Agosto 12 2020

O oportunismo é o atributo principal dos oportunistas. Falemos, pois, destes, ficando-se assim a perceber o que é o primeiro, ou melhor, como se concretiza.

Os oportunistas são pessoas que se caracterizam pela superior capacidade de escolher as oportunidades que a vida e o acaso lhes oferece para alcançar o sucesso pessoal que almejam.  O sucesso pessoal é avaliado em função de critérios egoístas, não interessando o bem comum ou a solidariedade, mas apenas as recompensas pessoais. O investimento na concretização do sucesso é aceite por ser proporcionalmente muito inferior às recompensas. Os oportunistas não se guiam por princípios, ideologias ou valores duráveis, os quais são mesmo considerados incómodos empecilhos que só atrapalham as suas ambições. Guiam-se sempre pelo cálculo pragmático das vantagens que podem obter em cada situação.

Os oportunistas são tipos espertos (em português politicamente correto escreve-se “Os/As oportunistas são tipos/as…) que colonizam instituições como partidos políticos, instituições do Estado (aos níveis local, regional e central), Universidades, empresas, sindicatos e outras que lhes ofereçam boas plataformas de prosperidade. O topo dessas instituições e a respetiva corte tende a ser ocupado por oportunistas, que afastam sem piedade as pessoas criativas e inteligentes que, ingenuamente, as transportam ao ponto de onde podem desferir os seus mortíferos golpes. O “triunfo dos porcos” de George Orwell ilustra bem a sua estratégia.

Como conseguem os oportunistas prevalecer sobre pessoas mais inteligentes, mais qualificadas e mais criativas? Usando sem escrúpulos e em doses adequadas a perseverança, a paciência, a intriga, a mentira e a corrupção.

O tempo ideal para os oportunistas não é o tempo de crise, em que há que escolher soluções adequadas em contextos turbulentos e em que aqueles que lideram a mudança ficam expostos ao escrutínio público. Nunca dão a cara por uma ideia nova ou controversa. Preferem os períodos de continuidade para se infiltrarem nas organizações, atuarem no escuro dos corredores e esperando a oportunidade, que não perdem, de estar no momento preciso no lugar certo, sem se desgastar com as convulsões geradas pelas grandes mudanças. Por isso conseguem colocar-se à frente de pessoas qualificadas, inteligentes e capazes.

Como modo típico de ação, começam por se colar aos que trazem ideias novas, imaginam futuros alternativos, relacionam saberes para encontrar novas soluções para velhos e novos problemas. Estes estão tão ocupados em fazê-lo que se esquecem da presença dos cinzentos e obscuros oportunistas. Os oportunistas ficam ressentidos, mas aceitam pacientemente o papel subalterno. São tenazes e persistentes, suportando até sem protestos qualquer infâmia. Os oportunistas estão sempre prontos para ajudar nas tarefas menores, de forma diligente, sem levantar suspeitas sobre as suas verdadeiras intenções enquanto penetram nos meandros do poder, ao ponto de se tornarem indispensáveis nas organizações, ocupando-se do trabalho que outros mais brilhantes recusam. Guardam, porém, o rancor, ocultam-no e escondem-se com competências camaleónicas. São medíocres, mas também cruéis e no futuro, enquanto esganam aqueles que parasitaram, perguntam-lhes ao ouvido se se lembram das canseiras por que passaram e dos trabalhos sujos que fizeram.

Uma vez ganha a confiança ou o beneplácito dos empreendedores dedicam-se à conspiração uns com os outros, porque se reconhecem coma mesma facilidade com que ocultam as intenções de terceiros enquanto não alcançam o poder. Isto acontece principalmente quando as instituições esquecem os ideais que presidiram à sua criação e se viram para a sua própria sobrevivência. Os oportunistas, em conjunto, desenvolvem então toda a espécie de intrigas de forma a convencer os cidadãos comuns de que os seus interesses de sobrevivência são os interesses de toda a organização, que eles serviram humildemente tanto tempo.

Quando um alcança o poder, rodeia-se dos seus semelhantes, néscios e incapazes que não lhe possam disputar o poder e se limitem a esperar pela sucessão que o controlo dos aparelhos lhes garante. Em vez de promoverem o que de melhor existe na instituição (ou no país) escrutinam e perseguem as pessoas com luz própria, para a apagar.

Intrigam ainda mais e preparam a sua vingança. O rancor gera a energia de que carecem para resistir e ambicionar o poder absoluto. Constroem sofisticadas redes de compadrio, cumplicidade e corrupção que amarram cada vez mais pessoas à sua estratégia.

Uma vez no topo, mantêm os ressentimentos mesquinhos, não sendo nunca capazes de transmitir qualquer visão interessante à instituição, que se enrola em rotinas autojustificativas, servindo de base para a apropriação ilícita e amoral dos recursos. Comportam-se como déspotas, perseguem as pessoas inteligentes, criam problemas artificiais apenas para manter o controlo da situação.

A vingança em relação às pessoas criativas e inteligentes, sobre as quais lançam o opróbrio e a ignomínia, inventando mentiras que farão com que pareçam verdades, fica consumada quando estas passam a ser vistas como perigosas para a estabilidade institucional, que os oportunistas asseguram (a estabilidade sempre foi o terreno preferido dos medíocres).

Lambuzam-se alarves, rindo dos que, brilhantes, não souberam (repito, estavam demasiado ocupados a resolver problemas) tirar partido pessoal (a medida de todas as coisas para eles) dos movimentos e mudanças que produziram. De boas intenções está o inferno cheio, declaram, para desvalorizar os protestos das suas vítimas.

E conduzem as organizações à lastimosa situação de chafurdar na lama que eles próprios asseguram ser abundante. Tão abundante que impeça a maioria das pessoas de ver uma saída. E assim se conservam no poder.

