Dezembro 02 2020

Há mais de 40 anos dois lemas marcaram a minha vida, em diferentes períodos da juventude (nessa altura, aos 17 anos, era-se um jovem adulto). Um marcadamente ideológico, e outro com uma forte marca da fé. “Ousar lutar, ousar vencer” era um, e “a sorte protege os audazes”, o outro.

Um de cada vez, cada um dos dois representava não apenas um conjunto de valores, mas principalmente um quadro de pertença institucional que tomavam conta da vida toda.

Ao longo da vida fui atravessando situações em que me cruzei com muitos outros lemas e com muitos outros contextos sociais que os construíram. Fui dependendo cada vez menos desses dois lemas e multiplicando as pertenças institucionais. Os dois lemas perderam espaço, mas ficaram para sempre, embora quase sempre com outros sentidos, remetendo para outros objetivos, orientando outros passos. Tal como ficaram alguns dos que vieram depois. Mas nenhum passou a ser, digamos, totalitário, ou sequer dominante. Posso mesmo dizer que passei a desconfiar de quaisquer lemas de vida, se isso significar ficar amarrado e de olhos vedados.

A multiplicação das dependências torna-nos independentes. A independência e a autodeterminação não operam num vazio. Operam a partir das redes de relação, das pertenças, das experiências e das referências que incorporamos num padrão de personalidade próprio. Multiplicando-as, pode uma pessoa transformar-se, como diria Firmino da Costa, num depredador que, umas vezes mais conduzido pela razão, outras mais pelas emoções, e sempre com base em combinações das duas fontes de escolha, elege para cada fim em particular as peças específicas a pilhar no infinito tesouro da pluralidade cultural.

Porém, as escolhas não oferecem um número infinito de opções. Porque, como escreveu Bourdieu, elas são condicionadas por disposições duráveis que as orientam. São essas disposições que levam a que se escolha a ousadia em relação, por exemplo, à cobardia. Quem ousa vencer, pode vencer. A cobardia pode, combinada com a traição e a vileza, conferir vitórias efémeras, mas não mais do que isso, porque a derrota moral é o seu destino. A cobardia é a vergonha. A ousadia não é temeridade, é saber viver com os medos e, apesar deles, seguir em frente, fazendo o que tem de ser feito. A ousadia faz temer os inimigos, e isso aproxima-nos do sucesso, como se de uma sorte se tratasse. O sucesso não se afere só pelo trabalho, pelo dinheiro e pelo amor. Ser independente e audaz é, em si mesmo, sinónimo de ser bem-sucedido, sem mais recompensa. Pelo menos aos nossos próprios olhos. Significa que vencemos o medo e fizemos o que devíamos.

publicado por cafe-vila-franca às 00:06

No Café Vila Franca, como nos cafés da trilogia de Álvaro Guerra, os personagens descrevem, interpretam e debatem a pequena história quotidiana da sua terra e, com visão própria, o curso da grande história de todo o mundo.
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