmanos – são potenciais criminosos”, ou “um cigano agrediu uma professora, logo todos os ciganos são agressores de professoras”? Estas generalizações abusivas são sobejamente conhecidas como estratégia usada pelo populismo para difundir ideais racistas e fascistas e ganhar adeptos por via do medo ao “outro”, aquele que de algum modo é diferente de um “nós” que se pretende construir e alargar. Qual a diferença entre esta estratégia e a que utilizam as organizações animalistas para atacar a tauromaquia e, mais do que isso, impor na sociedade a sua maneira de olhar o mundo e estimular a intolerância e o maniqueísmo? Nenhuma. Assim, a principal conclusão que retiro deste caso remete para a indistinção de fundo entre os objetivos e os métodos dos grupos neonazis e racistas e dos grupos animalistas.

Aliás, misturando e mistificando toda a realidade, estas associações querem matar dois coelhos de uma cajadada: atacar a tauromaquia e também promover a proibição das corridas de galgos, outra das suas reivindicações promocionais.

Duas notas ainda para concluir. Primeiro, confesso que não posso deixar de confessar o meu desconforto perante a proporção que esta situação ganhou. Todos os dias se cometem crimes e maus tratos contra pessoas que não geram a onda de indignação que este caso está a gerar. Reconheço como certo o princípio de que um crime não desculpa outro (outro argumento fácil que dispenso os críticos de esgrimir). Mas também recuso o relativismo, que aponta para que não se estabeleçam hierarquias na maneira como devemos olhar para diferentes crimes. As pessoas não são iguais aos animais, e os crimes contra pessoas não podem ser vistos no mesmo plano que se vêm os crimes contra os animais. Por isso, de resto, é que o quadro penal cria penas diferentes para uns e outros. Dizer o que digo é dizer que os direitos humanos são absolutos, ao contrário do que pretende o relativismo cultural que tende a atribuir o mesmo valor a todas as coisas, o que acaba sempre por se transformar na atribuição de um valor superior à causa particular em que se milita.

A segunda nota resulta de uma teimosa desconfiança, possivelmente falsa e conspirativa (como se sabe, não há bruxas), de que existe uma relação entre a dimensão mediáticas ganha por este caso e dois conjuntos de sondagens recentes. Refiro-me, por um lado, à sondagem publicada há um par de semanas que mostra uma adesão de massas à tauromaquia e, pelo contrário, o caráter ultra minoritário do anti taurinismo. Por outro lado, à queda acentuada do PS nas intenções de votos dos portugueses, que algo, mesmo que pouco, resultará da posição sectária da liderança do PS em relação aos toiros, demonstrada na subida do IVA nas touradas. Alguma coisa tinham de fazer os anti taurinos e o PS, mais as suas máquinas de propaganda, para se “vingar” da tauromaquia e inverter as tendências. O seu azar é que a cultura de um povo não se muda assim tão facilmente.

publicado por cafe-vila-franca às 13:08

Fevereiro 23 2020

Escrevi hoje no Público online as seguintes palavras, que quero deixar registadas com direitos de autoria, porque nunca vi enunciada esta ideia: “se postularmos que os homens e os outros animais – ainda que apenas os sencientes – são iguais nos seus direitos, não estaremos a defender a civilização. Antes pelo contrário, estaremos a promover a selvajaria. Os animais, mesmo os neurologicamente mais dotados, não podem controlar por si próprios e de sua livre vontade os instintos que comandam o seu comportamento. Ora, é precisamente de controlo dos instintos que se fala quando se fala de civilização. Não se podendo elevar os animais não humanos a esse nível que apenas a cultura e a razão permitem, só pode haver igualdade baixando os homens e as mulheres à sua condição animal pura e dura, isto é, a um estado de selvajaria absurdo, mas a que alguns nos querem conduzir”.

Gostaria de acrescentar agora que uso o termo civilização no sentido que Norbert Elias deu ao conceito de processo civilizacional.

Simplificando os meus argumentos, só há duas maneiras lógicas de conseguir a igualdade entre homens e animais: ou elevando a condição animal ao estatuto de humanidade, ou fazendo descer a humanidade ao estado senciente dos animais. O encontro a meio caminho não existe.

