Dezembro 21 2020

Sei que agora é quase Natal e não há paciência para escritos chatos e compridos. Mas acontece que, de vez em quando, me vêm certas ideias à cabeça e, enquanto não as partilho, não descanso. Assim, para aqueles que possam arranjar um bocadinho de tempo e não se importem de ler escritos cuja leitura leve mais de 5 minutos, aqui vai o que penso sobre algumas formas como o poder é ocupado no nosso país, e não só.

Max Weber, uma referência incontornável nestas matérias, falou de três fontes de autoridade: a carismática, a tradicional e a legal/burocrática. As três fontes não são exclusivas. A autoridade legal/burocrática tornou-se largamente predominante no mundo moderno. Ela tem implícito o primado da racionalidade sobre as emoções e as tradições (razão, emoção e tradição combinam-se, claro está, em proporções diferenciadas em cada formação política concreta). Ora, a racionalidade implica que, no exercício da autoridade e do poder, se tomem decisões baseadas principalmente na relação entre os fins e os recursos a eles afetos. O problema que aqui coloco é o da legitimidade desses fins.

É certo que, nas democracias, a legitimidade resulta do voto popular, e que cada cidadão vota em função dos seus interesses e da apreciação que faz da possibilidade de cada candidato corresponder a esses interesses. É aí que entra a razão, embora saibamos que muitos desses cidadãos votam de forma tradicional, em quem sempre votaram, ou em função do carisma dos candidatos, no mais simpático. Além dessa intromissão de fatores não racionais no processo político racional, acresce um problema maior: a frequente ocultação dos verdadeiros fins que perseguem os candidatos à ocupação do poder do Estado. Não vou aqui tratar dos modos como se produz essa ocultação e como se ludibriam os tolos. Mas apenas salientar que a escolha racional implica acesso à informação verdadeira, capacidade para a processar e a distinguir da falsa, critérios que quase sempre estão longe de se verificar.

Assim, nas democracias representativas (depois trataremos da questão da participação democrática), regimes políticos baseados no primado da lei, na defesa das minorias e no respeito pela vontade das maiores expressa no voto, é possível que alcancem o poder pessoas e grupos que estão longe de ter como fim o bem comum.

A prossecução desse fim anima a maioria dos políticos (é a minha opinião), que se regem por princípio seculares e republicanos. Mas muitos outros têm fins inconfessáveis. Por exemplo, colocar em primeiro lugar o benefício próprio, da família, ou dos amigos, no acesso a empregos sem mérito, na concessão de honrarias, na abertura de oportunidades vedadas a outros, e ainda no recebimento indevido de dinheiro. Quem ocupa o poder desta forma marcada pela corrupção, pelo nepotismo e pelo compadrio acaba, no fim, por pôr em causa a própria democracia e o seu valor. Outros atuam com o objetivo único de conservar o poder, fazendo dele não um instrumento para a promoção de políticas públicas de qualidade, mas um fim em si mesmo. Estes geram o autoritarismo e secam a democracia, porque a sua ação é precisamente o seu contrário.

Facilmente concordaremos que os piores políticos acumulam essas duas formas de estar no poder: estão lá primeiro para o conservar, e depois usam-no em benefício próprio e dos compadres. Mas, como dizia Weber, todo o poder é consentido. Assim, na verdade, eles só ocupam o poder se os cidadãos os elegerem ou se, ingenuamente, se deixarem enganar e, em vez de escolher pessoas sérias e comprometidas com a causa pública para os substituir, votarem noutros ainda piores. E não é que isso acontece tantas vezes?

publicado por cafe-vila-franca às 00:14

Dezembro 19 2020

Obrigado emigrantes

Apenas uma pequena vogal separa o título da minha última publicação aqui no FB da que agora estão a ler. O “i” de imigrantes transformou-se em “e” de emigrantes. O que muda é apenas a forma, porque a coisa é a mesma. Quando falamos das pessoas de Angola, Cabo Verde, Guiné, China, Índia, Nepal, Brasil, Espanha, França, Itália ou Alemanha que residem em Portugal, falamos de imigrantes. Quando falamos dos portugueses que saem de Portugal para a África do Sul, Venezuela, EUA, Canadá, Angola, Brasil, França, Reino Unido ou Alemanha, falamos de emigrantes. As pessoas desses países dizem ao contrário, que são emigrantes os que de lá vêm para cá, e imigrantes os que vão de cá para lá. Tudo depende apenas do sítio de onde se olha. Assim, todas as pessoas que se movem de um país para outro para viver e/ou trabalhar são, simultaneamente, emigrantes e imigrantes.