Haverá instituições com maior concentração do que outras? Esta é uma questão que por agora deixaremos sem resposta.

Luís Capucha

publicado por cafe-vila-franca às 16:46

Fevereiro 23 2020

O caso João Moura, um pouco mais a fundo

Luís Capucha

O mundo taurino e os seus inimigos têm andado em sobressalto e grande agitação porque João Moura, cavaleiro tauromáquico, está indiciado por crimes de mau trato animal. Foram divulgadas imagens capazes de destroçar qualquer coração sensível, produzidas pela GNR, sobre o estado em que se encontravam 18 cães galgos de que era proprietário. Não me espanta se mais imagens aparecerem de outros animais, eventualmente até cavalos, em estado idêntico, aumentando assim o vozerio.

Estes acontecimentos e as imagens que os ilustram têm sido amplamente comentados, na comunicação social e nas redes sociais. Emergem três argumentos genéricos. Um é amplamente partilhado e condena a prática de maus tratos animais, e em geral resulta na manifestação de vontade de uma condenação severa. Outro, vindo do lado dos aficionados à festa de toiros, separa a condenação do cidadão João Moura da sua condição de cavaleiro tauromáquico, afirmando que uma coisa (o mau trato animal) não tem nada a ver com a outra (a tauromaquia). Este argumento faz-se acompanhar com frequência de uma condenação reforçada por ser João Moura alguém que deveria dar o exemplo. O terceiro vem das associações animalistas, e tendem a generalizar o comportamento individual como se ele decorresse da própria natureza da tauromaquia.

Pessoalmente junto-me a todos os que condenam os maus tratos animais e, nesse sentido, não posso deixar de lastimar o que os meus olhos viram. Mas não me fico por aí. Interrogo-me sobre as circunstâncias em que estas coisas acontecem. João Moura – de cujo estilo artístico nunca fui adepto – é uma figura mundial do toureio. Revolucionou a arte de tourear a cavalo e fez história. Como artista foi daqueles a quem “entregaram as chaves do Banco de Espanha”, tal foi o seu sucesso artístico e consequente remuneração “astronómica” que conquistou, pelo seu mérito. Como chegou à situação de não conseguir assegurar um bom tratamento dos cães, ele que é também conhecido pelo gosto das corridas de galgos e do sistema de apostas que as rodeiam? Aparentemente, aconteceu-lhe o mesmo que a tantos artistas e desportistas que ganham fortunas e acabam na penúria. Fácil é condenar-lhes o suposto caráter fraco e a moral decadente. Mas o que é justo é tentar compreender os mecanismos que levam a situações como esta, em que os “astros” do passado se tornam incapazes de lidar com os diversos efeitos da sua própria glória. Mais do que culpados, são vítimas e merecem, mais do que de condenações, de ajuda e solidariedade (não confundir com perdão pelos crimes eventualmente cometidos). De resto, a própria Justiça tende a atender circunstâncias deste tipo quando julga os casos que lhe compete jugar, e faço votos de que assim seja neste caso. Fazer justiça não é só olhar aos factos objetivos, mas também às circunstâncias em que ocorrem.

Chagamos então à questão da Justiça. Concordo também com os que dizem que se deve deixar a Justiça fazer o seu trabalho. Mas, se assim é, porque é que de repente tanta gente se sente na obrigação de vir julgar o cidadão João Moura na praça pública? Na verdade, encontro muitos paralelismos entre este tipo de comportamento por parte de muitos aficionados e fenómenos coletivos que seguem os padrões do exorcismo e da queima das bruxas. Atuam como se se sentissem traídos por um dos seus ídolos, chegando cada um uma acha à fogueira que os queima quando estão na mó de baixo. Como se transportassem consigo um sentimento de culpa cuja expiação passa pela condenação do ídolo caído em desgraça, mesmo que ainda não declarado culpado pela justiça que afirmam dever atuar livremente. Por favor, assumam a vossa condição de aficionados sem complexos. Deixem funcionar a justiça e façam o que puderem para ajudar (insisto, para não gerar críticas fáceis, sem desculpar os seus atos) o cidadão.

Inaceitáveis são as tentativas de colagem de um ato praticado por um cidadão que por acaso é profissional do toureio, à tauromaquia no seu conjunto. Neste caso é também seguido um padrão de comportamento bem conhecido e particularmente perigoso. Qual é a diferença entre dizer que “um toureiro maltratou animais, logo todos os toureiros maltratam animais”, e dizer “um preto – ou um muçulmano – cometeu um crime, logo todos os pretos – ou muçulmanos – são potenciais criminosos”, ou “um cigano agrediu uma professora, logo todos os ciganos são agressores de professoras”? Estas generalizações abusivas são sobejamente conhecidas como estratégia usada pelo populismo para difundir ideais racistas e fascistas e ganhar adeptos por via do medo ao “outro”, aquele que de algum modo é diferente de um “nós” que se pretende construir e alargar. Qual a diferença entre esta estratégia e a que utilizam as organizações animalistas para atacar a tauromaquia e, mais do que isso, impor na sociedade a sua maneira de olhar o mundo e estimular a intolerância e o maniqueísmo? Nenhuma. Assim, a principal conclusão que retiro deste caso remete para a indistinção de fundo entre os objetivos e os métodos dos grupos neonazis e racistas e dos grupos animalistas.

Aliás, misturando e mistificando toda a realidade, estas associações querem matar dois coelhos de uma cajadada: atacar a tauromaquia e também promover a proibição das corridas de galgos, outra das suas reivindicações promocionais.