A primeira maneira de promover essa igualdade, elevar os animais à condição humana, só é possível na imaginação e no plano simbólico. Nas fábulas e em metáforas nas quais os animais são humanizados, como acontece, por exemplo, na chamada “cultura Disney”. O problema é que há pessoas que tomam a imaginação e o símbolo pela realidade. Por isso o dano da humanização dos animais não é menor do que a animalização humana: perdem-se as referências e as fronteiras, dilui-se o sentido humanista da vida e torna-se possível toda a barbárie.

A segunda maneira, como disse acima, leva à selvajaria e ao fim da civilização. Não é uma impossibilidade material. O homem chega por vezes a limites que o animalizam, fazendo recuar a civilização. O nosso quotidiano está cheio de exemplos desse fenómeno, de que a História fornece inúmeros exemplos, alguns dos quais, como o do Partido Nazi, convivem com a defesa da proteção dos animais. Em qualquer dos casos, o perigo do animalismo é evidente e o seu combate é um combate pela civilização.

publicado por cafe-vila-franca às 13:08

Novembro 06 2018

Escrevi hoje no Público online as seguintes palavras, que quero deixar registadas com direitos de autoria, porque nunca vi enunciada esta ideia: “se postularmos que os homens e os outros animais – ainda que apenas os sencientes – são iguais nos seus direitos, não estaremos a defender a civilização. Antes pelo contrário, estaremos a promover a selvajaria. Os animais, mesmo os neurologicamente mais dotados, não podem controlar por si próprios e de sua livre vontade os instintos que comandam o seu comportamento. Ora, é precisamente de controlo dos instintos que se fala quando se fala de civilização. Não se podendo elevar os animais não humanos a esse nível que apenas a cultura e a razão permitem, só pode haver igualdade baixando os homens e as mulheres à sua condição animal pura e dura, isto é, a um estado de selvajaria absurdo, mas a que alguns nos querem conduzir”.

Gostaria de acrescentar agora que uso o termo civilização no sentido que Norbert Elias deu ao conceito de processo civilizacional.

Simplificando os meus argumentos, só há duas maneiras lógicas de conseguir a igualdade entre homens e animais: ou elevando a condição animal ao estatuto de humanidade, ou fazendo descer a humanidade ao estado senciente dos animais. O encontro a meio caminho não existe.

A primeira maneira de promover essa igualdade, elevar os animais à condição humana, só é possível na imaginação e no plano simbólico. Nas fábulas e em metáforas nas quais os animais são humanizados, como acontece, por exemplo, na chamada “cultura Disney”. O problema é que há pessoas que tomam a imaginação e o símbolo pela realidade. Por isso o dano da humanização dos animais não é menor do que a animalização humana: perdem-se as referências e as fronteiras, dilui-se o sentido humanista da vida e torna-se possível toda a barbárie.

A segunda maneira, como disse acima, leva à selvajaria e ao fim da civilização. Não é uma impossibilidade material. O homem chega por vezes a limites que o animalizam, fazendo recuar a civilização. O nosso quotidiano está cheio de exemplos desse fenómeno, de que a História fornece inúmeros exemplos, alguns dos quais, como o do Partido Nazi, convivem com a defesa da proteção dos animais. Em qualquer dos casos, o perigo do animalismo é evidente e o seu combate é um combate pela civilização.

publicado por cafe-vila-franca às 23:51

Setembro 09 2018

A Sociologia não está de boa saúde em Portugal

Luís Capucha

Tenho manifestado ultimamente nalguns momentos, nomeadamente em Congressos da Associação Portuguesa de Sociologia, muita preocupação com o estado atual e o futuro da Sociologia em Portugal.

Um período alargado de adesão de uma boa parte dos sociólogos académicos à perspetiva relativista, paroquialista e amplamente demagógica que se desenvolveu a partir do epicentro coimbrão que segue cegamente o “guru” Boaventura, levou, por um lado, a profissão a afastar-se das estruturas associativas da sociologia (o relativismo cultural, o predomínio das questões da identidade e o paroquialismo enganadoramente “anti hegemónico” são inúteis para o exercício profissional dos sociólogos) e, por outro lado, a ciência a fugir aos grandes problemas da atualidade.

