Janeiro 10 2021

Por ironia, nos EUA como em muitos países Europeus, incluindo Portugal, as classes sociais perdedoras da globalização, descontentes com o sistema que as tem vindo a excluir, foram cooptadas pelo representante político do poder económico especulativo e selvagem que as excluiu. De forma obviamente simplificada, a coisa passa-se assim: a globalização tem sido comandada, nas últimas décadas, pelo capitalismo financeiro dos novos senhores feudais globais; esse capitalismo controla os governos das democracias menos consolidadas como se fossem os seus feudos, e impõe sistemas de produção no esclavagista aos trabalhadores do Sul Global. No Norte Global, com instituições democráticas e Estados Providência mais consolidados (o que faz com que os eleitores vetem a agenda neoliberal de desregulação do mercado de trabalho na sua plenitude), não conseguem ir tão longe. Mas também corrompem governos, partidos, Tribunais, Polícias e outras instituições, e impedem-nos de responder convenientemente às necessidades daqueles que perdem – o emprego, o rendimento, o negócio, o futuro – com a globalização e com a revolução tecnológica. Os perdedores, julgando justamente que se encontravam mais seguros e afluentes no passado, olham para ele nostálgicos. Tornam-se conservadores ou até reacionários. Preferiam que o tempo andasse para trás. Como não anda, ironicamente, culpam aqueles que, no sistema político, era suposto defendê-los, protegê-los e criar oportunidades para os menos favorecidos. E apoiam os seus verdadeiros opressores.

Não culpam os responsáveis, mas apenas os seus criados. Quanto a esses responsáveis, prosseguem os seus esforços de destruição da democracia e das políticas redistributivas, montando bem orquestradas e eficazes campanhas de intoxicação da opinião pública, respaldadas em avultadíssimos meios para tirar partido da exclusão que criaram e cavalgar as suas vítimas na investida contra a democracia e o Estado Social.

Essas campanhas visam instaurar um clima de medo, a negação da ciência, o total desrespeito pela verdade, e a violação de princípios da decência e da dignidade humana. Exploram os mais baixos sentimentos do ódio e da inveja.  Diabolizam a política e a causa pública e acenam com os espantalhos de sempre: os estrangeiros, os pobres (na Vila Franca da minha meninice as mães controlavam as crianças dizendo que mandavam chamar o “Escuta”, e muitos dos seguidores dos direitistas dos nossos dias parecem criançolas), os ciganos, os judeus, o que for, e ainda, claro…os socialistas e os comunistas, que são toda a gente, desde o Papa Francisco ao qualquer funcionário público que no seu guiché cumpre a missão de que está incumbido, menos eles próprios e os seus cães de fila.

Essas campanhas transformam-se em programa de profissionais da política que se afirmam cinicamente contra a política e os políticos, contra o sistema, dizem eles, que têm em dobro todos os vícios de que acusam os outros. Falamos de figuras tenebrosas como Trump, Le Pen ou, passe a elevação a um nível que gostava de ter, mas não tem, Ventura, para muitos de nós apenas “o coiso”.  São eles os “testas de ferro” das mega empresas do capitalismo financeiro que gere a globalização. Que arregimentam uma tropa fandanga trauliteira, de gente frustrada e mal educada, pronta a transformar-se em polícia política ou chusma à volta do tacho num qualquer regime totalitário que aí possa vir. É fácil distingui-los daqueles que, iludidos, seguem os líderes populistas, racistas, xenófobos, eurocéticos e ultra-nacionalistas que comandam a globalização neoliberal que os colocou na situação em que se encontram,.

O trágico é que os perdedores da globalização, quando perceberem o logro em que caíram, pode estar muito mal já feito. O perigo é real. O bando que vem em pés de veludo poisar nas redes a vociferar que a extrema esquerda também é totalitária, não deixará de vir aqui também tentar enlamear o debate. Mas é preciso lembrar que, hoje em dia, a ameaça vem mesmo destes proto-fascistas, como o recente assalto à casa da democracia americana, o Congresso em Washington, vem mostrar com total limpeza. Só não vê quem não quer ver. Dramaticamente muitos não querem ver. Ironicamente, a maioria são os que mais perdem.

Para aqueles que dizem que culpa é dos democratas de esquerda, que se deixaram corromper, direi que isso é muito menos de meia verdade. Primeiro, porque os que se prestam a perverter o sentido republicano de serviço público são, na verdade, uma minoria. São muito maus, têm poder, mas são uma minoria. Em segundo lugar, porque a cobertura aos populistas xenófobos tem sido feita pela direita dita moderada, e não pela esquerda. Foi assim nos Açores e, mais visivelmente, foi assim nos EUA, onde os republicanos foram assistindo a toda a espécie de desmandos e ameaças de Trump, sem reagir, por mera partidarite. Triste. Mas deu para ver até onde é capaz de ir a extrema direita uma vez no poder.

publicado por cafe-vila-franca às 18:00

No Café Vila Franca, como nos cafés da trilogia de Álvaro Guerra, os personagens descrevem, interpretam e debatem a pequena história quotidiana da sua terra e, com visão própria, o curso da grande história de todo o mundo.
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