Agosto 12 2020

O oportunismo é o atributo principal dos oportunistas. Falemos, pois, destes, ficando-se assim a perceber o que é o primeiro, ou melhor, como se concretiza.

Os oportunistas são pessoas que se caracterizam pela superior capacidade de escolher as oportunidades que a vida e o acaso lhes oferece para alcançar o sucesso pessoal que almejam.  O sucesso pessoal é avaliado em função de critérios egoístas, não interessando o bem comum ou a solidariedade, mas apenas as recompensas pessoais. O investimento na concretização do sucesso é aceite por ser proporcionalmente muito inferior às recompensas. Os oportunistas não se guiam por princípios, ideologias ou valores duráveis, os quais são mesmo considerados incómodos empecilhos que só atrapalham as suas ambições. Guiam-se sempre pelo cálculo pragmático das vantagens que podem obter em cada situação.

Os oportunistas são tipos espertos (em português politicamente correto escreve-se “Os/As oportunistas são tipos/as…) que colonizam instituições como partidos políticos, instituições do Estado (aos níveis local, regional e central), Universidades, empresas, sindicatos e outras que lhes ofereçam boas plataformas de prosperidade. O topo dessas instituições e a respetiva corte tende a ser ocupado por oportunistas, que afastam sem piedade as pessoas criativas e inteligentes que, ingenuamente, as transportam ao ponto de onde podem desferir os seus mortíferos golpes. O “triunfo dos porcos” de George Orwell ilustra bem a sua estratégia.

Como conseguem os oportunistas prevalecer sobre pessoas mais inteligentes, mais qualificadas e mais criativas? Usando sem escrúpulos e em doses adequadas a perseverança, a paciência, a intriga, a mentira e a corrupção.

O tempo ideal para os oportunistas não é o tempo de crise, em que há que escolher soluções adequadas em contextos turbulentos e em que aqueles que lideram a mudança ficam expostos ao escrutínio público. Nunca dão a cara por uma ideia nova ou controversa. Preferem os períodos de continuidade para se infiltrarem nas organizações, atuarem no escuro dos corredores e esperando a oportunidade, que não perdem, de estar no momento preciso no lugar certo, sem se desgastar com as convulsões geradas pelas grandes mudanças. Por isso conseguem colocar-se à frente de pessoas qualificadas, inteligentes e capazes.

Como modo típico de ação, começam por se colar aos que trazem ideias novas, imaginam futuros alternativos, relacionam saberes para encontrar novas soluções para velhos e novos problemas. Estes estão tão ocupados em fazê-lo que se esquecem da presença dos cinzentos e obscuros oportunistas. Os oportunistas ficam ressentidos, mas aceitam pacientemente o papel subalterno. São tenazes e persistentes, suportando até sem protestos qualquer infâmia. Os oportunistas estão sempre prontos para ajudar nas tarefas menores, de forma diligente, sem levantar suspeitas sobre as suas verdadeiras intenções enquanto penetram nos meandros do poder, ao ponto de se tornarem indispensáveis nas organizações, ocupando-se do trabalho que outros mais brilhantes recusam. Guardam, porém, o rancor, ocultam-no e escondem-se com competências camaleónicas. São medíocres, mas também cruéis e no futuro, enquanto esganam aqueles que parasitaram, perguntam-lhes ao ouvido se se lembram das canseiras por que passaram e dos trabalhos sujos que fizeram.

Uma vez ganha a confiança ou o beneplácito dos empreendedores dedicam-se à conspiração uns com os outros, porque se reconhecem coma mesma facilidade com que ocultam as intenções de terceiros enquanto não alcançam o poder. Isto acontece principalmente quando as instituições esquecem os ideais que presidiram à sua criação e se viram para a sua própria sobrevivência. Os oportunistas, em conjunto, desenvolvem então toda a espécie de intrigas de forma a convencer os cidadãos comuns de que os seus interesses de sobrevivência são os interesses de toda a organização, que eles serviram humildemente tanto tempo.

Quando um alcança o poder, rodeia-se dos seus semelhantes, néscios e incapazes que não lhe possam disputar o poder e se limitem a esperar pela sucessão que o controlo dos aparelhos lhes garante. Em vez de promoverem o que de melhor existe na instituição (ou no país) escrutinam e perseguem as pessoas com luz própria, para a apagar.

Intrigam ainda mais e preparam a sua vingança. O rancor gera a energia de que carecem para resistir e ambicionar o poder absoluto. Constroem sofisticadas redes de compadrio, cumplicidade e corrupção que amarram cada vez mais pessoas à sua estratégia.

Uma vez no topo, mantêm os ressentimentos mesquinhos, não sendo nunca capazes de transmitir qualquer visão interessante à instituição, que se enrola em rotinas autojustificativas, servindo de base para a apropriação ilícita e amoral dos recursos. Comportam-se como déspotas, perseguem as pessoas inteligentes, criam problemas artificiais apenas para manter o controlo da situação.

A vingança em relação às pessoas criativas e inteligentes, sobre as quais lançam o opróbrio e a ignomínia, inventando mentiras que farão com que pareçam verdades, fica consumada quando estas passam a ser vistas como perigosas para a estabilidade institucional, que os oportunistas asseguram (a estabilidade sempre foi o terreno preferido dos medíocres).

Lambuzam-se alarves, rindo dos que, brilhantes, não souberam (repito, estavam demasiado ocupados a resolver problemas) tirar partido pessoal (a medida de todas as coisas para eles) dos movimentos e mudanças que produziram. De boas intenções está o inferno cheio, declaram, para desvalorizar os protestos das suas vítimas.

E conduzem as organizações à lastimosa situação de chafurdar na lama que eles próprios asseguram ser abundante. Tão abundante que impeça a maioria das pessoas de ver uma saída. E assim se conservam no poder.

Haverá instituições com maior concentração do que outras? Esta é uma questão que por agora deixaremos sem resposta.

Luís Capucha

publicado por cafe-vila-franca às 16:46

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No Café Vila Franca, como nos cafés da trilogia de Álvaro Guerra, os personagens descrevem, interpretam e debatem a pequena história quotidiana da sua terra e, com visão própria, o curso da grande história de todo o mundo.
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