Duas notas ainda para concluir. Primeiro, confesso que não posso deixar de confessar o meu desconforto perante a proporção que esta situação ganhou. Todos os dias se cometem crimes e maus tratos contra pessoas que não geram a onda de indignação que este caso está a gerar. Reconheço como certo o princípio de que um crime não desculpa outro (outro argumento fácil que dispenso os críticos de esgrimir). Mas também recuso o relativismo, que aponta para que não se estabeleçam hierarquias na maneira como devemos olhar para diferentes crimes. As pessoas não são iguais aos animais, e os crimes contra pessoas não podem ser vistos no mesmo plano que se vêm os crimes contra os animais. Por isso, de resto, é que o quadro penal cria penas diferentes para uns e outros. Dizer o que digo é dizer que os direitos humanos são absolutos, ao contrário do que pretende o relativismo cultural que tende a atribuir o mesmo valor a todas as coisas, o que acaba sempre por se transformar na atribuição de um valor superior à causa particular em que se milita.

A segunda nota resulta de uma teimosa desconfiança, possivelmente falsa e conspirativa (como se sabe, não há bruxas), de que existe uma relação entre a dimensão mediáticas ganha por este caso e dois conjuntos de sondagens recentes. Refiro-me, por um lado, à sondagem publicada há um par de semanas que mostra uma adesão de massas à tauromaquia e, pelo contrário, o caráter ultra minoritário do anti taurinismo. Por outro lado, à queda acentuada do PS nas intenções de votos dos portugueses, que algo, mesmo que pouco, resultará da posição sectária da liderança do PS em relação aos toiros, demonstrada na subida do IVA nas touradas. Alguma coisa tinham de fazer os anti taurinos e o PS, mais as suas máquinas de propaganda, para se “vingar” da tauromaquia e inverter as tendências. O seu azar é que a cultura de um povo não se muda assim tão facilmente.

publicado por cafe-vila-franca às 13:08

Fevereiro 23 2020

Escrevi hoje no Público online as seguintes palavras, que quero deixar registadas com direitos de autoria, porque nunca vi enunciada esta ideia: “se postularmos que os homens e os outros animais – ainda que apenas os sencientes – são iguais nos seus direitos, não estaremos a defender a civilização. Antes pelo contrário, estaremos a promover a selvajaria. Os animais, mesmo os neurologicamente mais dotados, não podem controlar por si próprios e de sua livre vontade os instintos que comandam o seu comportamento. Ora, é precisamente de controlo dos instintos que se fala quando se fala de civilização. Não se podendo elevar os animais não humanos a esse nível que apenas a cultura e a razão permitem, só pode haver igualdade baixando os homens e as mulheres à sua condição animal pura e dura, isto é, a um estado de selvajaria absurdo, mas a que alguns nos querem conduzir”.

Gostaria de acrescentar agora que uso o termo civilização no sentido que Norbert Elias deu ao conceito de processo civilizacional.

Simplificando os meus argumentos, só há duas maneiras lógicas de conseguir a igualdade entre homens e animais: ou elevando a condição animal ao estatuto de humanidade, ou fazendo descer a humanidade ao estado senciente dos animais. O encontro a meio caminho não existe.

A primeira maneira de promover essa igualdade, elevar os animais à condição humana, só é possível na imaginação e no plano simbólico. Nas fábulas e em metáforas nas quais os animais são humanizados, como acontece, por exemplo, na chamada “cultura Disney”. O problema é que há pessoas que tomam a imaginação e o símbolo pela realidade. Por isso o dano da humanização dos animais não é menor do que a animalização humana: perdem-se as referências e as fronteiras, dilui-se o sentido humanista da vida e torna-se possível toda a barbárie.

A segunda maneira, como disse acima, leva à selvajaria e ao fim da civilização. Não é uma impossibilidade material. O homem chega por vezes a limites que o animalizam, fazendo recuar a civilização. O nosso quotidiano está cheio de exemplos desse fenómeno, de que a História fornece inúmeros exemplos, alguns dos quais, como o do Partido Nazi, convivem com a defesa da proteção dos animais. Em qualquer dos casos, o perigo do animalismo é evidente e o seu combate é um combate pela civilização.

publicado por cafe-vila-franca às 13:08

Novembro 06 2018

Escrevi hoje no Público online as seguintes palavras, que quero deixar registadas com direitos de autoria, porque nunca vi enunciada esta ideia: “se postularmos que os homens e os outros animais – ainda que apenas os sencientes – são iguais nos seus direitos, não estaremos a defender a civilização. Antes pelo contrário, estaremos a promover a selvajaria. Os animais, mesmo os neurologicamente mais dotados, não podem controlar por si próprios e de sua livre vontade os instintos que comandam o seu comportamento. Ora, é precisamente de controlo dos instintos que se fala quando se fala de civilização. Não se podendo elevar os animais não humanos a esse nível que apenas a cultura e a razão permitem, só pode haver igualdade baixando os homens e as mulheres à sua condição animal pura e dura, isto é, a um estado de selvajaria absurdo, mas a que alguns nos querem conduzir”.

Gostaria de acrescentar agora que uso o termo civilização no sentido que Norbert Elias deu ao conceito de processo civilizacional.

Simplificando os meus argumentos, só há duas maneiras lógicas de conseguir a igualdade entre homens e animais: ou elevando a condição animal ao estatuto de humanidade, ou fazendo descer a humanidade ao estado senciente dos animais. O encontro a meio caminho não existe.

A primeira maneira de promover essa igualdade, elevar os animais à condição humana, só é possível na imaginação e no plano simbólico. Nas fábulas e em metáforas nas quais os animais são humanizados, como acontece, por exemplo, na chamada “cultura Disney”. O problema é que há pessoas que tomam a imaginação e o símbolo pela realidade. Por isso o dano da humanização dos animais não é menor do que a animalização humana: perdem-se as referências e as fronteiras, dilui-se o sentido humanista da vida e torna-se possível toda a barbárie.