Essa perspetiva ajudou alguns dos mais destacados representantes dessa linha “científica” que recusa as regras básicas da ciência, a encontrar notoriedade na comunicação social. O afã de protagonismos e as pequenas vaidades deram-se bem com a “utilidade” que alguns órgãos de comunicação social ditos de referência viram nessa perspetiva que se diz crítica, como se crítica não fosse, por definição, toda a ciência sociológica, bastando-lhe para isso ser ciência. Dá-lhes jeito aquele “ar” de abertura para encobrir um crescente fechamento ideológico politicamente conservador que predomina claramente nesses órgãos. Mascara-se a realidade com maquilhagens de pluralidade, escolhendo-se cirurgicamente as filiações paradigmáticas que, de tão rebuscada e prudentemente “críticas”, se tornam absolutamente inócuas. Muitos jovens sociólogos ficam deslumbrados…

Mas o mal é mais profundo. Ele atinge as instituições responsáveis pela gestão da ciência e influenciam o modo como elas afetam a distribuição dos recursos. Vou dar como exemplo para sustentar o que digo, os resultados do último concurso para a atribuição de bolsas de doutoramento pela FCT na área da sociologia. Eis a lista, pela ordem decrescente da notação:

  1. Veganismo e autenticidade: práticas de consumo ético no contexto da modernidade tardia
  2. Gays conservadores: O ativismo homossexual nas redes da nova direita brasileira
  3. A convivência com a seca: desigualdades sociais e impactos das alterações climáticas no Alentejo
  4. Trajetos das crianças descendentes de imigrantes no ensino básico: O poder dos contextos escolares na produção do sucesso
  5. Transglobal Indie: a configuração das cenas de rock independente do Porto e de Fortaleza pelas ruas das cidades (1980-2020)
  6. Diversidade Regional da Fecundidade em Portugal: Transição para o Segundo Filho nas Áreas Metropolitanas
  7. Paternidades Trans*: os homens que engravidam no Brasil e em Portugal
  8. Dinâmicas afetivas e sexuais: a (des)construção do casal heterossexual intimo e igual
  9. O papel das redes sociotécnicas entre as universidades e o meio nas trajetórias profissionais dos académicos
  10. Ficar de Fora: Contextos, Processos, Disposições e Reflexividades dos adultos pouco escolarizados que não retomaram a educação formal
  11. A escola do futuro? Entre a Rutura e a Reforma: Autonomia e Processos Educativos em Portugal, numa perspetiva comparada.
  12. Desigualdades Sociais e Coesão Social Europeia
  13. Correr à noite na cidade: o fenómeno dos “night runners” em Coimbra.
  14. O fenómeno da praxe em contexto universitário portuense: discursos e práticas
  15. Policies for disability: comparing different models of care
  16. Ecofeminismo, sustentabilidades e o empoderamento das mulheres camponesas no Alentejo (Portugal) e na Bahia (Brasil)
  17. RBI - Rendimento Básico Incondicional, os impactos nas trajetórias de ativação e produção de bem-estar dos cidadãos

 

Aprendi a ser sociólogo tomando esta ciência como um compromisso entre a razão crítica da ciência e o dever ético da contribuição para o combate contra os grandes problemas sociais. A função da sociologia (já sei que só por usar esta expressão, alguns me vão acusar de positivista) é a de transformar os problemas sociais em problemas sociológicos, de modo a equacionar, com base na imaginação sociológica (sociológica quer aqui dizer respeitadora dos critérios fundamentais da ciência), visões alternativas de futuro.

Ora, o que a lista acima revela é que se perdeu, não totalmente, mas em boa parte, este compromisso entre o que fazem os sociólogos e os grande problemas sociais.

Bem sabemos, e nisso não pode haver cedências, que a agenda científica obedece a protocolos próprios e o que é cientificamente um objeto do maior interesse pode ser um fenómeno de escasso interesse social. O critério da pertinência obriga, neste caso, a manter algum equilíbrio entre aquilo que são iniciativas exploratórias em domínios de reduzido relevo público, e o dever ético da ciência procurar responder aos grandes temas dos nossos tempos.