Portugal foi desde sempre, e continua a ser, um país de emigração. A novidade é que agora somos também um país de imigração, porque passámos a oferecer condições de vida procuradas por pessoas de outros sítios. Não foi sempre assim. Sempre fomos, e continuamos a ir, para os quatro cantos do mundo à procura de melhor vida. E vamos porquê? Porque estamos insatisfeitos com as condições de vida que o nosso país nos oferece e temos a coragem de partir em busca de uma vida melhor. Tal e qual como fazem aqueles que de outros países nos procuram.

Particularmente intenso na nossa História recente foi o êxodo emigratório dos anos 50, 60 e início de 70. Face à miséria que grassava no nosso país, mais de dois milhões de portugueses foram para França, Alemanha, Inglaterra, EUA ou África, o que constituiu a maior manifestação de protesto dos portugueses contra a ditadura. Da minha família, ninguém emigrou, mas lembro-me bem dos amigos de rua que de um dia para o outro se despediam de todos nós, com imensa tristeza, porque os seus pais aqui trabalhavam sem sair da cepa torta, ao passo que, depois de uns anos a trabalhar duro no estrangeiro, regressavam em carro próprio, construíam a sua vivenda e falavam da vida diferente que tinham lá fora. Ah! Não esquecer: e enviavam remessas. Tal e qual como os nossos imigrantes.

A primeira vez que ouvi falar da importância das remessas dos emigrantes foi no Liceu Passos Manuel, quando estudava no que é hoje o 7º ou 8º ano de escolaridade. Foi um professor de geografia que, em tom de denúncia, explicou à turma que o dinheiro gasto na guerra era dinheiro que vinha dos nossos emigrantes, na forma de apoios aos familiares que ficavam (que o despendiam em consumo que estimulava a economia e cujos impostos alimentavam as finanças nacionais) ou de depósitos bancários. O regime metia os portugueses na miséria (e na guerra) e depois vivia à conta das suas remessas. Era assim.

Em pequeno admirava os emigrantes pela coragem que tinham de partir à aventura, à procura de uma vida boa, enfrentando a saudade e também a discriminação, o risco e por vezes a humilhação. Depois passei a admirá-los ainda mais pelo contributo que continuavam a dar ao seu país e às famílias que cá deixavam. Agora reconheço-lhes um outro grande contributo: o terem mostrado aos seus patrícios que para lá do país fechado e “orgulhosamente só” existiam sociedades mais justas e modernas. Isso foi determinante para alertar consciências e motivar a insatisfação que é mãe da mudança e do progresso.

Além disso, quando viajamos pelo mundo, encontramos sempre um português que nos procura para matar a saudade a falar da sua terra, e para nos apoiar com generosidade. Por tudo isso, obrigado emigrantes, vós que sois os imigrantes dos outros.

publicado por cafe-vila-franca às 12:02

Dezembro 19 2020

Desde março deste ano tenho podido, felizmente, manter a minha atividade profissional entre a casa e a universidade onde investigo e leciono. Quando lá vou, encontro-me com muito menos gente do que antes, mas há um grupo que continua a marcar presença diária: as senhoras da limpeza. São todas imigrantes de África e retribuem-me os simples bons dias e boas tardes nos corredores com sorrisos tímidos e com um cuidado impecável na limpeza do gabinete, dos corredores, dos equipamentos.

O ISCTE é, em tempos de pandemia, um dos lugares mais seguros que conheço. No ISCTE cheira a limpeza, os equipamentos que nos permitem manter comportamentos responsáveis estão disponíveis, a sinalética não nos permite esquecimentos quanto aos nossos deveres para nos protegermos a nós e aos outros. Mas na linha desta frente de combate ao vírus estão as senhoras da limpeza, que não podem ficar em casa, que vêm no comboio e que, expondo-se por nós, tornam o nosso espaço confortável e limpo.

Quando vou ao refeitório encontro-me com outras diligentes trabalhadoras imigradas, neste caso, do Brasil. Atendem com simpatia centenas de pessoas por dia, vigiando para que todas as regras sanitárias sejam mantidas por todos. É por isso que eu posso encontrar lá alimento. E quando as vejo, lembro-me das brasileiras a quem eu e a Fátima abrimos as portas de casa, como empregadas de limpeza doméstica. Pessoas da máxima confiança, competentes e diligentes. A elas devo a conservação da ordem na habitação em que me refugio para descansar e trabalhar.