A segunda maneira, como disse acima, leva à selvajaria e ao fim da civilização. Não é uma impossibilidade material. O homem chega por vezes a limites que o animalizam, fazendo recuar a civilização. O nosso quotidiano está cheio de exemplos desse fenómeno, de que a História fornece inúmeros exemplos, alguns dos quais, como o do Partido Nazi, convivem com a defesa da proteção dos animais. Em qualquer dos casos, o perigo do animalismo é evidente e o seu combate é um combate pela civilização.

publicado por cafe-vila-franca às 23:51

Setembro 09 2018

A Sociologia não está de boa saúde em Portugal

Luís Capucha

Tenho manifestado ultimamente nalguns momentos, nomeadamente em Congressos da Associação Portuguesa de Sociologia, muita preocupação com o estado atual e o futuro da Sociologia em Portugal.

Um período alargado de adesão de uma boa parte dos sociólogos académicos à perspetiva relativista, paroquialista e amplamente demagógica que se desenvolveu a partir do epicentro coimbrão que segue cegamente o “guru” Boaventura, levou, por um lado, a profissão a afastar-se das estruturas associativas da sociologia (o relativismo cultural, o predomínio das questões da identidade e o paroquialismo enganadoramente “anti hegemónico” são inúteis para o exercício profissional dos sociólogos) e, por outro lado, a ciência a fugir aos grandes problemas da atualidade.

Essa perspetiva ajudou alguns dos mais destacados representantes dessa linha “científica” que recusa as regras básicas da ciência, a encontrar notoriedade na comunicação social. O afã de protagonismos e as pequenas vaidades deram-se bem com a “utilidade” que alguns órgãos de comunicação social ditos de referência viram nessa perspetiva que se diz crítica, como se crítica não fosse, por definição, toda a ciência sociológica, bastando-lhe para isso ser ciência. Dá-lhes jeito aquele “ar” de abertura para encobrir um crescente fechamento ideológico politicamente conservador que predomina claramente nesses órgãos. Mascara-se a realidade com maquilhagens de pluralidade, escolhendo-se cirurgicamente as filiações paradigmáticas que, de tão rebuscada e prudentemente “críticas”, se tornam absolutamente inócuas. Muitos jovens sociólogos ficam deslumbrados…

Mas o mal é mais profundo. Ele atinge as instituições responsáveis pela gestão da ciência e influenciam o modo como elas afetam a distribuição dos recursos. Vou dar como exemplo para sustentar o que digo, os resultados do último concurso para a atribuição de bolsas de doutoramento pela FCT na área da sociologia. Eis a lista, pela ordem decrescente da notação:

  1. Veganismo e autenticidade: práticas de consumo ético no contexto da modernidade tardia
  2. Gays conservadores: O ativismo homossexual nas redes da nova direita brasileira
  3. A convivência com a seca: desigualdades sociais e impactos das alterações climáticas no Alentejo
  4. Trajetos das crianças descendentes de imigrantes no ensino básico: O poder dos contextos escolares na produção do sucesso
  5. Transglobal Indie: a configuração das cenas de rock independente do Porto e de Fortaleza pelas ruas das cidades (1980-2020)
  6. Diversidade Regional da Fecundidade em Portugal: Transição para o Segundo Filho nas Áreas Metropolitanas
  7. Paternidades Trans*: os homens que engravidam no Brasil e em Portugal
  8. Dinâmicas afetivas e sexuais: a (des)construção do casal heterossexual intimo e igual
  9. O papel das redes sociotécnicas entre as universidades e o meio nas trajetórias profissionais dos académicos
  10. Ficar de Fora: Contextos, Processos, Disposições e Reflexividades dos adultos pouco escolarizados que não retomaram a educação formal
  11. A escola do futuro? Entre a Rutura e a Reforma: Autonomia e Processos Educativos em Portugal, numa perspetiva comparada.
  12. Desigualdades Sociais e Coesão Social Europeia
  13. Correr à noite na cidade: o fenómeno dos “night runners” em Coimbra.
  14. O fenómeno da praxe em contexto universitário portuense: discursos e práticas
  15. Policies for disability: comparing different models of care
  16. Ecofeminismo, sustentabilidades e o empoderamento das mulheres camponesas no Alentejo (Portugal) e na Bahia (Brasil)
  17. RBI - Rendimento Básico Incondicional, os impactos nas trajetórias de ativação e produção de bem-estar dos cidadãos

 

Aprendi a ser sociólogo tomando esta ciência como um compromisso entre a razão crítica da ciência e o dever ético da contribuição para o combate contra os grandes problemas sociais. A função da sociologia (já sei que só por usar esta expressão, alguns me vão acusar de positivista) é a de transformar os problemas sociais em problemas sociológicos, de modo a equacionar, com base na imaginação sociológica (sociológica quer aqui dizer respeitadora dos critérios fundamentais da ciência), visões alternativas de futuro.

Ora, o que a lista acima revela é que se perdeu, não totalmente, mas em boa parte, este compromisso entre o que fazem os sociólogos e os grande problemas sociais.

Bem sabemos, e nisso não pode haver cedências, que a agenda científica obedece a protocolos próprios e o que é cientificamente um objeto do maior interesse pode ser um fenómeno de escasso interesse social. O critério da pertinência obriga, neste caso, a manter algum equilíbrio entre aquilo que são iniciativas exploratórias em domínios de reduzido relevo público, e o dever ético da ciência procurar responder aos grandes temas dos nossos tempos.

Ora, o que eu encontro na lista dos projetos eleitos são oito (8) candidaturas de relevância social geral mais do que duvidosa (entre as quais as duas melhor classificadas), ou melhor, de relevo social particularista, e  oito (8) candidaturas sobre temas de grande relevo social (3 em educação e educação de adultos, uma em ambiente e género, outra sobre a fecundidade, uma sobre as desigualdades sociais e duas sobre políticas sociais - reabilitação de pessoas com deficiência e Rendimento Básico de Inserção). Uma décima sétima reparte-se entre os dois campos (trajetórias profissionais e académicos).