Ora, o que eu encontro na lista dos projetos eleitos são oito (8) candidaturas de relevância social geral mais do que duvidosa (entre as quais as duas melhor classificadas), ou melhor, de relevo social particularista, e  oito (8) candidaturas sobre temas de grande relevo social (3 em educação e educação de adultos, uma em ambiente e género, outra sobre a fecundidade, uma sobre as desigualdades sociais e duas sobre políticas sociais - reabilitação de pessoas com deficiência e Rendimento Básico de Inserção). Uma décima sétima reparte-se entre os dois campos (trajetórias profissionais e académicos).

De fora ficam problemas como as relações de trabalho, o urbanismo, a paz, o Estado, entre muitos outros.

Em suma, esta lista revela um engajamento relevante da sociologia com agendas sociais e políticas específicas e particularistas, bem conotadas ideológica e partidariamente, e uma correspondente desresponsabilização em relação aos grandes problemas sociais das sociedades dos nossos tempos.

 

Embora tenha identificado uma perspetiva responsável pelo desvio, devo notar que ele não está já localizado. De facto, na lista dos projetos aprovados estão 4 do CIES, 3 do ICS, 3 do CES, 3 da FLUP, 1 da Universidade do Minho, 1 da Universidade de Aveiro, 1 conjunto do CIES e Dinâmia e outro baseada num conjunto alargado de Centros de Investigação. O problema é, pois, geral.

Também não julgo que o desvio se fique a dever à composição do Júri, onde no entanto não estão presentes de instituições como o ISCTE-IUL (onde reside o mais antigo e maior núcleo de investigadores em sociologia do país), nem da Universidade Nova, da Universidade da Beira Interior e da Universidade de Aveiro. A origem dos membros é suficientemente alargada para mostrar que não se trata de uma sobreposição entre a ideologia e uma ou um par de instituições.

 

Parece-me ser tempo da sociologia portuguesa, moderna e internacionalizada, regressar aos valores que a prestigiaram, recusando o acantonamento em nichos para onde a atraem as sereias que cantam bem (que giros que são certos temas, e como nos asseguram a exibição de uma identidade o mais crítica e à esquerda possível, de bem com as nossas consciências “independentes”, dir-me-ão) mas não alegram em nada um mundo cada vez mais cinzento e perigoso.

Vila Franca de Xira, 9 de setembro de 2018

 

publicado por cafe-vila-franca às 17:42

Março 07 2017

Desculpem este momento de humor. Não me levem a mal.

Quero propor um teste de cultura geral para quem queira falar sobre Vila Franca de Xira. É simples responder. Para resposta a cada uma das perguntas apresentam-se três soluções, mas só uma está certa. Se falhar alguma, tem de se informar. Se acertar em todas, também tem de se informar, porque estas são questões para iniciados. Vamos a isto (a brincar).

1. Entre que pretendentes ao trono português se travou a batalha conhecida como Vilafrancada?

a. D. Pedro e D. Miguel

b. D. Carlos e D. Tiófilo Braga

c. D. João e D. Manuel

 

2. Quem criou a primeira receita de sável frito com açorda de ovas?

a. O Zé Russo

b. A Maria de Lurdes Modesto

c. Os antepassados do Zé Russo

 

3. Qual a freguesia em que nasceu o escritor neo-realista, combatente anti-fascista e militante comunista Soeiro Pereira Gomes?

a. Alhandra

b. Vila Franca de Xira

c. Gestaçô

 

4. Em que altura do ano se realiza a secular Feira de Outubro em Vila Franca de Xira?

a. Em torno do primeiro Domingo de Outubro

b. Em qualquer altura de Outubro

c. Quando a Câmara Municipal disser

 

5. Qual é o Santo Padroeiro de Vila Franca de Xira

a. São Vicente

b. Santo António

c. São Sebastião

 

6. O torricado...

a. um petisco da Torreira

b. um petisco criado na Lezíria pelos campinos

c. um petisco da Torrinha

 

7. No Concelho de Vila Franca de Xira existem diversas fortificações que faziam parte das...

a. Linhas de Torres Vedras

b. Linhas da CP

c. Linhas da Torre de Moncorvo

 

8. Café Central é o título de um livro escrito por...

a. Alves Redol

b. Mia Couto

c. Álvaro Guerra

 

9. A que chamamos o "Pátio Galache"?

a. Ao Pátio de quadrilhas dos toureiros que vinham tourear a Vila Franca

b. Ao Pátio onde se guardavam as galochas

c. Ao Pátio onde as diligências que ligavam Lisboa ao Porto mudavam de cavalos

 

10. Em que ano foi inaugurada a Praça de Toiros Palha Blanco?

a. No ano de 1901

b. No ano em que se inventou a açorda de sável

c. No ano das aparições em Fátima, 1917

 

Concentre-se, tente a sua sorte e verifique se está em condições de falar sobre a cultura da nossa terra.

