Setembro 09 2018

A Sociologia não está de boa saúde em Portugal

Luís Capucha

Tenho manifestado ultimamente nalguns momentos, nomeadamente em Congressos da Associação Portuguesa de Sociologia, muita preocupação com o estado atual e o futuro da Sociologia em Portugal.

Um período alargado de adesão de uma boa parte dos sociólogos académicos à perspetiva relativista, paroquialista e amplamente demagógica que se desenvolveu a partir do epicentro coimbrão que segue cegamente o “guru” Boaventura, levou, por um lado, a profissão a afastar-se das estruturas associativas da sociologia (o relativismo cultural, o predomínio das questões da identidade e o paroquialismo enganadoramente “anti hegemónico” são inúteis para o exercício profissional dos sociólogos) e, por outro lado, a ciência a fugir aos grandes problemas da atualidade.

Essa perspetiva ajudou alguns dos mais destacados representantes dessa linha “científica” que recusa as regras básicas da ciência, a encontrar notoriedade na comunicação social. O afã de protagonismos e as pequenas vaidades deram-se bem com a “utilidade” que alguns órgãos de comunicação social ditos de referência viram nessa perspetiva que se diz crítica, como se crítica não fosse, por definição, toda a ciência sociológica, bastando-lhe para isso ser ciência. Dá-lhes jeito aquele “ar” de abertura para encobrir um crescente fechamento ideológico politicamente conservador que predomina claramente nesses órgãos. Mascara-se a realidade com maquilhagens de pluralidade, escolhendo-se cirurgicamente as filiações paradigmáticas que, de tão rebuscada e prudentemente “críticas”, se tornam absolutamente inócuas. Muitos jovens sociólogos ficam deslumbrados…

Mas o mal é mais profundo. Ele atinge as instituições responsáveis pela gestão da ciência e influenciam o modo como elas afetam a distribuição dos recursos. Vou dar como exemplo para sustentar o que digo, os resultados do último concurso para a atribuição de bolsas de doutoramento pela FCT na área da sociologia. Eis a lista, pela ordem decrescente da notação:

  1. Veganismo e autenticidade: práticas de consumo ético no contexto da modernidade tardia
  2. Gays conservadores: O ativismo homossexual nas redes da nova direita brasileira
  3. A convivência com a seca: desigualdades sociais e impactos das alterações climáticas no Alentejo
  4. Trajetos das crianças descendentes de imigrantes no ensino básico: O poder dos contextos escolares na produção do sucesso
  5. Transglobal Indie: a configuração das cenas de rock independente do Porto e de Fortaleza pelas ruas das cidades (1980-2020)
  6. Diversidade Regional da Fecundidade em Portugal: Transição para o Segundo Filho nas Áreas Metropolitanas
  7. Paternidades Trans*: os homens que engravidam no Brasil e em Portugal
  8. Dinâmicas afetivas e sexuais: a (des)construção do casal heterossexual intimo e igual
  9. O papel das redes sociotécnicas entre as universidades e o meio nas trajetórias profissionais dos académicos
  10. Ficar de Fora: Contextos, Processos, Disposições e Reflexividades dos adultos pouco escolarizados que não retomaram a educação formal
  11. A escola do futuro? Entre a Rutura e a Reforma: Autonomia e Processos Educativos em Portugal, numa perspetiva comparada.
  12. Desigualdades Sociais e Coesão Social Europeia
  13. Correr à noite na cidade: o fenómeno dos “night runners” em Coimbra.
  14. O fenómeno da praxe em contexto universitário portuense: discursos e práticas
  15. Policies for disability: comparing different models of care
  16. Ecofeminismo, sustentabilidades e o empoderamento das mulheres camponesas no Alentejo (Portugal) e na Bahia (Brasil)
  17. RBI - Rendimento Básico Incondicional, os impactos nas trajetórias de ativação e produção de bem-estar dos cidadãos

 

Aprendi a ser sociólogo tomando esta ciência como um compromisso entre a razão crítica da ciência e o dever ético da contribuição para o combate contra os grandes problemas sociais. A função da sociologia (já sei que só por usar esta expressão, alguns me vão acusar de positivista) é a de transformar os problemas sociais em problemas sociológicos, de modo a equacionar, com base na imaginação sociológica (sociológica quer aqui dizer respeitadora dos critérios fundamentais da ciência), visões alternativas de futuro.

Ora, o que a lista acima revela é que se perdeu, não totalmente, mas em boa parte, este compromisso entre o que fazem os sociólogos e os grande problemas sociais.

Bem sabemos, e nisso não pode haver cedências, que a agenda científica obedece a protocolos próprios e o que é cientificamente um objeto do maior interesse pode ser um fenómeno de escasso interesse social. O critério da pertinência obriga, neste caso, a manter algum equilíbrio entre aquilo que são iniciativas exploratórias em domínios de reduzido relevo público, e o dever ético da ciência procurar responder aos grandes temas dos nossos tempos.

Ora, o que eu encontro na lista dos projetos eleitos são oito (8) candidaturas de relevância social geral mais do que duvidosa (entre as quais as duas melhor classificadas), ou melhor, de relevo social particularista, e  oito (8) candidaturas sobre temas de grande relevo social (3 em educação e educação de adultos, uma em ambiente e género, outra sobre a fecundidade, uma sobre as desigualdades sociais e duas sobre políticas sociais - reabilitação de pessoas com deficiência e Rendimento Básico de Inserção). Uma décima sétima reparte-se entre os dois campos (trajetórias profissionais e académicos).

De fora ficam problemas como as relações de trabalho, o urbanismo, a paz, o Estado, entre muitos outros.

Em suma, esta lista revela um engajamento relevante da sociologia com agendas sociais e políticas específicas e particularistas, bem conotadas ideológica e partidariamente, e uma correspondente desresponsabilização em relação aos grandes problemas sociais das sociedades dos nossos tempos.

 

Embora tenha identificado uma perspetiva responsável pelo desvio, devo notar que ele não está já localizado. De facto, na lista dos projetos aprovados estão 4 do CIES, 3 do ICS, 3 do CES, 3 da FLUP, 1 da Universidade do Minho, 1 da Universidade de Aveiro, 1 conjunto do CIES e Dinâmia e outro baseada num conjunto alargado de Centros de Investigação. O problema é, pois, geral.

Também não julgo que o desvio se fique a dever à composição do Júri, onde no entanto não estão presentes de instituições como o ISCTE-IUL (onde reside o mais antigo e maior núcleo de investigadores em sociologia do país), nem da Universidade Nova, da Universidade da Beira Interior e da Universidade de Aveiro. A origem dos membros é suficientemente alargada para mostrar que não se trata de uma sobreposição entre a ideologia e uma ou um par de instituições.

 

Parece-me ser tempo da sociologia portuguesa, moderna e internacionalizada, regressar aos valores que a prestigiaram, recusando o acantonamento em nichos para onde a atraem as sereias que cantam bem (que giros que são certos temas, e como nos asseguram a exibição de uma identidade o mais crítica e à esquerda possível, de bem com as nossas consciências “independentes”, dir-me-ão) mas não alegram em nada um mundo cada vez mais cinzento e perigoso.

Vila Franca de Xira, 9 de setembro de 2018

 

publicado por cafe-vila-franca às 17:42

No Café Vila Franca, como nos cafés da trilogia de Álvaro Guerra, os personagens descrevem, interpretam e debatem a pequena história quotidiana da sua terra e, com visão própria, o curso da grande história de todo o mundo.
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