De fora ficam problemas como as relações de trabalho, o urbanismo, a paz, o Estado, entre muitos outros.

Em suma, esta lista revela um engajamento relevante da sociologia com agendas sociais e políticas específicas e particularistas, bem conotadas ideológica e partidariamente, e uma correspondente desresponsabilização em relação aos grandes problemas sociais das sociedades dos nossos tempos.

 

Embora tenha identificado uma perspetiva responsável pelo desvio, devo notar que ele não está já localizado. De facto, na lista dos projetos aprovados estão 4 do CIES, 3 do ICS, 3 do CES, 3 da FLUP, 1 da Universidade do Minho, 1 da Universidade de Aveiro, 1 conjunto do CIES e Dinâmia e outro baseada num conjunto alargado de Centros de Investigação. O problema é, pois, geral.

Também não julgo que o desvio se fique a dever à composição do Júri, onde no entanto não estão presentes de instituições como o ISCTE-IUL (onde reside o mais antigo e maior núcleo de investigadores em sociologia do país), nem da Universidade Nova, da Universidade da Beira Interior e da Universidade de Aveiro. A origem dos membros é suficientemente alargada para mostrar que não se trata de uma sobreposição entre a ideologia e uma ou um par de instituições.

 

Parece-me ser tempo da sociologia portuguesa, moderna e internacionalizada, regressar aos valores que a prestigiaram, recusando o acantonamento em nichos para onde a atraem as sereias que cantam bem (que giros que são certos temas, e como nos asseguram a exibição de uma identidade o mais crítica e à esquerda possível, de bem com as nossas consciências “independentes”, dir-me-ão) mas não alegram em nada um mundo cada vez mais cinzento e perigoso.

Vila Franca de Xira, 9 de setembro de 2018

 

publicado por cafe-vila-franca às 17:42

Março 07 2017

Desculpem este momento de humor. Não me levem a mal.

Quero propor um teste de cultura geral para quem queira falar sobre Vila Franca de Xira. É simples responder. Para resposta a cada uma das perguntas apresentam-se três soluções, mas só uma está certa. Se falhar alguma, tem de se informar. Se acertar em todas, também tem de se informar, porque estas são questões para iniciados. Vamos a isto (a brincar).

1. Entre que pretendentes ao trono português se travou a batalha conhecida como Vilafrancada?

a. D. Pedro e D. Miguel

b. D. Carlos e D. Tiófilo Braga

c. D. João e D. Manuel

 

2. Quem criou a primeira receita de sável frito com açorda de ovas?

a. O Zé Russo

b. A Maria de Lurdes Modesto

c. Os antepassados do Zé Russo

 

3. Qual a freguesia em que nasceu o escritor neo-realista, combatente anti-fascista e militante comunista Soeiro Pereira Gomes?

a. Alhandra

b. Vila Franca de Xira

c. Gestaçô

 

4. Em que altura do ano se realiza a secular Feira de Outubro em Vila Franca de Xira?

a. Em torno do primeiro Domingo de Outubro

b. Em qualquer altura de Outubro

c. Quando a Câmara Municipal disser

 

5. Qual é o Santo Padroeiro de Vila Franca de Xira

a. São Vicente

b. Santo António

c. São Sebastião

 

6. O torricado...

a. um petisco da Torreira

b. um petisco criado na Lezíria pelos campinos

c. um petisco da Torrinha

 

7. No Concelho de Vila Franca de Xira existem diversas fortificações que faziam parte das...

a. Linhas de Torres Vedras

b. Linhas da CP

c. Linhas da Torre de Moncorvo

 

8. Café Central é o título de um livro escrito por...

a. Alves Redol

b. Mia Couto

c. Álvaro Guerra

 

9. A que chamamos o "Pátio Galache"?

a. Ao Pátio de quadrilhas dos toureiros que vinham tourear a Vila Franca

b. Ao Pátio onde se guardavam as galochas

c. Ao Pátio onde as diligências que ligavam Lisboa ao Porto mudavam de cavalos

 

10. Em que ano foi inaugurada a Praça de Toiros Palha Blanco?

a. No ano de 1901

b. No ano em que se inventou a açorda de sável

c. No ano das aparições em Fátima, 1917

 

Concentre-se, tente a sua sorte e verifique se está em condições de falar sobre a cultura da nossa terra.

Boa sorte

publicado por cafe-vila-franca às 22:29

Agosto 15 2016

 

“Regime” político é uma expressão imprecisa e polissémica. Tal como “sistema” económico, conceito de fronteiras fluidas e de conotação múltipla, o que lhe permite de resto uma utilização recorrente. Como esta nota não constitui um ensaio científico, dispensar-me-ei de proceder a uma revisão concetual cuidada de ambas as expressões, e passarei de imediato a uma definição prática e cómoda da situação portuguesa: temos vivido num regime republicano, semi-presidencialista e democrático. Temos eleições livres e universais, separação de poderes (mesmo que alguns, como o judiciário, não funcionem), liberdade de expressão, de manifestação, de greve, de imprensa e de associação. Temos liberdade política – partidos – e social – relações industriais entre sindicatos e associações patronais autónomas. A economia política – o sistema – baseia-se na coexistência do estado social (inacabado, como por definição serão sempre os estados sociais), do mercado capitalista e da sociedade civil, como esferas principais da organização política, económica e social.

Embora com um atraso de dois séculos em relação a outros países que são hoje nossos pares – ainda que alguns deles incomparavelmente mais poderosos – chegámos, pois, a um regime e a um sistema típicos da modernidade ocidental.