Boa sorte

publicado por cafe-vila-franca às 22:29

Agosto 15 2016

 

“Regime” político é uma expressão imprecisa e polissémica. Tal como “sistema” económico, conceito de fronteiras fluidas e de conotação múltipla, o que lhe permite de resto uma utilização recorrente. Como esta nota não constitui um ensaio científico, dispensar-me-ei de proceder a uma revisão concetual cuidada de ambas as expressões, e passarei de imediato a uma definição prática e cómoda da situação portuguesa: temos vivido num regime republicano, semi-presidencialista e democrático. Temos eleições livres e universais, separação de poderes (mesmo que alguns, como o judiciário, não funcionem), liberdade de expressão, de manifestação, de greve, de imprensa e de associação. Temos liberdade política – partidos – e social – relações industriais entre sindicatos e associações patronais autónomas. A economia política – o sistema – baseia-se na coexistência do estado social (inacabado, como por definição serão sempre os estados sociais), do mercado capitalista e da sociedade civil, como esferas principais da organização política, económica e social.

Embora com um atraso de dois séculos em relação a outros países que são hoje nossos pares – ainda que alguns deles incomparavelmente mais poderosos – chegámos, pois, a um regime e a um sistema típicos da modernidade ocidental.

Esses países modernizaram-se e tornaram-se simultaneamente mais justos no plano social e mais eficientes no plano económico num quadro de conflito e competição, que levou a dois catastróficos conflitos mundiais. Porém, saíram do segundo conflito com uma nova ambição de paz, cooperação e promoção da solidariedade social como base do crescimento económico. O modelo social Europeu, uma das melhores invenções da humanidade, só foi possível com base nessa cooperação, materializada na criação da CEE, depois UE.

Países como Portugal, chegados tardiamente à democracia e à liberdade, encontraram nesse espaço uma referência e um suporte para o seu próprio progresso. A modernização “inacabada” em Portugal foi assim, em boa parte, o produto do processo de convergência com os seus novos parceiros, que vinha acontecendo desde 1974 até 2011. Depois, a crise interrompeu o processo e a própria UE dá sinais de perigo de dissuloção, uma vez que foi incapaz de evoluir politicamente para uma organização útil para os cidadãos.

Nos trinta anos que levamos como "europeus" a reconversão setorial da economia e a recomposição de estruturas e processos sociais e políticos foram profundos e geraram legítimas expectativas entre os cidadãos. Por isso eles aceitaram uma mudança importante no regime consubstanciada na delegação de competências nacionais na União Europeia e nas suas instituições. Outros estados-membro procuravam eventualmente outros benefícios dessa União, mas para Portugal ela representava a segurança do regime democrático e a sustentação do progresso económico e social. Mas em qualquer dos casos consumou-se uma perda – embora relativa – do papel dos estados-nação singulares a favor de uma coligação de estados-nação. Embora de forma menos profunda, processos de associação semelhantes ocorreram noutras regiões do sistema mundo (no pacífico, no Mercosul, etc.).

A partir dos anos noventa do século passado muitas coisas mudaram de forma profunda. As mais importantes, no seu conjunto, formam o que chamamos hoje “globalização”. O impacto competitivo dessa nova realidade fez-se sentir fortemente na Europa, igualmente confrontada com processos socio-demográficos desafiantes das instituições nacionais e europeias, como o envelhecimento.

A “resposta” a estes problemas que se tornou dominante é conhecida pelo nome de neoliberalismo. No essencial, o neoliberalismo, tem vindo a impor uma agenda de recuo do papel do Estado e da solidariedade politicamente organizada a nível político, a favor da liberdade de ação dos agentes singulares entregues às suas próprias forças que, no caso das classes de menores recursos, são afinal fraquezas. O Estado social tem vindo a ceder à dualização das políticas sociais (acesso aos melhores recursos pelos mais ricos, mínimos para os mais pobres). Os mais poderosos, apoiadas em mudanças tecnológicas que facilitaram o processo, tiraram todas as vantagens.

