Dezembro 19 2020

Desde março deste ano tenho podido, felizmente, manter a minha atividade profissional entre a casa e a universidade onde investigo e leciono. Quando lá vou, encontro-me com muito menos gente do que antes, mas há um grupo que continua a marcar presença diária: as senhoras da limpeza. São todas imigrantes de África e retribuem-me os simples bons dias e boas tardes nos corredores com sorrisos tímidos e com um cuidado impecável na limpeza do gabinete, dos corredores, dos equipamentos.

O ISCTE é, em tempos de pandemia, um dos lugares mais seguros que conheço. No ISCTE cheira a limpeza, os equipamentos que nos permitem manter comportamentos responsáveis estão disponíveis, a sinalética não nos permite esquecimentos quanto aos nossos deveres para nos protegermos a nós e aos outros. Mas na linha desta frente de combate ao vírus estão as senhoras da limpeza, que não podem ficar em casa, que vêm no comboio e que, expondo-se por nós, tornam o nosso espaço confortável e limpo.

Quando vou ao refeitório encontro-me com outras diligentes trabalhadoras imigradas, neste caso, do Brasil. Atendem com simpatia centenas de pessoas por dia, vigiando para que todas as regras sanitárias sejam mantidas por todos. É por isso que eu posso encontrar lá alimento. E quando as vejo, lembro-me das brasileiras a quem eu e a Fátima abrimos as portas de casa, como empregadas de limpeza doméstica. Pessoas da máxima confiança, competentes e diligentes. A elas devo a conservação da ordem na habitação em que me refugio para descansar e trabalhar.

De vez em quando lá tenho de fazer obras e, como não herdei do meu pai a habilidade para esses labores, contrato profissionais, aos quais também confio as chaves. Geralmente, são portugueses que conheço de longa data. Mas também já me socorri de ucranianos e já me espantei com a sua versatilidade e qualidade do trabalho, que impede que a chuva me entre em casa, permite que a água corra nas torneiras, e que os interruptores acendam e apaguem as luzes quando quero.

E, por falar da casa, como poderia eu esquecer o Sr. Arnold, um angolano que serviu o meu sogro em toda a obra que reabilitou o prédio antigo que se transformou na minha moradia atual. Moradia essa em que o meu grande e saudoso amigo José Manuel Teles “cigano” (que, entre outras coisas, me introduziu na magia de Sevilha e da sua Real Maestranza de Caballeria) colocou parquet, soalhos, tapetes e alcatifas.

Sem estas africanas e brasileiras, sem estes angolanos e ucranianos, e sem o José Manuel Teles, como teria sido a minha vida? Muito mais cinzenta e difícil. Bem pior, seguramente. Por isso, por me tornarem a vida mais fácil, segura, confortável e alegre, muito obrigado a todos.

publicado por cafe-vila-franca às 12:00

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No Café Vila Franca, como nos cafés da trilogia de Álvaro Guerra, os personagens descrevem, interpretam e debatem a pequena história quotidiana da sua terra e, com visão própria, o curso da grande história de todo o mundo.
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