Esses países modernizaram-se e tornaram-se simultaneamente mais justos no plano social e mais eficientes no plano económico num quadro de conflito e competição, que levou a dois catastróficos conflitos mundiais. Porém, saíram do segundo conflito com uma nova ambição de paz, cooperação e promoção da solidariedade social como base do crescimento económico. O modelo social Europeu, uma das melhores invenções da humanidade, só foi possível com base nessa cooperação, materializada na criação da CEE, depois UE.

Países como Portugal, chegados tardiamente à democracia e à liberdade, encontraram nesse espaço uma referência e um suporte para o seu próprio progresso. A modernização “inacabada” em Portugal foi assim, em boa parte, o produto do processo de convergência com os seus novos parceiros, que vinha acontecendo desde 1974 até 2011. Depois, a crise interrompeu o processo e a própria UE dá sinais de perigo de dissuloção, uma vez que foi incapaz de evoluir politicamente para uma organização útil para os cidadãos.

Nos trinta anos que levamos como "europeus" a reconversão setorial da economia e a recomposição de estruturas e processos sociais e políticos foram profundos e geraram legítimas expectativas entre os cidadãos. Por isso eles aceitaram uma mudança importante no regime consubstanciada na delegação de competências nacionais na União Europeia e nas suas instituições. Outros estados-membro procuravam eventualmente outros benefícios dessa União, mas para Portugal ela representava a segurança do regime democrático e a sustentação do progresso económico e social. Mas em qualquer dos casos consumou-se uma perda – embora relativa – do papel dos estados-nação singulares a favor de uma coligação de estados-nação. Embora de forma menos profunda, processos de associação semelhantes ocorreram noutras regiões do sistema mundo (no pacífico, no Mercosul, etc.).

A partir dos anos noventa do século passado muitas coisas mudaram de forma profunda. As mais importantes, no seu conjunto, formam o que chamamos hoje “globalização”. O impacto competitivo dessa nova realidade fez-se sentir fortemente na Europa, igualmente confrontada com processos socio-demográficos desafiantes das instituições nacionais e europeias, como o envelhecimento.

A “resposta” a estes problemas que se tornou dominante é conhecida pelo nome de neoliberalismo. No essencial, o neoliberalismo, tem vindo a impor uma agenda de recuo do papel do Estado e da solidariedade politicamente organizada a nível político, a favor da liberdade de ação dos agentes singulares entregues às suas próprias forças que, no caso das classes de menores recursos, são afinal fraquezas. O Estado social tem vindo a ceder à dualização das políticas sociais (acesso aos melhores recursos pelos mais ricos, mínimos para os mais pobres). Os mais poderosos, apoiadas em mudanças tecnológicas que facilitaram o processo, tiraram todas as vantagens.

Daí até aos nossos dias vieram assim a crescer as desigualdades sociais e a acumulação de capital atingiu níveis que provocaram enormes desequilíbrios sociais e económicos. Os mecanismos de mobilidade social enfraqueceram-se e as desigualdades aprofundaram-se, com benefício dos que já eram privilegiados havia muito, como bem mostrou Piketty.

Foram as desigualdades, diretamente relacionadas com o novo capitalismo especulativo do mundo financeiro globalizado, que geraram a crise de 2007/2008. Esta começou por ser financeira, mas rapidamente se revelou sistémica, revelando igualmente as dificuldades de governabilidade democrática – isto é, processada na esfera pública – do sistema global.

A crise tem, pois, várias facetas, todas elas dramáticas: o recuo da solidariedade e o avanço do egoísmo, não apenas nas relações entre as pessoas, mas também entre as classes sociais e os países; o crescimento da pobreza em zonas onde tinha recuado para níveis próximos da erradicação e a manutenção de situações de extrema precariedade de extensos segmentos da população que, em várias zonas do mundo, vivem abaixo de qualquer limiar imaginável de dignidade humana; a ameaça do aquecimento global e das catástrofes que se vão mostrando por causa dele, anunciando tragédias ainda maiores; o crescimento do ódio, da xenofobia, da intolerância e das suas consequências na violência – terrorista e de estado –, na perseguição/expulsão ou no fechamento de fronteiras a migrantes; o avanço de regimes ditatoriais quando se esperava uma crescente “mancha democrática” no mapa mundial; a persistente descriminação das mulheres, entre outros “grandes problemas” da humanidade e, naturalmente, também portugueses.

Se a estes fenómenos juntarmos os “pequenos riscos” que enxameiam a comunicação social e invadem o quotidiano das pessoas, bem se compreende o clima de medo e o sentimento de crise permanente em que nos estamos habituando a viver.

Do Estado se esperaria, de acordo com as suas funções explícitas em sociedades como a portuguesa, uma ação corretora destes problemas. A corrupção e a promiscuidade entre negócios e política, que estão longe de ser mera retórica populista, confirma a denúncia feita por muitos analistas, da captura do Estado por parte de interesses particulares. Aqueles que, como é costume, ganham com as crises. E o sentimento de “crise” omnipresente cresce. E já nem a Europa nos vale, pelo contrário parece apostada em oprimir-nos e humilhar-nos.

Ao ponto a que chegámos, quase podermos dizer que, mais do que uma ação política para superar a crise, aquilo que parece afirmar-se como realidade estável é a crise (palavra que entretanto se banalizou, facilitando o convívio com ela), nas suas diversas dimensões, como matéria de que se vai alimentando da própria ação do regime político. Com todos os perigos que isso acarreta. Nomeadamente o de que o totalitarismo das crises não se reflita em qualquer crise do regime político. Que segue feliz e contente, como se nada se passasse.

publicado por cafe-vila-franca às 22:16

Junho 05 2016

Dois acontecimentos recentes motivam este meu comentário. A reação de alguns lisboetas aos planos para a construção de uma Mesquita em Lisboa, e a tentativa do PAN, PEV, BE e 10 Deputados do PS iniciarem um processo de destruição da Festa de Toiros (como se não bastassem os que, de dentro, a vão minando com os seus comportamentos).