Daí até aos nossos dias vieram assim a crescer as desigualdades sociais e a acumulação de capital atingiu níveis que provocaram enormes desequilíbrios sociais e económicos. Os mecanismos de mobilidade social enfraqueceram-se e as desigualdades aprofundaram-se, com benefício dos que já eram privilegiados havia muito, como bem mostrou Piketty.

Foram as desigualdades, diretamente relacionadas com o novo capitalismo especulativo do mundo financeiro globalizado, que geraram a crise de 2007/2008. Esta começou por ser financeira, mas rapidamente se revelou sistémica, revelando igualmente as dificuldades de governabilidade democrática – isto é, processada na esfera pública – do sistema global.

A crise tem, pois, várias facetas, todas elas dramáticas: o recuo da solidariedade e o avanço do egoísmo, não apenas nas relações entre as pessoas, mas também entre as classes sociais e os países; o crescimento da pobreza em zonas onde tinha recuado para níveis próximos da erradicação e a manutenção de situações de extrema precariedade de extensos segmentos da população que, em várias zonas do mundo, vivem abaixo de qualquer limiar imaginável de dignidade humana; a ameaça do aquecimento global e das catástrofes que se vão mostrando por causa dele, anunciando tragédias ainda maiores; o crescimento do ódio, da xenofobia, da intolerância e das suas consequências na violência – terrorista e de estado –, na perseguição/expulsão ou no fechamento de fronteiras a migrantes; o avanço de regimes ditatoriais quando se esperava uma crescente “mancha democrática” no mapa mundial; a persistente descriminação das mulheres, entre outros “grandes problemas” da humanidade e, naturalmente, também portugueses.

Se a estes fenómenos juntarmos os “pequenos riscos” que enxameiam a comunicação social e invadem o quotidiano das pessoas, bem se compreende o clima de medo e o sentimento de crise permanente em que nos estamos habituando a viver.

Do Estado se esperaria, de acordo com as suas funções explícitas em sociedades como a portuguesa, uma ação corretora destes problemas. A corrupção e a promiscuidade entre negócios e política, que estão longe de ser mera retórica populista, confirma a denúncia feita por muitos analistas, da captura do Estado por parte de interesses particulares. Aqueles que, como é costume, ganham com as crises. E o sentimento de “crise” omnipresente cresce. E já nem a Europa nos vale, pelo contrário parece apostada em oprimir-nos e humilhar-nos.

Ao ponto a que chegámos, quase podermos dizer que, mais do que uma ação política para superar a crise, aquilo que parece afirmar-se como realidade estável é a crise (palavra que entretanto se banalizou, facilitando o convívio com ela), nas suas diversas dimensões, como matéria de que se vai alimentando da própria ação do regime político. Com todos os perigos que isso acarreta. Nomeadamente o de que o totalitarismo das crises não se reflita em qualquer crise do regime político. Que segue feliz e contente, como se nada se passasse.

publicado por cafe-vila-franca às 22:16

Junho 05 2016

Dois acontecimentos recentes motivam este meu comentário. A reação de alguns lisboetas aos planos para a construção de uma Mesquita em Lisboa, e a tentativa do PAN, PEV, BE e 10 Deputados do PS iniciarem um processo de destruição da Festa de Toiros (como se não bastassem os que, de dentro, a vão minando com os seus comportamentos).

O que une os dois acontecimentos? A intolerância, o preconceito, o autoritarismo, a discriminação, a ignorância e a prepotência. As mesmas que levam ao abuso sobre as crianças, à violência doméstica, à exclusão social, à segregação de quem é diferente das maiorias em matéria cultural, de sexo e orientação sexual, de idade, de cor da pele, de nacionalidade ou de estatuto social. Matérias muito diferentes, mas com o mesmo denominador comum. Vejamos então estes dois casos.