De vez em quando lá tenho de fazer obras e, como não herdei do meu pai a habilidade para esses labores, contrato profissionais, aos quais também confio as chaves. Geralmente, são portugueses que conheço de longa data. Mas também já me socorri de ucranianos e já me espantei com a sua versatilidade e qualidade do trabalho, que impede que a chuva me entre em casa, permite que a água corra nas torneiras, e que os interruptores acendam e apaguem as luzes quando quero.

E, por falar da casa, como poderia eu esquecer o Sr. Arnold, um angolano que serviu o meu sogro em toda a obra que reabilitou o prédio antigo que se transformou na minha moradia atual. Moradia essa em que o meu grande e saudoso amigo José Manuel Teles “cigano” (que, entre outras coisas, me introduziu na magia de Sevilha e da sua Real Maestranza de Caballeria) colocou parquet, soalhos, tapetes e alcatifas.

Sem estas africanas e brasileiras, sem estes angolanos e ucranianos, e sem o José Manuel Teles, como teria sido a minha vida? Muito mais cinzenta e difícil. Bem pior, seguramente. Por isso, por me tornarem a vida mais fácil, segura, confortável e alegre, muito obrigado a todos.

publicado por cafe-vila-franca às 12:00

Dezembro 02 2020

Há mais de 40 anos dois lemas marcaram a minha vida, em diferentes períodos da juventude (nessa altura, aos 17 anos, era-se um jovem adulto). Um marcadamente ideológico, e outro com uma forte marca da fé. “Ousar lutar, ousar vencer” era um, e “a sorte protege os audazes”, o outro.

Um de cada vez, cada um dos dois representava não apenas um conjunto de valores, mas principalmente um quadro de pertença institucional que tomavam conta da vida toda.

Ao longo da vida fui atravessando situações em que me cruzei com muitos outros lemas e com muitos outros contextos sociais que os construíram. Fui dependendo cada vez menos desses dois lemas e multiplicando as pertenças institucionais. Os dois lemas perderam espaço, mas ficaram para sempre, embora quase sempre com outros sentidos, remetendo para outros objetivos, orientando outros passos. Tal como ficaram alguns dos que vieram depois. Mas nenhum passou a ser, digamos, totalitário, ou sequer dominante. Posso mesmo dizer que passei a desconfiar de quaisquer lemas de vida, se isso significar ficar amarrado e de olhos vedados.

A multiplicação das dependências torna-nos independentes. A independência e a autodeterminação não operam num vazio. Operam a partir das redes de relação, das pertenças, das experiências e das referências que incorporamos num padrão de personalidade próprio. Multiplicando-as, pode uma pessoa transformar-se, como diria Firmino da Costa, num depredador que, umas vezes mais conduzido pela razão, outras mais pelas emoções, e sempre com base em combinações das duas fontes de escolha, elege para cada fim em particular as peças específicas a pilhar no infinito tesouro da pluralidade cultural.

Porém, as escolhas não oferecem um número infinito de opções. Porque, como escreveu Bourdieu, elas são condicionadas por disposições duráveis que as orientam. São essas disposições que levam a que se escolha a ousadia em relação, por exemplo, à cobardia. Quem ousa vencer, pode vencer. A cobardia pode, combinada com a traição e a vileza, conferir vitórias efémeras, mas não mais do que isso, porque a derrota moral é o seu destino. A cobardia é a vergonha. A ousadia não é temeridade, é saber viver com os medos e, apesar deles, seguir em frente, fazendo o que tem de ser feito. A ousadia faz temer os inimigos, e isso aproxima-nos do sucesso, como se de uma sorte se tratasse. O sucesso não se afere só pelo trabalho, pelo dinheiro e pelo amor. Ser independente e audaz é, em si mesmo, sinónimo de ser bem-sucedido, sem mais recompensa. Pelo menos aos nossos próprios olhos. Significa que vencemos o medo e fizemos o que devíamos.

publicado por cafe-vila-franca às 00:06

No Café Vila Franca, como nos cafés da trilogia de Álvaro Guerra, os personagens descrevem, interpretam e debatem a pequena história quotidiana da sua terra e, com visão própria, o curso da grande história de todo o mundo.
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