O que une os dois acontecimentos? A intolerância, o preconceito, o autoritarismo, a discriminação, a ignorância e a prepotência. As mesmas que levam ao abuso sobre as crianças, à violência doméstica, à exclusão social, à segregação de quem é diferente das maiorias em matéria cultural, de sexo e orientação sexual, de idade, de cor da pele, de nacionalidade ou de estatuto social. Matérias muito diferentes, mas com o mesmo denominador comum. Vejamos então estes dois casos.

Quanto à Mesquita. A Constituição da República Portuguesa consagra a independência do Estado em relação a qualquer Igreja ou Religião e o princípio da liberdade religiosa. Desde sempre em Lisboa coabitaram pessoas professando diferentes credos, todas elas praticando livremente os seus cultos. Há até uma Mouraria na nossa capital. As exceções a estas regras constituem momentos negros da época medieval, com a perseguição a certas comunidades religiosas, como os Judeus.

Por causa das organizações terroristas que se dizem islamitas e dos ataques que têm sido perpetrados de forma bárbara, em nome da Fé (não interessando agora olhar a história das religiões e das relações entre os povos que as professam, nem os conflitos que tantas vezes se desencadearam em nome de um deus, quase sempre com a religião a ser cavalgada por outros interesses bem mais prosaicos, onde se podem encontrar as causas do terrorismo) muitas pessoas têm passado a olhar de maneira discriminatória todos aqueles que acreditam no Profeta. Fazem-no de forma irracional, movidas pelo medo e pelo ódio, que cega e leva à rejeição dos muçulmanos como se fossem todos iguais.

Muitas dessas pessoas não conseguem ver, tal a cegueira xenófoba, que com isso só alimentam por um lado, os próprios terroristas que visam espalhar o ódio, e, por outro lado, aqueles que provocam e alimentam os conflitos no médio oriente porque isso convém aos seus negócios.

Impedir a liberdade religiosa dos muçulmanos de Lisboa é fazer o mesmo que fazem tantos países do mundo árabe em que o culto de religiões que não as do Islão é proibido e selvaticamente reprimido. Como aliás se reprime toda e qualquer liberdade de pensar. Não podemos ser iguais a eles. Porque não podemos ser aquilo que condenamos. E porque isso é estúpido: ataca-se uma esmagadora maioria de cidadãos dignos satisfazendo os objetivos de criação de instabilidade, tensão e conflito perseguidos por uma minoria de fanáticos assassinos.

Tem, por isso, toda a razão a Câmara de Lisboa no que respeita à construção da Mesquita, e estão totalmente erradas as pessoas que, acicatadas por políticos populistas de direita, se manifestam contra a liberdade religiosa. Estão a manifestar-se, ao fim e ao cabo, contra a sua própria liberdade.

Aparentemente da esquerda, mas felizmente apenas do PEV, do BE e de uma dezena de imbecis do PS (do PAN recuso-me a falar), têm vindo os ataques à tauromaquia. De forma cobarde, usando pretextos diversos como o combate ao trabalho infantil, a promoção da escolaridade, o bem  estar animal, a defesa psicológica das crianças e a prevenção da violência, esses partidos apresentaram na Assembleia da República uma série de propostas de Lei que visam, caminhando “step by step”, acabar com a Festa de Toiros em Portugal.

Querem acabar com uma cultura (é assim que a lei portuguesa considera a tauromaquia) por decreto, apenas porque não gostam. Não faz parte dos seus padrões valorativos. Nunca fizeram o mínimo esforço para a compreender. Assumem apenas uma atitude arrogante de quem se sente superior aos seus concidadãos (até aos seus militantes de terras aficionadas). Mais civilizados, mais pacifistas, mais “amigos dos animais”, mais sensíveis e mais cultos. Quando no fundo são apenas mais ignorantes, pois a arrogância é irmã da ignorância.

No fundo o que pretendem é coartar a liberdade cultural, a livre expressão da identidade cultural de uma parte significativa do nosso povo, numa lógica de dominação e fascismo cultural absolutamente inaceitáveis. Não são menos totalitaristas, autoritários e preconceituosos do que aqueles que se esganiçam contra os imigrantes e os refugiados, procurando fechar-lhes as portas e negar-lhes uma oportunidade de vida digna.

Podem aparentar tonalidades diferentes, mas a farinha é do mesmo saco. Perseguir minorias religiosas e proibir manifestações culturais profundamente enraizadas em vastas zonas – das mais urbanas e modernizadas, às mais rurais e deprimidas – não tem nada de diferente. A ambas as coisas se dá o nome de preconceito e intolerância, instrumentos com que se fabricam todos os totalitarismos.

publicado por cafe-vila-franca às 12:16

Dezembro 02 2015

Hoje, dia 2 de dezembro, o primeiro governo de coligação entre o PS e a sua esquerda da era constitucional da democracia portuguesa apresentou-se no Parlamento para discutir o seu programa. Um dia destes deixarei aqui as minhas notas sobre o que se passou no plano político em Portugal desde 2011 e a minha opinião sobre os notáveis acontecimentos que se verificaram. Mas hoje resolvi escrever sobre um assunto urgente.

Em resposta a uma interpelação do Deputado do PAN, o Primeiro Ministro António Costa respondeu que discordava da fixação de uma regra nacional para o assunto, preferindo uma solução na qual devem ser os municípios a decidir o fim das touradas. É uma declaração ameaçadora.