Quanto à Mesquita. A Constituição da República Portuguesa consagra a independência do Estado em relação a qualquer Igreja ou Religião e o princípio da liberdade religiosa. Desde sempre em Lisboa coabitaram pessoas professando diferentes credos, todas elas praticando livremente os seus cultos. Há até uma Mouraria na nossa capital. As exceções a estas regras constituem momentos negros da época medieval, com a perseguição a certas comunidades religiosas, como os Judeus.

Por causa das organizações terroristas que se dizem islamitas e dos ataques que têm sido perpetrados de forma bárbara, em nome da Fé (não interessando agora olhar a história das religiões e das relações entre os povos que as professam, nem os conflitos que tantas vezes se desencadearam em nome de um deus, quase sempre com a religião a ser cavalgada por outros interesses bem mais prosaicos, onde se podem encontrar as causas do terrorismo) muitas pessoas têm passado a olhar de maneira discriminatória todos aqueles que acreditam no Profeta. Fazem-no de forma irracional, movidas pelo medo e pelo ódio, que cega e leva à rejeição dos muçulmanos como se fossem todos iguais.

Muitas dessas pessoas não conseguem ver, tal a cegueira xenófoba, que com isso só alimentam por um lado, os próprios terroristas que visam espalhar o ódio, e, por outro lado, aqueles que provocam e alimentam os conflitos no médio oriente porque isso convém aos seus negócios.

Impedir a liberdade religiosa dos muçulmanos de Lisboa é fazer o mesmo que fazem tantos países do mundo árabe em que o culto de religiões que não as do Islão é proibido e selvaticamente reprimido. Como aliás se reprime toda e qualquer liberdade de pensar. Não podemos ser iguais a eles. Porque não podemos ser aquilo que condenamos. E porque isso é estúpido: ataca-se uma esmagadora maioria de cidadãos dignos satisfazendo os objetivos de criação de instabilidade, tensão e conflito perseguidos por uma minoria de fanáticos assassinos.

Tem, por isso, toda a razão a Câmara de Lisboa no que respeita à construção da Mesquita, e estão totalmente erradas as pessoas que, acicatadas por políticos populistas de direita, se manifestam contra a liberdade religiosa. Estão a manifestar-se, ao fim e ao cabo, contra a sua própria liberdade.

Aparentemente da esquerda, mas felizmente apenas do PEV, do BE e de uma dezena de imbecis do PS (do PAN recuso-me a falar), têm vindo os ataques à tauromaquia. De forma cobarde, usando pretextos diversos como o combate ao trabalho infantil, a promoção da escolaridade, o bem  estar animal, a defesa psicológica das crianças e a prevenção da violência, esses partidos apresentaram na Assembleia da República uma série de propostas de Lei que visam, caminhando “step by step”, acabar com a Festa de Toiros em Portugal.

Querem acabar com uma cultura (é assim que a lei portuguesa considera a tauromaquia) por decreto, apenas porque não gostam. Não faz parte dos seus padrões valorativos. Nunca fizeram o mínimo esforço para a compreender. Assumem apenas uma atitude arrogante de quem se sente superior aos seus concidadãos (até aos seus militantes de terras aficionadas). Mais civilizados, mais pacifistas, mais “amigos dos animais”, mais sensíveis e mais cultos. Quando no fundo são apenas mais ignorantes, pois a arrogância é irmã da ignorância.

No fundo o que pretendem é coartar a liberdade cultural, a livre expressão da identidade cultural de uma parte significativa do nosso povo, numa lógica de dominação e fascismo cultural absolutamente inaceitáveis. Não são menos totalitaristas, autoritários e preconceituosos do que aqueles que se esganiçam contra os imigrantes e os refugiados, procurando fechar-lhes as portas e negar-lhes uma oportunidade de vida digna.

Podem aparentar tonalidades diferentes, mas a farinha é do mesmo saco. Perseguir minorias religiosas e proibir manifestações culturais profundamente enraizadas em vastas zonas – das mais urbanas e modernizadas, às mais rurais e deprimidas – não tem nada de diferente. A ambas as coisas se dá o nome de preconceito e intolerância, instrumentos com que se fabricam todos os totalitarismos.

publicado por cafe-vila-franca às 12:16

No Café Vila Franca, como nos cafés da trilogia de Álvaro Guerra, os personagens descrevem, interpretam e debatem a pequena história quotidiana da sua terra e, com visão própria, o curso da grande história de todo o mundo.
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