Dezembro 19 2020

Obrigado emigrantes

Apenas uma pequena vogal separa o título da minha última publicação aqui no FB da que agora estão a ler. O “i” de imigrantes transformou-se em “e” de emigrantes. O que muda é apenas a forma, porque a coisa é a mesma. Quando falamos das pessoas de Angola, Cabo Verde, Guiné, China, Índia, Nepal, Brasil, Espanha, França, Itália ou Alemanha que residem em Portugal, falamos de imigrantes. Quando falamos dos portugueses que saem de Portugal para a África do Sul, Venezuela, EUA, Canadá, Angola, Brasil, França, Reino Unido ou Alemanha, falamos de emigrantes. As pessoas desses países dizem ao contrário, que são emigrantes os que de lá vêm para cá, e imigrantes os que vão de cá para lá. Tudo depende apenas do sítio de onde se olha. Assim, todas as pessoas que se movem de um país para outro para viver e/ou trabalhar são, simultaneamente, emigrantes e imigrantes.

Portugal foi desde sempre, e continua a ser, um país de emigração. A novidade é que agora somos também um país de imigração, porque passámos a oferecer condições de vida procuradas por pessoas de outros sítios. Não foi sempre assim. Sempre fomos, e continuamos a ir, para os quatro cantos do mundo à procura de melhor vida. E vamos porquê? Porque estamos insatisfeitos com as condições de vida que o nosso país nos oferece e temos a coragem de partir em busca de uma vida melhor. Tal e qual como fazem aqueles que de outros países nos procuram.

Particularmente intenso na nossa História recente foi o êxodo emigratório dos anos 50, 60 e início de 70. Face à miséria que grassava no nosso país, mais de dois milhões de portugueses foram para França, Alemanha, Inglaterra, EUA ou África, o que constituiu a maior manifestação de protesto dos portugueses contra a ditadura. Da minha família, ninguém emigrou, mas lembro-me bem dos amigos de rua que de um dia para o outro se despediam de todos nós, com imensa tristeza, porque os seus pais aqui trabalhavam sem sair da cepa torta, ao passo que, depois de uns anos a trabalhar duro no estrangeiro, regressavam em carro próprio, construíam a sua vivenda e falavam da vida diferente que tinham lá fora. Ah! Não esquecer: e enviavam remessas. Tal e qual como os nossos imigrantes.

A primeira vez que ouvi falar da importância das remessas dos emigrantes foi no Liceu Passos Manuel, quando estudava no que é hoje o 7º ou 8º ano de escolaridade. Foi um professor de geografia que, em tom de denúncia, explicou à turma que o dinheiro gasto na guerra era dinheiro que vinha dos nossos emigrantes, na forma de apoios aos familiares que ficavam (que o despendiam em consumo que estimulava a economia e cujos impostos alimentavam as finanças nacionais) ou de depósitos bancários. O regime metia os portugueses na miséria (e na guerra) e depois vivia à conta das suas remessas. Era assim.

Em pequeno admirava os emigrantes pela coragem que tinham de partir à aventura, à procura de uma vida boa, enfrentando a saudade e também a discriminação, o risco e por vezes a humilhação. Depois passei a admirá-los ainda mais pelo contributo que continuavam a dar ao seu país e às famílias que cá deixavam. Agora reconheço-lhes um outro grande contributo: o terem mostrado aos seus patrícios que para lá do país fechado e “orgulhosamente só” existiam sociedades mais justas e modernas. Isso foi determinante para alertar consciências e motivar a insatisfação que é mãe da mudança e do progresso.

Além disso, quando viajamos pelo mundo, encontramos sempre um português que nos procura para matar a saudade a falar da sua terra, e para nos apoiar com generosidade. Por tudo isso, obrigado emigrantes, vós que sois os imigrantes dos outros.

publicado por cafe-vila-franca às 12:02

Dezembro 19 2020

Desde março deste ano tenho podido, felizmente, manter a minha atividade profissional entre a casa e a universidade onde investigo e leciono. Quando lá vou, encontro-me com muito menos gente do que antes, mas há um grupo que continua a marcar presença diária: as senhoras da limpeza. São todas imigrantes de África e retribuem-me os simples bons dias e boas tardes nos corredores com sorrisos tímidos e com um cuidado impecável na limpeza do gabinete, dos corredores, dos equipamentos.

O ISCTE é, em tempos de pandemia, um dos lugares mais seguros que conheço. No ISCTE cheira a limpeza, os equipamentos que nos permitem manter comportamentos responsáveis estão disponíveis, a sinalética não nos permite esquecimentos quanto aos nossos deveres para nos protegermos a nós e aos outros. Mas na linha desta frente de combate ao vírus estão as senhoras da limpeza, que não podem ficar em casa, que vêm no comboio e que, expondo-se por nós, tornam o nosso espaço confortável e limpo.

Quando vou ao refeitório encontro-me com outras diligentes trabalhadoras imigradas, neste caso, do Brasil. Atendem com simpatia centenas de pessoas por dia, vigiando para que todas as regras sanitárias sejam mantidas por todos. É por isso que eu posso encontrar lá alimento. E quando as vejo, lembro-me das brasileiras a quem eu e a Fátima abrimos as portas de casa, como empregadas de limpeza doméstica. Pessoas da máxima confiança, competentes e diligentes. A elas devo a conservação da ordem na habitação em que me refugio para descansar e trabalhar.

De vez em quando lá tenho de fazer obras e, como não herdei do meu pai a habilidade para esses labores, contrato profissionais, aos quais também confio as chaves. Geralmente, são portugueses que conheço de longa data. Mas também já me socorri de ucranianos e já me espantei com a sua versatilidade e qualidade do trabalho, que impede que a chuva me entre em casa, permite que a água corra nas torneiras, e que os interruptores acendam e apaguem as luzes quando quero.

E, por falar da casa, como poderia eu esquecer o Sr. Arnold, um angolano que serviu o meu sogro em toda a obra que reabilitou o prédio antigo que se transformou na minha moradia atual. Moradia essa em que o meu grande e saudoso amigo José Manuel Teles “cigano” (que, entre outras coisas, me introduziu na magia de Sevilha e da sua Real Maestranza de Caballeria) colocou parquet, soalhos, tapetes e alcatifas.

Sem estas africanas e brasileiras, sem estes angolanos e ucranianos, e sem o José Manuel Teles, como teria sido a minha vida? Muito mais cinzenta e difícil. Bem pior, seguramente. Por isso, por me tornarem a vida mais fácil, segura, confortável e alegre, muito obrigado a todos.

publicado por cafe-vila-franca às 12:00

No Café Vila Franca, como nos cafés da trilogia de Álvaro Guerra, os personagens descrevem, interpretam e debatem a pequena história quotidiana da sua terra e, com visão própria, o curso da grande história de todo o mundo.
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