No dia em que, em entrevista a um canal de televisão, A. Costa admitiu que poderia alargar as negociações que conduzia com os partidos à esquerda do PS até ao PAN, afirmei no Facebook que deixava de pagar as quotas e, portanto, de ser militante do PS. Não admito que um partido de tradição humanista negoceie com um partido misógeno, animalista, que coloca aqueles que diz serem os problemas dos animais acima dos problemas das pessoas e que possui uma visão do mundo que seria legítima, caso não a procurasse impôr, seja por que meio for, de modo totalitário, aos outros. 

Alguns amigos e amigas meus/minhas aficionados e ingénuos têm-me dito que não devemos prestar muita atenção aos que pretendem abolir a festa de toiros, porque são apenas um bando que procura o mero protagonismo e as sua bravatas estarão destinadas ao fracasso. Tenho insistido, por escrito e em intervenções diversas, que essa posição esquece a natureza dos atuais animalistas e das forças internacionais que os suportam, em defesa dos seus negócios e da dominação cultural, impondo uma maneira única (e nada natural) de olhar o mundo e a relação do homem com a natureza.

Hoje creio que ficou claro que o impacto da sua ação pode ser mais pernicioso do que muitos imaginam. É claro que os mais ingénuos julgarão as palavras de A. Costa como julgaram sempre a atuação dos políticos nas últimas décadas - na verdade, desde a proibição dos toiros de morte pelo governo fascista. Sempre evitaram o tema, receosos de desagradar ou a gregos ou a troianos. A posição de A. Costa também tem um pouco desta cobardia política: passar o assunto para os autarcas, sacudindo a água do capote.

Mas há uma nuance que não se pode deixar de notar: ele podia ter dito que "devem ser os municípios a decidir o que fazer com as touradas". Mas não, a frase só aponta para o fim das touradas. Isto faz toda a diferença. Nos municípios não se farão, então, referendos sobre o desenvolvimento da festa, mas apenas sobre o seu fim?

Já muitas vezes defendi que uma solução para a regulação da festa de toiros como a que existe em França, que deixa às comunidades locais e aos seus agentes políticos essa regulação, poderia ser útil em Portugal. Mas isso se, e apenas se, os municípios assumirem toda a regulação da festa. Incluindo as modalidades que ela assume, desde as tauromaquias populares às corridas integrais com toiros de morte. Mas não é isso que A. Costa diz. Ele não diz que quer fazer aprovar no Parlamento uma Lei que anule todas as anteriores e que transfira toda a regulação, mas toda mesmo, para os municípios. O que quer dizer que continuaremos limitados, sem a corrida integral e sem toiros em pontas, correndo ainda o risco de alguns municípios, dirigidos por gente facciosa, poderem ficar privados das corridas que agora se realizam no seu território. Seria um passo no sentido do tal fim, aparentemente desejado, de todas as formas de touradas.

Acho que a declaração é suficientemente grave e esclarecedora para que todos os setores taurinos e aficionados se reunam com urgência para debater a situação e as medidas a tomar. E devem exigir aos deputados que foram eleitos por círculos eleitorais onde predomina a cultura tauromáquica, aos outros que se dizem aficionados e aos autarcas, que se definam e digam de que lado estão. Nenhum deles pode ficar calado agora e mais tarde vir procurar simpatias numa qualquer barreira numa das praças em que às touradas não se ponha fim.

Este post é dedicado ao meu pai, Armando Capucha, que hoje cumpriria o seu 92º aniversário se ainda estivesse entre nós e que detestava políticos cínicos.

publicado por cafe-vila-franca às 21:24

Outubro 23 2015

Deste riquissimo período da história política do Portugal contemporâneo que estamos a atravessar, vão perdurar dois momentos pela sua grandiosa baixeza. Hesito em pronunciar-me sobre qual dos dois achei mais baixo e caricato, pelo que os coloco no mesmo plano. Falo, por um lado, da heróica reação do MRPP aos resultados eleitorais, decidindo expulsar o pobre do Garcia Pereira por "anti-comunista primário". Nem o Fernando Rosas, no auge do seu eloquente "auto-critico-me, camarada", faria pior.

Por outro lado, há o discurso de hoje do Cavaco Silva, no qual indigitou Passos Coelhos como primeiro-ministro e, do alto da sua imbecil senilidade, declarou que "jamais, fica ordenado, haverá no meu reinado, outra tourada real"...oh! desculpem (falar destas coisas tira-me do sério), um governo com BE e PCP em Portugal.

Podemos olhar os dois factos quer pela componente formal, quer pela substantiva, do ponto de vista do pragmatismo ou dos princípios, numa ótica sistémica ou realista, respeitando a tradição ou a inovação. Mas calma, não me vou servir deste esquematismo fácil para vos maçar. Basta chamar a atenção para como ele é útil para comentaristas que não podem ir além deste tipo de dicotomias simplistas (e, tirando-os deste filme, fica a minha chapelada ao Pacheco Pereira e aos poucos que escapam a estes esquemas mentais tão arrasadores como vazios no contexto). São esquemas perfeitamente utilizáveis para preencher toneladas de papel e resmas de horas de TV, sobre temas tão em baixo relevo. Na verdade são ambos factos políticos de pasmar. Duas pérolas. E não compreendo a razão pela qual os comentadores de direita (que são quase todos), que falam e escrevem nos órgãos de comunicação social de direita (que são todos), dão muito menos relevo à inteireza e coragem revolucionária da camarada Marta, do que à pulhice do ex-pide (segundo documentos que circularam nas redes e nunca foram desmentidos), corrupto comprovado, velhaco consabido e vingativo (que o dgam Carlos do Carmo e Saramago, lá na cova) Silva. Entrtanto, vamos sobrevivendo nesta amargura. À espera dos próximos episódios!

publicado por cafe-vila-franca às 00:26

No Café Vila Franca, como nos cafés da trilogia de Álvaro Guerra, os personagens descrevem, interpretam e debatem a pequena história quotidiana da sua terra e, com visão própria, o curso da grande história de todo o mundo.
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